Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
a carreira dos sonhos
E pronto, cá estamos em 2016.
Mais um bissexto.
Começo hoje as comemorações dos 45 anos em que piso palcos. Estas comemorações arrastar-se-ão ao longo deste bissexto.
Mas hoje quero lembrar aqui e agradecer a todos os que comigo pisaram palcos e que comigo comeram o pó da estrada, esse pó que tantas alegrias trouxe mas que tantas dores e amarguras soube trazer também, esse desgraçado.
A esta hora não me consigo lembrar do nome de todos e nem sequer de todos os projectos e utopias em que me meti. De cabeça, diria eu. Não sei se é exacto dizer que foi de cabeça.
Mas de coração foi-o, asseguro-vos com toda a certeza. E com Amor.
Porque esse tal amor ao próximo, esse tal amor universal tem sido muitas vezes amor em tempos de cólera - para ir roubar a deliciosa intitulação ao grande Gabo -.
Pessoalmente, preferiria que fosse amor em tempos de amor.
Mas, tal como acho que não existe a Arte pela Arte, essa quimera que tem gasto páginas e saliva a literatos e teorizadores, talvez o Amor pelo Amor também não exista. Talvez seja uma outra quimera onde tantos poetas e corações apaixonados têm navegado desde sempre, desde que o tal Big Bang teve aquele orgasmo e foi parido o Universo.
Talvez exista, isso sim, o Amor pelo Mundo, aquele Amor que só se faz com a arte de quem ama e do qual eu sou ainda um obscuro suplente para estagiário de apanha-bolas.
Mas acredito que lá chegarei um dia.
E que todos lá chegaremos um dia.
Um belo dia, se querem saber, pois é naquilo em que acredito.
E que, nesse dia, todas as portas se escancarão, obscenas.
E que nesse dia muitas utopias perseguidas deixarão de o ser apenas porque se tornaram tangíveis.
E que passaremos a ter outras utopias porque o Sonho, esse cabrãozinho que nos move, vem recheado dum desejo que não se sacia jamais.
Ao longo destes anos quis fazer muitas coisas.
Algumas fi-las.
Outras, outros as farão se eu não tiver tempo para tal pois tenho andado muito ocupado entre as várias tarefas a que me dedico diariamente, entre as quais destaco: a sobrevivência, o sonhar coisas, o fazer com que essas coisas o sejam mais do que o meu sonho, o partilhar sonhos com outros.
E quero que saibam que tudo isso se resume na palavra sobreviver:
Sobreviver ao medo, ao cataclismo que nos amarfanha o pensamento e o amor, sobreviver ao autoclismo que nos manda os sonhos pela pia abaixo, sobreviver à ordem estabelecida que nos uniformiza e que nos faz acreditar que somos livres sem o sermos.
Estou feliz porque me sinto bem.
Já fiz muitas coisas. Mais do que pensaria alguma vez poder vir a fazer.
Mas, sobretudo, já fiz muitas coisas com muita gente. E porque muita gente me empurrou para as fazer.
De toda essa gente aprendi coisas. Também servi de veículo de transporte desses ensinamentos de umas gentes para outras gentes. E dessas novas gentes também aprendi coisas. Sempre. Com a avidez de quem tem sempre muita sede.
E como me é impossível - apenas porque não quero correr o risco de não falhar algum - citar todos os nomes daqueles com quem partilhei isto a que, talvez pomposamente, chamo de carreira, aqueles que se sacrificaram comigo ou por mim para que hoje eu aqui chegasse sem que tivesse desistido, condenso o meu abraço em sete lindos seres humanos sem os quais nada disto faria sentido:
Luis, Laura, Macarena, Rui, Camila, Dahiana e Lia.
Peço-vos um brinde:
À NOSSA!
À VIDA!
Foto: Ramon Freitas
sábado, 26 de dezembro de 2015
alma líquida
não sabia...
juro que não sabia...
pouco dela imaginava que não fosse aquilo que ela escrevia na parede da sua casa que, afinal, é a rua:
e até mesmo isso já dela tanto contava, pois há nessa rua cibernética, nessa rua virtual a água de beber de quem é pessoa sedenta de escrever nas suas paredes, grafitter na virtualidade partilhada.
porque só quem ama a rua consegue amar na rua.
e há nela, que tanto ama a rua, tanta sede de amar na rua!...
e foi assim:
pouco dela era - juro - aquilo que imaginava...
talvez apenas algumas misteriosas histórias contadas pelos anéis dos seus caracóis, então tantos!...
e, mesmo essas histórias, eram epopeias guardadas naquelas lindas espirais, pequenos cofres feitos de cabelo que eram...
aliás: o tempo verbal "eram" nem é o mais correcto pois subsistem provas de que esses novelos existiram, para provar aos incréus através de inúmeras evidências fotográficas, o que faz com que persistam vivos apesar das mutilações e das suas cíclicas vontades de alisar rebeldias.
e quem os observe com rigor de detalhista, constatará que vivem mexendo-se ao ritmo do sorriso enigmático, esses caracóis que teimam em afirmar-se a despeito de tesouras e outros utensílios que visem alterar o seu formato de cachos viçosos, crianças que são no seu afã de adolescer...
e esses caracóis não eram apenas ilustrações dos seus enigmáticos sorrisos.
logo ela, a única gioconda que se move e que também está guardada num museu que só esse nome merece por enclausurar uma tal jóia tão rara.
sim, porque esse sorriso, a meio caminho entre a folia negada e a lágrima imerecida, é, na verdade, a cristalização de alegrias sonhadas e de dores gravadas na sua alma com cinzel de pedreiro que ela tenta sepultar com colher de trolha e cimento.
mas não há cimento que segure essas dores nas feridas que ela permitiu em si que lhe abrissem.
não há.
e, volta e meia, uma dessas dores sai cá para fora, sai do ataúde que ela julgava ser seguro, sai rumando a outros escaninhos, outros esconsos e devãos que ela mesma desconhece possuir, que ela mesma ignora de todo que existam dentro de si mesma...
e essa dor vem morder-lhe órgãos vitais, lancinante, excruciante, arregalando-lhe os belos olhos para o pranto que nela urge.
e é aí que os olhos, essas belas goteiras, servem de tubo-ladrão a tanta dor.
mas nunca dão vazão a tanta mágoa, a tanto amarrotar de alma.
mas, apesar de tudo, os caracóis obstinam-se em crescer na sua cabeça, uma cabeça que retém memórias de planuras e cachoeiras e passaredo colorido.
e de feras.
e de pores-de-sol que só por lá existem.
ali e em mais lado nenhum.
e só quem nasceu num local conhecido por ali ser o fim-do-mundo, onde a terra enfim se esgota de ser terra para se desterrar todinha no mar, só gente assim percebe isso...
eu não percebo, sou sincero.
mas gostaria de perceber.
gostaria de lhe aprender isso dela.
gostaria de lhe aprender isso, em vez de ficar entregue ao ofício de me fascinar pelo brilho dos seus olhos, quando os seus olhos brilham naquele brilhar em que se vê mesmo que não é um brilho de ver para fora...
pois nesses mágicos instantes sei que ela está a olhar para dentro de si mesma, a ver todas as áfricas que já existiram, a saborear todos os sabores que já lá foram cozinhados e colhidos das suas árvores, a cheirar todas as histórias que já viveu em todas as vidas que ela viveu...
e que, essas áfricas, ela faz com que aconteçam fora de áfrica.
e ela lá vive durante aqueles breves e fugazes instantes em que se desprende daqui - seja este aqui o que seja - para voar em busca de si mesma e da identidade da sua alma temperada por europas insossas e sensaborãs.
esta mulher é uma agência de viagens de si mesma.
voa e revoa em si.
e, nesses momentos, queria eu entrar por esses olhos e nadar dentro dela, dentro das paisagens e sabores e cores e aromas que lhe povoam o ser.
mas é isso mesmo que é ser-se: é não se ser outra pessoa.
eu sou eu. ela é ela.
nunca eu viajaria nos seus sentires mesmo que ela soubesse deixar-me tal fazer...
nunca conseguiria...
mas é pena...
porque um imenso mundo lhe inunda a alma de menina...
e sinto, confesso, inveja em não ser ela nesses momentos.
porque poderia desfrutar de tais viagens? não...
apenas porque poderia estar dentro dela.
ser ela durante um átimo que fosse...
sabê-la...
e, juro-vos que não sabia, mas era para mim mais do que evidente que só quem nasceu num lugar assim tem essa vertigem pelo calçado raso pois é uma forma de mais perto estar do chão-terra-mãe...
ou pelas botas, protecção contra lacraus e serpentes...
mas suspeitava, isso sim, suspeitava, que aqueles caracóis em permanente rebeldia lhe dirão isso mesmo algum dia: "olha, rapariga, olha que nada contem a vontade de rebeldia quando essa rebeldia vive da vontade de se rebelar".
Carlos Clara Gomes
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
sorriso
não sei o que foi
mas dizia muito,
o teu sorriso
naquele elevador
dizia-me
da beleza da tua alma
como se se desnudasse
em novembros apesar
de todos os gelos desse então
depois,
o silêncio cavou loras e regatos
para que as águas do tempo
regassem abundantemente
as palavras que lá plantámos
e que um dia colheremos
quando primaveras
despontarem à esquina
e aí,
a safra trará
tudo o que não nos dissemos,
enquanto aguardávamos
a maturação.
SPA2015, Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
mas dizia muito,
o teu sorriso
naquele elevador
dizia-me
da beleza da tua alma
como se se desnudasse
em novembros apesar
de todos os gelos desse então
depois,
o silêncio cavou loras e regatos
para que as águas do tempo
regassem abundantemente
as palavras que lá plantámos
e que um dia colheremos
quando primaveras
despontarem à esquina
e aí,
a safra trará
tudo o que não nos dissemos,
enquanto aguardávamos
a maturação.
SPA2015, Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
eugenia
VER VÍDEO
Estamos perante uma operação de eugenia selectiva (ainda por cima baseada em critérios de bolsa).
Nada muito diferente da "Solução Final" praticada pelo III Reich de má memória!
E, já agora: Por que não eliminar qualquer tipo de cuidados médicos? Assim como assim, todos morreremos, mais tarde ou mais cedo!... Para quê, portanto, andar a "gastar" em medicamentos, cuidados médicos, hospitais, etc?...
carlos clara gomes
Estamos perante uma operação de eugenia selectiva (ainda por cima baseada em critérios de bolsa).
Nada muito diferente da "Solução Final" praticada pelo III Reich de má memória!
E, já agora: Por que não eliminar qualquer tipo de cuidados médicos? Assim como assim, todos morreremos, mais tarde ou mais cedo!... Para quê, portanto, andar a "gastar" em medicamentos, cuidados médicos, hospitais, etc?...
carlos clara gomes
firmeza
Comemorações que "tiveram que ser feitas" a contragosto, escondidas e envergonhadas (notam-se os esgares de repugnância nos rostos dos oradores de turno).
A bandeira ao revés num pátio escondido, longe da Rotunda dos heróis que nos trouxeram a República que tão incansavelmente tem sido estuprada.
Quatro gorilas empurram uma mulher que está em protesto.
Uma cantora lírica traz para o quintal dos ricos um hino do povo, reclamando Firmeza.
Uma ou duas tias afectadas, de tão distraídas e burras até aplaudem por julgarem fazer parte da "instalação".
Dos baús das canções que julgávamos demodées, saltam hinos e refrões como pescado acabado de trazer pela companha.
A coisa já começou e já rola e rola.
Só não vê quem não quer.
E depois dos cantores na rua? Quem virá?
Um sniper?
Alvíssaras.
carlos clara gomes
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
crónicas na acert
A Companhia DeMente inaugura na ACERT mais uma digressão da CRÓNICAS DO INVERNO.
Depois de cumprido um ciclo de 11 apresentações, iniciado em Junho, é com muito gosto que iniciamos este novo ciclo no NOVO CICLO, este espaço congregador onde tantos de nós aprendemos a caminhar, tenteando equilíbrios próprios de quem descobre umas quantas coisas por descobrir.
E o lindo da coisa é que este Espaço não é só um cabimento geométrico confinado a umas paredes: Espaços e respectivas paredes há em todo o lado, apesar de ultimamente até haver mais paredes do que espaços…
Pois é: mais do que este Espaço, respira-se aqui um Tempo que não envelhece porque em devido tempo soube tomar o elixir da terna juventude: e é o Tempo que torna a espacialidade deste Espaço assim tão especial…
Mas, mais ainda do que o Tempo, há o Modo. E é esse farsolas que dá sentido ao Tempo – não um qualquer tempo, mas o “tal” Tempo – respirado por várias safras de gente que têm trazido aportes diversos, que têm marcado diferenças na diferença que é este Espaço, esta Tempo, e este Modo…
E, num Tempo em que o Modo desfere libelos acusatórios contra quem nos trouxe até à Arca Perdida da dignidade, este espectáculo serve também como homenagem a uma geração sonhadora e abnegada, prensada entre os herdeiros do Maio de 68 – na sua serôdia versão lusa que foi Abril – e um novembro sem direito a maiúscula.
“É a crise”, ouvimos dizer agora...
Agora? Sinceramente, não é de agora que ouvimos isto.
Faz lembrar a Cantiga da Velha Mãe e dos seus Dois Filhos, do Zé Mário e do Godinho... Pois, às tantas, Portugal e Crise nasceram no mesmo dia, irmãos gerados no mesmo útero:
«Ai o meu pobre filho que rico que é / Ai o meu rico filho que pobre que é / Nascidos do mesmo ventre / Um vive de joelhos para o outro passar à frente».
No entanto, nos agoras em que agora vivemos, já nos levaram o Espaço: porque sem a Liberdade (que nos vão tirando dia-a-dia) não há espaço. Nem vice-versa.
Apenas este Portugal-espaço se mantém...
O Portugal-Tempo parou, adulterado pelas horas ordinárias a que somos forçados.
E há quem almeje vindas messiânicas duma qualquer rançosa bota cardada ou duns quantos Spartacus que nos quebrem os grilhões.
Tontitos, estes últimos: Não percebem que não há quem possa libertar quem entregou as chaves ao carcereiro... Como querem ser salvos da forca se ofereceram o machado ao algoz?...
Mas ainda não nos levaram o Portugal-modo: esta estranha forma de vida deste belo povo que, no dizer dum César-Merkl da altura, «nos confins da Hispânia há um povo que não se governa nem se deixa governar».
Assim, se já nos roubaram o Espaço e o Tempo, que não nos levem também o Modo.
Porque gente sem modos não é gente (ainda que não se governe e ainda – e ainda bem! – que não se deixe governar).
Carlos Clara Gomes
Tondela, 2 de Fevereiro de 2013
Foto:
(c) José Guilherme Lorena
carta ao Jorge
12 anos depois de Jorge Amado ter ido.
12 anos a continuar a sentir o seu sorriso pícaro e a sua atitude comprometida nas linhas que deixou e onde sempre vamos encontrando algo de novo.
A prova do tempo a provar que nem o tempo nem a morte valem um caroço.
Até um dia destes, amado Jorge Amado. Entretanto, vamos-te encontrando nas personagens que pariste.
Carlos Clara Gomes
Viseu, 6 de Agosto de 2013
exortação da república
Estuprada,
Pejada,
Amesquinhada
Várias hordas despejaram
No meu ventre
Ditaduras
Féis de ódio me lançaram
Contra a minha candura
Homens, velai! Eu amei-vos,
De vós eu fiz meus esteios
Percorrei minhas estradas
Alcançai minhas ameias
Trazei novas madrugadas
Às vidas despovoadas
E lembrai-vos:
Em cada pinga de vida
Há-de haver um cidadão
Cevando uma repulsa
Pelas grades do porão
Em que o queiram enfiar
Ou contra qualquer farpela
Que lhe imponham trajar
Segue, pois, tua vereda
Meu romeiro,
Ó viandante!
Ofereço-te o meu cajado,
Leva teu passo adiante
Acende na noite um lume
Para ao longe o lobrigarem
Guinda-te a um alto cume
E planta lá o teu pendão
Serpenteando à chuvarada
Ou ao sopro do Suão
E mesmo que alguém se atreva
A convencer-te a outorgar
Teu direito soberano
A uma única criatura
Recusa liminarmente,
Verás que não me engano:
Pois no âmago de tal gente
Fermentam as ditaduras
Empunha, então, teu bastão
Sacode-o, se a tal te obriga
Seu amparo é o agasalho
Do teu belo fundamento
Esse, sim, é o teu ceptro,
Teu soberano ornamento!
SPA2010, Carlos Clara Gomes
(último andamento de CINCO - ÓPERA DO CENTENÁRIO DA REPÚBLICA)
santo natal
E porque está quase aí o natal e porque os mafiosos Sinatra e Benet
cantam nas nossas ruas e porque até parece que somos excepcionalmente
felizes e que prezamos as relações humanas e todas essas coisas:
É só para alertar que se Maria, convencida da nossa patente generosidade sazonal, nos puser o Menino Jesus na soleira da porta dentro duma alcofa humilde para que o cuidemos por ela não ter meios, não se nos ocorra entregá-lo a uma IPSS para que o cuide...
carlos clara gomes
É só para alertar que se Maria, convencida da nossa patente generosidade sazonal, nos puser o Menino Jesus na soleira da porta dentro duma alcofa humilde para que o cuidemos por ela não ter meios, não se nos ocorra entregá-lo a uma IPSS para que o cuide...
carlos clara gomes
a ponte
Sinto que um dia poderei dizer com orgulho aos meus netos:
"Sabem uma coisa?
Naquele dia 19 de Outubro, o dia da Ponte, eu estive lá."
Sinto isso e sinto que os meus netos acharão, nesse achar que os netos em algumas idades acham, que o avô deles fez parte, ainda que por um ínfimo mas grande dia, de um imenso mar heróico de gente que quis ver o sol a brilhar apesar da violenta chuva que caía.
passagem de ano 2013/14
que é uma passagem de ano?
Pois: que 2013 para 2014 seja para tod@s uma estação de metro onde embarquemos para nova viagem rumo a outra estação mais soalheira.
E que essa viagem nos traga sorrisos esperançados, fazendo-nos uma preguinha no canto da boca.
Bom ano para tod@s!
carta ao Rui
O Rui Louro foi-se.
Conheci-o nos tempos de Liceu de Viseu.
Ele já era muito mais espigadote. Talvez uns dois ou três anos mais do que eu.
E este detalhe fazia, então. toda a diferença naquele 1974.
A fornada donde saiu o Rui adquiriu consciência política por ter lido O Capital do Marx e as Obras Escolhidas do Lenine. A minha apenas tinha adquirido alguma consciência por ter lido Os Subterrâneos da Liberdade e O Cavaleiro da Esperança, do Jorge Amado.
Mais tarde percebi que não foi bem assim: Quase ninguém tinha lido O Capital e as Obras Escolhidas do Lenine seriam as Obras Escondidas porque literatura dessa não chegava cá antes de Abril.
E depois de Abril havia tanta coisa para fazer num país em escombros que a grande maioria que os leu, leu-os de viés, começando a meio do segundo parágrafo da página par e indo directamente para o meio do último parágrafo da página ímpar.
Mas o Rui não era desses leitores enviesados: O Rui leu muita coisa e aprendeu vida com aquilo que leu. Mas, mais importante do que os clássicos da moda terem levado o Rui à Vida, a Vida também tinha levado o Rui a lê-los. E foi por haver durante todas as modas pessoas como o Rui que os clássicos não se confinaram ao estatuto de efémeros.
O Rui foi um dos primeiros comunistas que eu conheci. E, simultaneamente, um perigoso revisionista, no dizer da então minha agremiação, o MRPP.
Contudo, a despeito dessas coisas que nos clivavam então, havia o cultivo também da amizade, esse sereno mas intenso laço que une as pessoas na idade do deslumbramento e que nenhum senão logra desatar: sempre tive uma admiração e um respeito pelo Rui, como tinha pelos comunistas do PCP, meus inimigos ideológicos nesses entãos. O Rui morava por cima do Monte Branco, o café dos queques, e baixava a Avenida 25 de Abril rumo ao Centro de Trabalho do PCP na 21 de Agosto. Um dia, já depois do Novembro ter fechado as portas que o Abril do Ary dos Santos abriu, segui, resoluto, o Rui. Meti conversa, nunca me esquece, a propósito do álbum Quadrophenia, dos The Who. Subi com ele a escadaria do Centro de Trabalho do PCP, ambos fazendo ouvidos moucos aos apartes reaccionários produzidos pelo sapateiro que ocupava o vão de escada. O Rui defendia a tese de que a Ópera-Rock Tommy ultrapassava em larga escala o Quadrophenia. Por pouco não houve crispação: Na altura eu levantava fervura em pouca água. Até mesmo sem água. Continuámos o debate e metemos à conversa o psicadelismo dos Pink Floyd. Já na altura - ainda não tinha acontecido a primeira Festa do "Avante!" - e já corria a lenda de que "para o ano que vem, os Floyd são capazes de lá ir".
O Rui agarrou-se a um copiador de stencil e começou a passar a tinta no rolo e a fazer a sua tarefa militante. Era um compromisso. Aprendi nessa tarde a importância da palavra compromisso. É uma coisa que se faz porque outros contam connosco e não porque temos tempo livre para a fazer. Também aprendi nessa tarde que os soldados da Liberdade vivem o paradoxo de não terem tempos livres. Tudo isto entre conversas sobre música (o Rui era baterista e tocou até ao momento em que nos fez a desfeita de nos pregar esta partida), literatura, futebol, política, histórias da clandestinidade e tantas outras coisas. Naqueles tempos as tardes davam para falar disso tudo e ainda sobrava tempo para ficarmos em silêncio a ouvir os nossos próprios pensamentos.
Na tarde do dia seguinte voltei.
Não voltei para ir falar com o Rui. Voltei por mim. Porque tinha decidido na véspera mudar a agulha do comboio onde eu viajava. Senti que deveria mudar de comboio pois sentia que aquele comboio é que me levaria à estação que eu queria.
Não pretendia ser um herói, nunca quis. Nem quero! Mas queria, isso sim, construir-me através do convívio com heróis. E, para mim, aqueles que ali entravam e tinham resistido ao assalto às sedes dos partidos de esquerda, eram heróis: as pedras arremessadas pelos arruaceiros furiosos testemunhavam isso na varanda. E ainda lá ficaram muitos anos depois no ofício de testemunhar para quem não soubesse.
Ou seja: no dia seguinte entrei para a União dos Estudantes Comunistas, a UEC.
Essa tarde com o Rui foi importante para mim. Devo-lhe isso.
O Rui foi também, mais tarde, o primeiro dissidente do PCP que eu tinha conhecido. E isso deixou-me uma imensa tristeza.
Porém, até na sua saída, soube mostrar-me um exemplo de dignidade pois nas inúmeras conversas que tivemos posteriormente nunca tocámos nesse assunto.
Para quê?
Sabia que o Rui queria a mesma estação que eu queria.
Estas coisas são assim: há quem, para ir para o mesmo lugar, prefira as auto-estradas e há quem prefira as nacionais. Amigo não empata amigo pois sempre soubemos para onde queríamos ir. Essa estação chama-se Homem Novo.
E o Rui, nesta hora, deve já ter percebido melhor do que nós, aqueles que o choramos agora, como é e quem é esse tal Homem Novo.
Até um destes dias, Rui.
Vai montando a bateria e preparando a sala de ensaios para fazermos uma Jam.
mau feitio
Havia um escritor com tão mau feitio que o seu best-seller chamava-se O LIVRO DE RECLAMAÇÕES.
Carlos Clara Gomes
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Carta para vós sobre o Jaime
Com este Homem aprendi muito.
Pela mão dele comecei a minha aventura no Teatro.
Primeiro fazendo música e sonoplastia para Arraia Miúda e, mais tarde, submetendo à sua apreciação severa e cruel mas simultaneamente humana e terna, os textos que eu ia escrevendo, as canções que eu ia compondo.
Tivemos mil projectos para fazer juntos. Umas vezes calhou, outras não.
Percorremos quilómetros e quilómetros de estrada para levar a palavra a locais onde imperava e ainda impera o medo.
Assisti a autênticos comícios feitos por ele em aldeias ignotas e ostracizadas para públicos que a paixão do Jaime transformava em grandes arenas e coliseus.
Comemos pó que nos fartámos.
Bebemos água à beira da estrada.
Ensinou-me a cavar trincheiras usando as canções.
Ensinou-me a remar na Barca de Mestre Gil e em outras Barcas.
Ria-se do inferno.
Ria-se da indigência moral.
Ria-se sinceramente.
Ria-se.
"Sou apenas um cómico amador" dizia amiúde.
Escutava com sábios silêncios os meus devaneios de jovem apaixonado pela vida e sedento de uma Revolução.
Ensinou-me que a Revolução é a nossa casa porque ela está dentro de nós, assim o queiramos.
Ensinou-me.
Aprendi-lhe.
Grande parte do que sou devo-o a ele.
Resistiu.
Fez a guerra.
Fez as pazes.
E fez a guerra outra vez.
E fez as pazes outra vez.
Embarcou numa Barca sem barqueiro, que ele não era homem para ser conduzido.
Foi para um plano que é habitado pelos Gigantes, pelos Enormes.
Neste momento está já a converter Gil Vicente para uma Revolução urgente e imperiosa.
Senhoras e Senhores, chama-se Jaime Gralheiro, "apenas um cómico amador", pastor de causas malditas, soldado dos pobres, amante da Vida.
Até Sempre, Camarada!
Do teu amigo, que deixas cheio de saudade,
Carlos Clara Gomes.
Viseu, 21 de Junho de 2014
Pela mão dele comecei a minha aventura no Teatro.
Primeiro fazendo música e sonoplastia para Arraia Miúda e, mais tarde, submetendo à sua apreciação severa e cruel mas simultaneamente humana e terna, os textos que eu ia escrevendo, as canções que eu ia compondo.
Tivemos mil projectos para fazer juntos. Umas vezes calhou, outras não.
Percorremos quilómetros e quilómetros de estrada para levar a palavra a locais onde imperava e ainda impera o medo.
Assisti a autênticos comícios feitos por ele em aldeias ignotas e ostracizadas para públicos que a paixão do Jaime transformava em grandes arenas e coliseus.
Comemos pó que nos fartámos.
Bebemos água à beira da estrada.
Ensinou-me a cavar trincheiras usando as canções.
Ensinou-me a remar na Barca de Mestre Gil e em outras Barcas.
Ria-se do inferno.
Ria-se da indigência moral.
Ria-se sinceramente.
Ria-se.
"Sou apenas um cómico amador" dizia amiúde.
Escutava com sábios silêncios os meus devaneios de jovem apaixonado pela vida e sedento de uma Revolução.
Ensinou-me que a Revolução é a nossa casa porque ela está dentro de nós, assim o queiramos.
Ensinou-me.
Aprendi-lhe.
Grande parte do que sou devo-o a ele.
Resistiu.
Fez a guerra.
Fez as pazes.
E fez a guerra outra vez.
E fez as pazes outra vez.
Embarcou numa Barca sem barqueiro, que ele não era homem para ser conduzido.
Foi para um plano que é habitado pelos Gigantes, pelos Enormes.
Neste momento está já a converter Gil Vicente para uma Revolução urgente e imperiosa.
Senhoras e Senhores, chama-se Jaime Gralheiro, "apenas um cómico amador", pastor de causas malditas, soldado dos pobres, amante da Vida.
Até Sempre, Camarada!
Do teu amigo, que deixas cheio de saudade,
Carlos Clara Gomes.
Viseu, 21 de Junho de 2014
[para a Lia]
Para a Lia.
Hoje começaste uma nova etapa da tua vida.
Uma escola diferente, amigos diferentes, professores diferentes, uma cidade diferente.
Que saibas valorizar com amor todas essas novas diferenças que se plantaram na tua vida.
Que saibas crescer apoiando-te em todas as diferenças que fazem com que todos sejamos iguais.
E que nunca deixes de plantar uma flor em cada um dos locais menos agradáveis.
E que nunca deixes de colher uma flor de cada um dos locais mais agradáveis que visitares e que te visitem a alma.
Minha filha:
Aprende que a escola é mais do que um edifício, mais do que umas meras paredes imponentes.
É mais do que um local onde outros meninos e meninas aprenderam e donde alguns deles saíram e se destacaram precisamente pelos alicerces que souberam aproveitar do tempo que passaram nessa escola. Mas é-o também.
Aprende que a escola és tu e tod@s @s que nela habitam e aquilo que tod@s vós deixareis gravado nela quando daí saírem para outros destinos e outras missões para as quais serão chamad@s pela vida.
Mas aprende também a transformar a escola num ser vivo multicelular e multipensante.
E nunca te deixes submergir pela torrente do rebanho.
Sabe ser a árvore mas sabe fazer parte da floresta.
Com orgulho de ser árvore e com o orgulho de seres parte da floresta que contribuirás para transformar.
E sê, sobretudo, muito feliz...
E, com muito orgulho em ti,
Papi
Lisboa, 15 de Setembro de 2014
Para ser lido ao Gil sem ele estar a contar com isso
Sábado, dia 17 de Janeiro, o meu amigo Gil tem a apresentação do seu livro Oásis em lisboa.
queria ir.
mas não posso.
o fim-de-mês foi transformado no fmi-de-mês-a-mês... (não, não me enganei, nem estou com as unhas grandes... escrevi mesmo fmi em vez de fim...)
e enquanto alguns maduros obstinados desfilam e se manifestam e fazem das tripas coração lutando pelos seus pares, outros ofendidos seus iguais, ofendem aqueles que lutam por eles.
e chamam-lhes nomes.
apenas porque lhes pesa o cu, sodomizados que estão pela fúria sem vaselina da sofreguidão dos donos do mundo e da sucursal portuguesa, de quem governo e chefe de estado (chamemos-lhe assim pois até parece que temos alguma soberania) são apenas os feitores do quintal...
lamento pois imenso que um amigo não possa ir assistir à apresentação do livro de outro amigo.
de um amigo que cumpre também o seu dever cidadão de sair à rua e tomá-la porque entende que a rua também é dele.
de um amigo que não se esconde atrás da burilada manta do "artista" em paradigma de croquete e luminárias de jet set.
de um amigo que acha que ser não é ter.
de um amigo que acha que ser gente é saber a gente.
de um amigo que sabe dar e vestir a verdadeira dimensão da palavra amigo.
este escrito não é um lamento por mim.
é um grito por todos os que estão impedidos de viver, de desfrutar outros amigos.
nem que seja para uma sardinhada.
quando, enfim, nos devolverão o país que tínhamos?
não creio que no-lo devolvam.
acho mesmo que teremos que tomá-lo.
a pulso.
um abraço, Gil.
estarei lá não estando.
a austeridade draconiana permitiu-me estas experiências fora do corpo.
ccg
de Viseu para Lisboa, 17 de Janeiro de 2014
Carta ao Eduardo
Eduardo, foste embora no dia do beijo.
Tu, que nos beijavas com as tuas palavras óbvias, aquelas que "qualquer um de nós" diria mas que nunca nos ocorreu escrevê-las.
Foste e és a palavra viva e acesa da tua/nossa Pátria Grande, a mesma pátria de Martí, a mesma pátria de Bolívar, a mesma pátria de Garibaldi, a mesma pátria de Zapata e Villa, a mesma pátria de Artigas. E a pátria do Che, ele, como tu, também um homem do Plata, um Plata que transbordou Américas e Mundos.
E, afinal, a mesma pátria também de Torga: "O universal é o local sem as paredes".
E foste embora justamente quando mais precisávamos de ti, meu grande ingrato!
Tu, que nunca te cansaste de denunciar a opressão, a cobiça, a negligência social.
Tu que, acutilante, nos apontavas o dedo acusador mas fraterno naquelas vezes em que, lendo os teus escritos, julgamos que estás a falar das pessoas que nos rodeiam. Mas que, afinal, também nos apontas o dedo, a todos e a cada um de nós, escarafunchando as nossas almas, trazendo os nossos defeitos à tona de nós mesmos...
Tu, que sempre soubeste denunciar os bois, chamando-os pelos nomes pois sempre conheceste bem os bois com que aras...
Vai, agora, andorinha louca e sã!...
Voa para o céu dos carecas que fizeram da vida um local soalheiro apesar das chuvas e dos granizos que ocasionalmente caíram, aquele céu onde te sentarás sorvendo o teu mate.
"La mujer y el hombre soñaban que Diós los estaba soñando" dizes tu, abrindo a tua magistral trilogia La Memória del Fuego.
Nunca ninguém soube como tu escrever o inescrevível. Pois as emoções não se conseguem escrever. Mas tu conseguiste.
Vai.
Beijo-te essa careca reluzente no dia do beijo,
Beija a minha alma sequiosa de ti.
Ainda te preciso muito.
Ainda te precisamos muito
Um dia lograrei encontrar-te nesse céu dos carecas, se eu conseguir passar nos pré-requisitos de entrada.
E tomaremos um mate amargo.
Hasta Siempre, pelao!...
Carlos Clara Gomes
Liberdade
Seria mais uma quinta-feira cinzenta naquele meu Portugal cinzento.
E frio, também, porque o calor e o sol eram coisas que só o Algarve (o genuíno e não o Allgarve) me proporcionavam a mim, um miúdo de cidade de província com medo de Deus e da Pátria.
Lembro-me bem... ia ter Matemática...
Ia a pé para o Liceu Nacional de Viseu - hoje a Escola Secundária de Alves Martins, assim chamada para homenagear um Bispo que não tinha medo de Deus.
Subia as escadas do parque - hoje Parque Aquilino Ribeiro, esse carbonário que eu na altura conhecia pela mão adestrada do professor José Lemos, pessoa enorme apesar do seu tamanho franzino e aspecto débil mas que tinha escondida no bolso de dentro do seu fato castanho uma varinha de condão que usava de forma indelével para que nos apaixonássemos pelo nosso idioma.
E também pelos seus obreiros, aqueles que o regime permitia que lêssemos com sofreguidão como se fôssemos náufragos em busca de água potável.
Ia a pé para o Liceu para poupar cinco ou dez tostões (já nem lembro quanto custava o autocarro dos Hermínios).
Esse dinheirito que amealhava diariamente por vir e ir a pé durante a semana servir-me-ia para, aos Sábados, ira o cinema. Havia sessão dupla. E sempre poderia fintar os porteiros quanto à minha idade pois já tinha uma barba rija nos meus quinze anos.
Lembro-me bem... ia ter Matemática... Com o professor Dias, que apesar de se esforçar por me fazer compreender a grandeza da Matemática não lograva que eu amasse tal disciplina.
Eu compreendia a grandeza da Matemática e isso tudo.
Mas não a amava tal como amava Português ou História.
Anos mais tarde viria a descobrir que a Matemática me amou sempre, um amor não correspondido. Lamento imenso, querida Matemática. Mas nunca me fizeste ferver o sangue nas veias...
Pois, dizia eu que subia as escadas do Parque e o Beto Peliz, do alto da escadaria gritava, com a capa dos livros na mão, parece que o estou a ver: "Houve um golpe de Estado!"
Seguramente, ele saberia melhor do que eu o que era um golpe de estado. Isso eram coisas que se falavam no seu seio familiar, filho que era dum militante clandestino.
A primeira coisa que me ocorreu foi: "Então não devemos ter aulas!"
A esta hora já terão percebido o porquê de trazer a Matemática à colação pois foi porque foi a primeira aula que tive em Liberdade.
Com efeito, entrados para a sala de aula (que houve, afinal), essa doce palavra estava escrita a giz a todo o tamanho dos dois quadros negros: LIBERDADE.
Não foi numa aula de Português.
Nem numa aula de História.
Foi numa aula de Matemática, essa amante desamada por mim, que me foi explicado tudo sobre o Portugal.
E então percebi que era possível.
E então percebi que até esse momento eu não era livre.
Numa aula de Matemática.
No fim, fizemos uma visita de estudo.
Fomos observar os portões do 14, o Regimento de Infantaria, acompanhados pelo professor Dias.
Gostaria de ser outra vez esse miúdo de 15 anos.
Gostaria de sentir outra vez aquele átimo de Liberdade que sorvi, que respirei nessa quinta-feira cinzenta e quase chuvosa desse Abril.
Nesse momentinho pequenino em que aquela singela e única palavra escrita ali, uma palavra tão grande, afinal, que ocupava dois quadros negros escolares, foi pela primeira vez lida pelos meus olhos de garotito já com barba mas com a alma ainda imberbe.
Dou-me conta agora que foi esse o momento em que comecei a sonhar.
Sei que um dia nos veremos outra vez, querida Liberdade. Mais aquém ou mais além.
E sei que não serás a palavra oca que hoje és.
Com o passar dos anos, tornaste-te uma puta fina, querida Liberdade.
Mas crê-me, gostava mais de quando eras uma vadia sem poiso certo.
Carlos Clara Gomes
Viseu, 25 de Abril de 2015
poesia de retrete II
e se te fosses foder
ó passos, e não te engano
e mete o silva e o paulinho
nesse teu mito urbano!
Carlos Clara Gomes
poesia de retrete I
em três latrinas apenas
se cagam mitos urbanos
e quando eu lá defeco
bem me fica a doer o ânus.
Carlos Clara Gomes
carta ao João
Caro Amigo João
Haveria ainda tanta, tanta coisa para escavar, tantas agradáveis e sábias conversas a plantar em mim e nos que o soubessem escutar para lá do arqueólogo, para lá do académico, para lá do político...
(E não era preciso escavar muito para chegar ao Homem)
Haveria, certamente. Havia sempre.
Está ainda a custar-me encontrar o tempo verbal adequado quando me refiro a si depois de ter tido conhecimento do que ocorreu.
Sei que um dia nos iremos encontrar. Sei bem disso.
E sei que celebraremos o S. João com alguma folia. Também, disso, estou perfeitamente ciente.
Até esse momento espero-o, disfarçado de vento ou de chuva ou de poeira ou dum raio de luz matinal.
Ou de um passarito invisível, daqueles que nos poisam no ombro quando escrevemos algo que mais tarde não acreditamos termos sido capazes de escrever.
Apetece-me cantar estes versos do Silvio Rodriguez:
"[...] Soy feliz, soy un hombre feliz
Y quiero que me perdonen
Por este día
Los muertos de mi felicidad [...]
Voa, passarito!
Carlos Clara Gomes
zeca
hoje nasceu o homem novo que trouxe nos lábios
a canção nova para esta velha terra velha.
hoje nasceu o homem que trouxe na algibeira
a água que mata a sede desta velha terra velha e seca
por tantos desamores e injustiças.
hoje nasceu o homem que trouxe a tiracolo
palavras nossas que só ele sabia dizer,
que só ele sabia cantar.
hoje nasceu o homem
que viveu sem dono,
sem trela,
sem canga.
hoje nasceu.
parabéns, zeca!
2 de Agosto de todos os anos,
Carlos Clara Gomes
subversão
Façam hoje alguma coisa subversiva: Leiam um poema em voz alta, ofereçam uma flor, entrelacem os dedos nos dedos de alguém que amem...
Mas, sobretudo, sejam felizes!
carlos clara gomes
caracóis
Haverá algo que, melhor do que os caracóis, mais simbolize a rebeldia?
Mesmo depois de cortados ou alisados ou esticados persistem, obstinadamente, em crescer e crescer e crescer, espirais que nos lembram que a teimosia, a perseverança, a fixação nos sonhos, são afinal o conduto do que nos deveria mover, nestes dias tão arredios de sol e luz.
Carlos Clara Gomes
[para a Mafalda]
nos passos abafados duma noite
quando o suor e a impaciência
se concertavam num abraço apertado,
angústia própria de quem tem sede de ser,
jorrou vida do teu ventre de mãe,
mulher consumada,
as portas do mundo abriram-se
escancarando-se
e a sombra da comemoração
da ausência da véspera
será sempre iluminada
pela espectativa inquieta
do nervoso miudinho
da antecâmara,
do camarim
onde te prepararás,
para entrares,
ávida,
no palco da festa
que será sempre tua.
Viseu, 1 de Novembro de 2015
(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
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