Sinto-me cais.
Em mim atracaram já tantos amores, vestidos ou não de filhos e filhas, de companheiras, de camaradas, de amigos e amigas.
Todos, sem excepção, deixaram seus cordames amarrados em mim. E continuam a deixar.
Não me é fácil quando alguém sai de mim para se fazer à água.
Fico vazio durante uns tempos. Muito tempo, às vezes... E esse vazio não se preenche com outro barco pois há sempre o laço dos afectos, uma amarração unipessoal e interpessoal com características identitárias específicas. E cada afecto é um afecto específico, é um afecto dirigido àquela pessoa. Exclusivamente. Irrepetível.
E sou tentado, depois, a avaliar em que medida não fui suficiente cais para as embarcações que em mim atracaram e que de mim levantaram ferro.
Se calhar, não foi nada disso: se calhar as cordas com que estavam amarrados a mim encarregar-se-ão de testemunhar se fui ou não um cais eficaz, se fui ou não um amigo ou um amante ou um companheiro ou um camarada à altura dos que estiveram atracados em mim e que, entretanto, partiram.
Se calhar precisavam de mim para bolinar, para estagiar para novos ventos, como os passaritos que levantam voo depois de terem feito tirocínio no ninho.
E, quando olho para esses pedaços de cordame que ficam marcados - ficam sempre marcados - nos pinos de atracação, leio-os e sorrio.
Sorrio porque me recordo, sem nostalgia e sem saudosismo, que vivi bons momentos, que sorri bons sorrisos, que lutei boas lutas com esses barcos que entretanto de mim partiram. E lembro-me que, também, esses barcos a mim chegaram.
E, apesar de tudo, sinto-me um privilegiado. Porque todos esses amores me ensinaram a refinar o amor: o próximo. Não ao próximo porque sem esse não haveria nenhum dos outros.
O próximo, aquele a seguir a este.
Aquele pelo qual todos estamos apaixonados.
E volto serenamente ao meu ofício de ser cais.
(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e Os Dias"