Para lá de toda a dinâmica consumista que lhe está associada, o Halloween é uma celebração de Torna-viagem, com raízes profundas na tradição celta de que também somos herdeiros, tal como o Fado que, ao que se supõe, nasce no Brasil como dança de escravos (recomendo vários trabalhos do musicólogo brasileiro José Ramos Tinhorão) e tal como o Bolero, de origem magrebina e que é levado para o continente americano e, depois, encaminhado sobre outras formas para os salões de baile europeus.
O próprio Tango, nascido nas duas margens do Rio de La Plata, tem um percurso sinuoso no que respeita à "Tradição". Assim como o Fado, por muitos considerado conservador e reaccionário (é certo que, tal como o Tango, o Fado foi instrumentalizado pelas respectivas ditaduras que tutelavam estes géneros.
Mas o Fado também foi veículo de difusão das ideias republicanas nas ruas de Lisboa pelos cordelistas e "ceguinhos" mendigos - os bloggers da época).
Supõe-se que próprio nome Halloween é uma corruptela da palavra celta que está associada à intitulação do evento.
Acho uma parvoíce e um gasto de tempo e energias, esse debate Halloween versus Pão de Deus, que em nada contribui nem para a Tradição nem para a Modernidade.
Apenas serve para os guardiões do templo da tradição fazerem exercício com a mão (leia-se da maneira que preferirem...) enquanto agitam essa bandeira.
Mas a tradição não cauciona tudo.
Alguns exemplos de tradição: a escravatura, a excisão do clitoris, o apedrejamento de adúlteras, os touros de morte, o circo romano, a queima das bruxas, apenas para citar alguns.
E há, também, no mundo das Tunas e dos Ranchos folclóricos, uma espécie de bíblia não escrita que decide um conjunto de coisas nocivas à evolução formal e social pois situam-se em parâmetros temporais passadistas e circunscritos a determinadas épocas que servem de padrão de argumentação contra todos os argumentos de historiadores e antropólogos.
Não defendo que a Tradição se queime na fogueira como tradicionalmente se queimavam as bruxas.
Defendo que as bruxinhas e bruxinhos possam circular pelas casas desafiando todos os fantasmas de obesidade e isso tudo. Porque, quando tiverem essas histórias para contar aos netos deles, provavelmente esses netos não irão achar piada nenhuma à forma de desfrutar alguns momentos da vida tal como os seus avós os desfrutaram.
Só quem se achar iluminado por alguma divindade pode julgar que as crianças pretendem celebrar uma tradição, movidos por alguma cruzada do género "Olha, bora lá pedir doces que é uma cena bué da tradicional".
As crianças pretendem juntar-se e divertir-se. Antes isso que andarem na droga, que, lamentavelmente, também começa a ser tradição em alguns lugares e lares, sobretudo naqueles em que se rompeu com a parte boa da tradição: a parte em que a família serve de lugar de aconchego e farol identitário para que cada um saiba donde vem para saber em liberdade para onde quer ir, contrastando com uma instituição onde se crescia repreendido ou pela permissividade e pela ausência dos seus agentes.
Nesta altura, como em outras alturas "de Tradição" ou fora dela, os miúdos querem estar juntos e brincar juntos. Não há nada mais desengraçado do que um garoto com pose de adulto, é a negação total da irreverência, da energia criativa, do próprio futuro em crescimento, enfim.
Ou acham que no Natal os miúdos celebram o nascimento de Cristo ou de Brian, aquele que é retratado no filme dos Monty Pytons? Ou acham que um mexicano fica todo contente quando lhe morre um familiar próximo só porque assim já tem mais um motivo para celebrar a tradição da Fiesta de Los Muertos? Não!
Apesar de outras culturas pensarem diferentemente sobre a morte, como é o caso dos africanos e dos latino-americanos, esses mexicanos vão honrar os seus mortos comendo doces e petiscos nas suas campas. Mas é bem verdade que prefeririam fazer isso partilhando esses momentos com eles se eles estivessem vivos.
A Tradição nunca deve servir para justificar nada pois nunca sabemos em que tempo é que os defensores da tradição compartimentam a mesma. No mais antigo que se conhece? Pode ser, aceito... Até porque antes de ser Tradição, já havia uma tradição bem mais antiga: a Tradição de ainda não haver Tradição, naquele tempo em que existiam comunidades igualitárias.
Mas essa Tradição já não serve, pois não? Pois não: iríamos ter que aceitar que a invenção da propriedade, a subjugação da Mulher na repartição social do trabalho, primeiramente enquanto moeda de troca para selar uniões (de terrenos ou manadas...) e depois como escrava, a criação do dinheiro e a compartimentação dos povos em nações para melhor poderem guerrear entre si, adulterou tudo isto a partir do momento em que, com isso, foi inventado o Capitalismo no Crescente Fértil...
É chato, não é? É chato ter que aceitar isso, não é?...
Deixem lá, as Religiões têm os braços grandes para abraçar séculos e séculos de ignomínia.
E até nisso a tradição falha, as religiões não seguem as suas próprias "tradições", as suas géneses: As autoridades eclesiásticas católicas não se revêm nos cristãos primitivos mas sim no ouro ostentado e nas negociatas do Banco do Vaticano, isto enquanto vão sodomizando alguns seminaristas e benzendo actos assassinos contra Povos sofridos; o Islão recorre a Maomé por dá cá aquela palha mas escamoteia que o Profeta combateu a opressão do seu povo enquanto, em seu nome, se cometem atrocidades contra a vida e a dignidade; O judaísmo é aquela coisa que se sabe: tenta, nos dias de hoje, escamotear e branquear o próprio Holocausto (o silêncio é de ouro, expressão que para os sionistas tem um valor acrescentado). Isto para falar apenas destas três religiões do Mediterrâneo.
Preocupem-se em verificar a barbaridade da maior parte dos argumentos agitados que se sintetizam, mais vírgula, menos vírgula, neste: "O Halloween é uma americanice como forma de nos colonizar".
Primeira asneira: o Halloween foi daqui para lá;
Segunda asneira: Já estão a dizer implicitamente "aceitamos que nos colonizem" pelo simples facto de usarem a expressão "americanice" ou "dos americanos" para se referirem aos EUA.
O termo correcto seria "estadunidense" que não existe no léxico Português (de Portugal).
É que, ao aceitarem aquela designação estão a ofender todos os outros Povos Americanos, desde a Patagónia ao Alasca.
As palavras são símbolos sonoros daquilo que queremos dizer.
Subestimar as palavras é negar essa simbologia e retirar-lhes (a elas, as palavras), a carga que foram adquirindo ao longo do tempo, a carga que outras pessoas nelas depositaram.
Não é nenhuma pentelhice mas é o mesmo que dizerem: "Sou ateu, graças a Deus", sem perceberem a contradição que essa expressão encerra.
Deixem os putos em paz e vós, ó tradicionalistas, ide brincar para o pátio das traseiras, façam um concurso a ver quem mija mais longe ou quem tem a pila mais comprida, que também era tradição (dos gajos, pois a Tradição determina que só os machos é que definem os contornos da Tradição. Da Tradição deles e da Tradição delas).