domingo, 25 de dezembro de 2016

O Sousa dos Fados

Tinha um saco de músicas arrumadas na gaveta que, sempre que podia, me mostrava. Cada uma melhor que a outra.
Ainda não estavam acabadas, dizia sempre ele. Nunca as considerava acabadas, este homem que perseguia graais que nunca ninguém soube quais eram. Nem mesmo ele.
Fazia questão de me dizer que aquilo que me mostrava não era fado. E não era. Era muito mais.
Nunca teve um nome artístico.
Nem precisava: Pois, se era o Sousa! E não havia quem não conhecesse o Sousa.
Por vezes, para esclarecimento de ambiquidades, apodava-se como O Sousa dos Fados.
E, para alguém que passasse perto da rotunda de Viriato, soariam claramente nesta pacatez rural as músicas urbanas das duas margens dum rio que por aqui corre e corre e corre.
Não é o Pavia. É um outro rio caudaloso onde se banharam muitas gentes daqui. É um rio invisível as olhos dos descrentes. Por isso - já vou avisando - não se gastem em buscá-lo se nele não acreditam, nesse rio frondoso.
Duma das margens, vindo do Café Murgeira ou do Café Paris, soam os bandoneons que bailam nas palavras dos tangos contados pelo Professor Pinto; Da outra margem ouviam-se os gemidos da guitarra do Sousa, vindos ali dos lados do falecido Tomix, ao lado do Senhor Paiva que alugava bicicletas por cinco escudos à hora, isto quando ainda esfolávamos joelhos no alcatrão muito antes do Sousa ter sido desmobilizado da tropa.
Quem com o Sousa tocou sabe bem o quão indisciplinado ele era, uma criança grande que vivia dos holofotes manhosos que alimentavam o glamour das casas de fado. Qualquer espaço onde o Sousa entrasse transformava-se numa catedral de fado em segundos.
Generoso e Camarada, Amigo do Amigo como poucos, o Sousa distribuía alegrias pelas mesas circunvizinhas por mais tristes que fossem as letras dos fados que acompanhava.
O Sousa era um socorrista: Era o equivalente ao INEM de muitos fados e de muitos fadistas. Era o Sousa quem salvava a honra de muitos conventos.
Cruzámo-nos há poucos dias num dos Bairros Altos de Viseu, a desertificada Rua Direita.
Falámos das músicas dele e das minhas músicas. Lembro-me que falámos do valor da Amizade.
Já depois de ter escrito isto, editei para fazer constar que o Sousa é provavelmente o único Músico que conheço que nunca fez juízo de valor sobre outros colegas.
E lembro-me (como poderei esquecer?) que me disse nesse nosso último encontro: "Estás aqui dentro, meu Irmão", batendo no peito com aquela sua mão sapuda que sempre foi um denso mistério perceber como semelhante manápula - de unha cuidada, é certo, mas não menos sapuda por isso - conseguia destrezas para fazer chorar os arames da guitarra daquela maneira só dele.
Demos um abraço fraterno quando nos despedimos, um abraço daqueles que se dão quando não sabemos que nos estamos a abraçar pela última vez. Duma despedida para sempre. Porque há sempre alguém a partir, nesta vida cigana.
Não deve ter havido em Viseu músico digno desse nome, de qualquer área estética, que não tivesse contactado com o lado humano do Sousa. Que era, afinal, o mesmo lado que o lado artístico. Porque o Sousa pode não ter sabido ser "artista" mas sempre soube ser Humano. Que é, feitas as contas, a massa com que se faz um verdadeiro Artista.
Estou triste, Sousa. Mas de cada vez que lembro um qualquer episódio teu, associado a umas quantas traquinices tuas, não consigo parar de sorrir, meu Irmão (como tu me chamavas, como tu chamavas a tanta gente pois tantos Irmãos soubeste fazer para além dos muitos que tinhas de sangue...).
Até sempre, Mestre. Devo-te muito.

Carlos Clara Gomes

domingo, 11 de dezembro de 2016

Carta ao Pai Natal


Querido Pai Natal:
Este ano gostava de ter no meu presépio um bacalhau ou um perú.
Só p'ra fazer pandam com a vaca e o burrinho, sei lá...
Se não couberes na chaminé, barrigudo como andas (a tua ausência já se verifica há vários anos, para que conste), mete as postas do bacalhau debaixo da porta ou na fenda da caixa do correio e esquece lá o penoso do glugluglu.

Carlos Clara Gomes

Parabéns Zeca


Mestre, Amigo, Companheiro e Camarada de Armas Semi-Fusas e por isso Semi-Deusas...

Hoje é a tua Festa, pá
Fico contente
Enquanto estás ausente
Guardo um Cravo para ti...


Parabéns, Zeca!
Xi Coração!
do teu Clara a partir dA nossA ACERT
(que hoje foi ao Mundo reveladA - também ela festejando um dos seus números redonditos, pela voz do nosso outro manguelas de estimação, o Zé Rui, que é mulher, essa quarentona sempre gaiteira).
Mas disso, Zeca, de elA ser gaja, já nós sabíamos há q'anos,
Já a apalpámos todinha, em toda a extensão da sua pele e carnes sensíveis...
Nós e a imensidão de seus e suas amantes, promíscua que é...
Bendita promiscuidade, querida ACERT,
Querido Zeca.
Querid@s tod@s.

Tondela e Açores ao mesmo tempo, 9 de Dezembro 2016
Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

morte à morte!


Entre uma profunda tristeza e uma impotência enorme, entre discernir perante a barbárie e o aproveitamento xenófobo da barbárie, entre uma sexta-feira 13 sangrenta e outras sextas-feiras 13 igualmente sangrentas da História, entre o incómodo de ir dormir sabendo que terei pesadelos metendo sangue e ferros retorcidos e a revolta de saber que hoje em muitos cantos do mundo inúmeras crianças viverão esta noite pesadelos, acordadas entre sangue e ferros retorcidos, muitas delas perto dos cadáveres de entes queridos... 
Entre os céus e a merda há uns merdas que arrotam hálitos de morte clamando-se guerreiros da fé que envergonham as fés dos justos, dos pequenos, dos humildes, dos vilipendiados.
Morte à morte!!!

Carlos Clara Gomes
Viseu, 14 de Novembro de 2015

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Portugal renascido?

ver vídeo

O dia de hoje será, seguramente, lembrado na História.
Será lembrado como o dia em que a esquerda se uniu para impedir o canibalismo moral e cívico que tem vindo a fazer estrada.
Não vou exagerar dizendo que Portugal renasce hoje.
Mas é um dia em que sinto a fraternidade entre os que se preocupam com o seu semelhante ter um brilho que não tem tido até agora.
Pode ser que até seja só por hoje. Pode ser que já amanhã os serventuários da alta finança, em todas as suas matizes de subserviência, comecem a escrevinhar coisas com o cotovelo, que foi a única forma de escrever que conheceram até hoje. Coitados.
Esses gatafunhos produzidos não sobrevivem ao seu prazo de validade, perecíveis que são: a História tem um caixote do lixo onde costuma arquivar tais faits divers.
A vigilância urge. Urge a vigilância em nós. Em cada um de nós.
Urge agora que cada um de nós, aqueles que hoje rejubilámos, quanto mais não fosse em nome dos nossos queridos mortos que não lograram ver este dia acontecer, dê o exemplo de boa-vontade na reconstrução de um País devastado pelo nepotismo, pela ganância, pela usura, pela corrupção, pela má-vontade, pela mentira, pela arrogância, pela discriminação, pela censura, pela desinformação, pelo roubo, pela eutanásia forçada dos nossos velhos, pela fome dos nossos filhos.
A tarefa não será fácil. Mas contai comigo, amig@s.
Reitero que não ambiciono o poder mas também não lhe faço fretes - a nenhum dos poderes, nem mesmo ao poder da propriedade pois, de meu, só tenho os "meus": aquel@s que eu amo.
E é por el@s e por mim e por tod@s aquel@s que amo sem mesmo termos ainda travado conhecimento, que saúdo este dia.
A tod@s @s eleit@s que hoje souberam cumprir a sua cidadania:
Orgulho-me de vós! Peço-vos que tenhais a sabedoria de saber honrar este orgulho que acabais de dar a tod@s @s que vos elegeram.
E peço-vos isso em nome de los muertos de mi felicidad, parafraseando o Silvio Rodriguez, poeta atento e avisado.






Viseu, 11 de Novembro de 2015, depois de cair a II efémera edição do (des)Governo PAF
Carlos Clara Gomes

terça-feira, 1 de novembro de 2016

HALLOWE'EN



Para lá de toda a dinâmica consumista que lhe está associada, o Halloween é uma celebração de Torna-viagem, com raízes profundas na tradição celta de que também somos herdeiros, tal como o Fado que, ao que se supõe, nasce no Brasil como dança de escravos (recomendo vários trabalhos do musicólogo brasileiro José Ramos Tinhorão) e tal como o Bolero, de origem magrebina e que é levado para o continente americano e, depois, encaminhado sobre outras formas para os salões de baile europeus.
O próprio Tango, nascido nas duas margens do Rio de La Plata, tem um percurso sinuoso no que respeita à "Tradição". Assim como o Fado, por muitos considerado conservador e reaccionário (é certo que, tal como o Tango, o Fado foi instrumentalizado pelas respectivas ditaduras que tutelavam estes géneros.
Mas o Fado também foi veículo de difusão das ideias republicanas nas ruas de Lisboa pelos cordelistas e "ceguinhos" mendigos - os bloggers da época).
Supõe-se que próprio nome Halloween é uma corruptela da palavra celta que está associada à intitulação do evento.
Acho uma parvoíce e um gasto de tempo e energias, esse debate Halloween versus Pão de Deus, que em nada contribui nem para a Tradição nem para a Modernidade.
Apenas serve para os guardiões do templo da tradição fazerem exercício com a mão (leia-se da maneira que preferirem...) enquanto agitam essa bandeira.
Mas a tradição não cauciona tudo.
Alguns exemplos de tradição: a escravatura, a excisão do clitoris, o apedrejamento de adúlteras, os touros de morte, o circo romano, a queima das bruxas, apenas para citar alguns.
E há, também, no mundo das Tunas e dos Ranchos folclóricos, uma espécie de bíblia não escrita que decide um conjunto de coisas nocivas à evolução formal e social pois situam-se em parâmetros temporais passadistas e circunscritos a determinadas épocas que servem de padrão de argumentação contra todos os argumentos de historiadores e antropólogos.
Não defendo que a Tradição se queime na fogueira como tradicionalmente se queimavam as bruxas.
Defendo que as bruxinhas e bruxinhos possam circular pelas casas desafiando todos os fantasmas de obesidade e isso tudo. Porque, quando tiverem essas histórias para contar aos netos deles, provavelmente esses netos não irão achar piada nenhuma à forma de desfrutar alguns momentos da vida tal como os seus avós os desfrutaram.
Só quem se achar iluminado por alguma divindade pode julgar que as crianças pretendem celebrar uma tradição, movidos por alguma cruzada do género "Olha, bora lá pedir doces que é uma cena bué da tradicional".
As crianças pretendem juntar-se e divertir-se. Antes isso que andarem na droga, que, lamentavelmente, também começa a ser tradição em alguns lugares e lares, sobretudo naqueles em que se rompeu com a parte boa da tradição: a parte em que a família serve de lugar de aconchego e farol identitário para que cada um saiba donde vem para saber em liberdade para onde quer ir, contrastando com uma instituição onde se crescia repreendido ou pela permissividade e pela ausência dos seus agentes.
Nesta altura, como em outras alturas "de Tradição" ou fora dela, os miúdos querem estar juntos e brincar juntos. Não há nada mais desengraçado do que um garoto com pose de adulto, é a negação total da irreverência, da energia criativa, do próprio futuro em crescimento, enfim.
Ou acham que no Natal os miúdos celebram o nascimento de Cristo ou de Brian, aquele que é retratado no filme dos Monty Pytons? Ou acham que um mexicano fica todo contente quando lhe morre um familiar próximo só porque assim já tem mais um motivo para celebrar a tradição da Fiesta de Los Muertos? Não!
Apesar de outras culturas pensarem diferentemente sobre a morte, como é o caso dos africanos e dos latino-americanos, esses mexicanos vão honrar os seus mortos comendo doces e petiscos nas suas campas. Mas é bem verdade que prefeririam fazer isso partilhando esses momentos com eles se eles estivessem vivos.
A Tradição nunca deve servir para justificar nada pois nunca sabemos em que tempo é que os defensores da tradição compartimentam a mesma. No mais antigo que se conhece? Pode ser, aceito... Até porque antes de ser Tradição, já havia uma tradição bem mais antiga: a Tradição de ainda não haver Tradição, naquele tempo em que existiam comunidades igualitárias.
Mas essa Tradição já não serve, pois não? Pois não: iríamos ter que aceitar que a invenção da propriedade, a subjugação da Mulher na repartição social do trabalho, primeiramente enquanto moeda de troca para selar uniões (de terrenos ou manadas...) e depois como escrava, a criação do dinheiro e a compartimentação dos povos em nações para melhor poderem guerrear entre si, adulterou tudo isto a partir do momento em que, com isso, foi inventado o Capitalismo no Crescente Fértil...
É chato, não é? É chato ter que aceitar isso, não é?...
Deixem lá, as Religiões têm os braços grandes para abraçar séculos e séculos de ignomínia.
E até nisso a tradição falha, as religiões não seguem as suas próprias "tradições", as suas géneses: As autoridades eclesiásticas católicas não se revêm nos cristãos primitivos mas sim no ouro ostentado e nas negociatas do Banco do Vaticano, isto enquanto vão sodomizando alguns seminaristas e benzendo actos assassinos contra Povos sofridos; o Islão recorre a Maomé por dá cá aquela palha mas escamoteia que o Profeta combateu a opressão do seu povo enquanto, em seu nome, se cometem atrocidades contra a vida e a dignidade; O judaísmo é aquela coisa que se sabe: tenta, nos dias de hoje, escamotear e branquear o próprio Holocausto (o silêncio é de ouro, expressão que para os sionistas tem um valor acrescentado). Isto para falar apenas destas três religiões do Mediterrâneo.
Preocupem-se em verificar a barbaridade da maior parte dos argumentos agitados que se sintetizam, mais vírgula, menos vírgula, neste: "O Halloween é uma americanice como forma de nos colonizar".
Primeira asneira: o Halloween foi daqui para lá;
Segunda asneira: Já estão a dizer implicitamente "aceitamos que nos colonizem" pelo simples facto de usarem a expressão "americanice" ou "dos americanos" para se referirem aos EUA.
O termo correcto seria "estadunidense" que não existe no léxico Português (de Portugal).
É que, ao aceitarem aquela designação estão a ofender todos os outros Povos Americanos, desde a Patagónia ao Alasca.
As palavras são símbolos sonoros daquilo que queremos dizer.
Subestimar as palavras é negar essa simbologia e retirar-lhes (a elas, as palavras), a carga que foram adquirindo ao longo do tempo, a carga que outras pessoas nelas depositaram.
Não é nenhuma pentelhice mas é o mesmo que dizerem: "Sou ateu, graças a Deus", sem perceberem a contradição que essa expressão encerra.
Deixem os putos em paz e vós, ó tradicionalistas, ide brincar para o pátio das traseiras, façam um concurso a ver quem mija mais longe ou quem tem a pila mais comprida, que também era tradição (dos gajos, pois a Tradição determina que só os machos é que definem os contornos da Tradição. Da Tradição deles e da Tradição delas).

Carlos Clara Gomes

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

bem sei

bem sei
que os dedos de alguns poetas
passam unhas
na pele das palavras por dizer

e que
pelas manhãs desguarnecidas de crueza
um dia
marcharão aves sem dono
pelas avenidas onde hoje
o frio habita dentro de almas já sem pele

haverá
eu sei
centopeias ululantes
e os já estafados unicórnios azuis
em cada escombro por explorar

e dentro de cada gruta
desabitada de luares
os povoadores farão fila
para a colonização da euforia

e para todos
chegará o pão ázimo
que devotos e profanos
em rebuliço partilharão
na sobrepele de cada sonho

e em cada parede devoluta
um grafito 
- pelo menos! -
clamará pelo teu nome
na surdina dos gritos 
esperados no cantochão 
que os humildes há milénios vociferam 
desesperando pela febril justiça 
prometida nos manuais 
já poeirentos apesar

e contudo
na sacrossanta fé no amanhã
uma réstia de denodo
ainda canta

e procria.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

os últimos dias do homem que julgava ser jaime mouraz


lembras-te quando escrevíamos nudezes e barbas de deuses nas nuvens de algodão feitas?
e quando lembrávamos tropelias, jogos e desacatos?
e palavrões aprendidos no fim da rua já finada pelas casas novas ali erguidas?

lembras-te?
 
e lembras-te quando o tempo cruel deixou de brincar connosco no rio onde os sapos coaxavam só para que nós os ouvíssemos?
e quando meninávamos nas árvores fazendo de heróis aviadores e outros artifícios que inventávamos naquelas tardes de sol frio que nos aqueciam a alma?

para onde fomos nós, cirandando mundos, doendo ossos crescendo, esticando carnes meninas?

e o zeca, e o chico, e o coiso, não me lembra agora o nome, para onde foram eles?
o zeca inventou de ser pai, já é avô, o chico de militar, fez tropa na guiné e tudo, até tem uma tatuagem num braço a dizer guiné e o ano da incorporação, dizem que agora é general na reserva embora eu não acredite pois nunca vi generais com tatuagens a dizer guiné, o coiso que não me lembra o nome acho que se faleceu de doença prolongada.

também havia o adelino, era dos lados do sátão, falava com tantos ésses que até dizíamos que era "dos sátão", havia até quem perguntasse se ele foi seminarista...

eram belas aquelas tardes em que fugíamos à escola, em que colhíamos medronhos, em que roubávamos as romãs da dona graciete, bicha má de diaba ruim que era, era casada com aquele marido dela, o maestro da banda do asilo, coitado, dizem que uma vez ela lhe furou um olho com a batuta.
eu acho que eram coisas que se diziam: parece que o homem caiu de chofre sobre um arame farpado
e vazou uma vista, a direita, logo essa, que era aquela com que olhava os segundos clarinetes.
mas poderia muito bem ter sido ela com a batuta, isso era bem possível como estarmos aqui os dois...
coitada dela, definhou-se depois que um camião das obras lhe atropelou uma perna. começou a secar, a secar, a secar e em menos de um fósforo empreendeu viagem de ida para o céu das pessoas más, dizia a leonor (aquela que andou connosco na catequese e que depois foi para freira ou que nunca se casou - uma dessas duas coisas foi. ou as duas, talvez - lembras-te?). dizia a leonor que as pessoas más também têm um céu para os maus.
lembras-te dela? levantavas-lhe a bata que trazia, eras lixado de travesso, vinha sempre para a catequese directa da aula de lavores  e não lhe dava para se mudar.

que será feito da leonor?
e do quim?
o quim! aquele que o pai foi preso pela pide quando estávamos na aula do professor garcia... lembras-te, pois!... não te lembras tu de outra pessoa: aquele a quem levaram o pai para a prisão lá de lisboa, aquele que teve que deixar a escola porque o professor garcia o gozava desde esse incidente...
ah! já te lembras? pois: o quim seguiu as pisadas do pai nisso de ser do reviralho, contou-me o graciano da casa dos enxovais quando o encontrei no velório da conceição, a irmã do antunes.

e o ernesto? e o coelho? e o jorge?
um deu em médico, como o pai, o outro em padre, como o avô...
e o outro, o jorge, foi para a alemanha e nunca mais voltou cá, parece que tem um negócio de relógios. ou um restaurante, nem sei bem...

ah, eram belas aquelas tardes em que não tínhamos que trautear nem o hino nacional, nem as serras de portugal, nem os rios, nem as vias férreas...

lembras-te?

mas sabes?
gostava de voltar lá, a esse tempo, a essas tardes, voltar a ouvir o coaxar dos sapos, a ver passar as avionetas sobre as nossas cabeças ainda com cabelo e sem cãs...
talvez um dia nos juntemos todos, nem que seja para lembrar os esquecidos...

mas acho que já não terá a mesma piada que tinha dantes...

não achas?

eh lá! não durmas agora!...
olha-me este! não me faças isso!
acudam aqui!...

(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes, in "Os Meus e os Dias"

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Rumos


o caminho desenha-se
e os pés encontram
numa fértil utopia semeadeira
trepadeiras de cores alucinantes
cuja textura não tangível
apenas se sente
quando soprada

hordas de peregrinos
extenuadas
repousam à beira da estrada
que a tradição escreveu
como sendo de todas
a melhor delas

e os pés.
famintos de caminho,
seguem seu traçado imaginário
a despeito de mapas
ou bússolas certas:
só a demência
traz a urgente tenacidade.

(c) Carlos Clara Gomes

Foto: Milene Vale

sexta-feira, 25 de março de 2016

selva


acordo
saio da cama
visto-me para sair para o dia
que entra às fatias
pelas frestas da persiana,
furioso como um cobrador ressabiado


deixo o teu lugar, ali,
quente e doce,
na cama
onde algum dia e muitas noites
serás habitante

e saio para a rua
onde poderei ser atropelado
pela vida
ao atravessar alguma passadeira
de forma imprevidente,
distraído que sou.

SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

segunda-feira, 14 de março de 2016

Boa Viagem, Sr. Feliz


Tenho pena de não ter conhecido melhor este homem. Tenho pena de não ter tido a sabedoria de me ter divertido mais com o Nicolau. Porque, neste país de merda dividem-se as pessoas entre as que empatizam com quatro gajos que fazem humor gozando com a "ruralidade" a partir da macrocefalia duma capital infestada por quem faça broches aos vários poderes e, por outro lado, as que empatizam com quem protagoniza a boçalidade instituída num programa de "adivinha lá quanto custa isto..." E há, também, quem tenha receio de rir. Esses são os mais perigosos. Porque se recusam a ser alegres.
Boa Viagem, Sr. Feliz!

Carlos Clara Gomes

terça-feira, 8 de março de 2016

Mátria

Para todas as Mulheres que, mais do que Mulheres, sabem ser Seres Humanos e não sacrários da Maternidade. Para todos os Homens que, mais do que Homens, sabem caminhar ao lado dessas mulheres que sabem caminhar por suas pernas.
Para toda a Humanidade que, mais tarde ou mais cedo, soube que tinha sido parida por vendavais e ciclones.
Neste dia, todos os dias, ocorrem-me várias muitas mulheres, Catarina, Maria da Fonte, Joana d'Arc. E ainda as guerreiras que escreveram poemas nas nossas almas: Clarice, Sophia e tantas, tantas...
E também as minhas cinco filhas.
Para todas e cada uma dessas Mulheres e das outras não citadas e das outras anónimas, uma flor. Vermelha. Porque vermelho é o Amor, a Paixão e a Vida. E também a Revolução.
Ditosa Mátria também que me pariste e por quem me apaixonei nesse incestuoso abraço que as Mátrias sabem gerar em nós.
Às vezes és madrasta. Mas amo-te na mesma, naquela lógica irracional que faz com que os amores sejam inexplicáveis e, por isso mesmo, tão lindos...

Viseu, 8 de Março de 2016
(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

domingo, 6 de março de 2016

cais


Sinto-me cais.
Em mim atracaram já tantos amores, vestidos ou não de filhos e filhas, de companheiras, de camaradas, de amigos e amigas.
Todos, sem excepção, deixaram seus cordames amarrados em mim. E continuam a deixar.
Não me é fácil quando alguém sai de mim para se fazer à água.
Fico vazio durante uns tempos. Muito tempo, às vezes... E esse vazio não se preenche com outro barco pois há sempre o laço dos afectos, uma amarração unipessoal e interpessoal com características identitárias específicas. E cada afecto é um afecto específico, é um afecto dirigido àquela pessoa. Exclusivamente. Irrepetível.
E sou tentado, depois, a avaliar em que medida não fui suficiente cais para as embarcações que em mim atracaram e que de mim levantaram ferro.
Se calhar, não foi nada disso: se calhar as cordas com que estavam amarrados a mim encarregar-se-ão de testemunhar se fui ou não um cais eficaz, se fui ou não um amigo ou um amante ou um companheiro ou um camarada à altura dos que estiveram atracados em mim e que, entretanto, partiram.
Se calhar precisavam de mim para bolinar, para estagiar para novos ventos, como os passaritos que levantam voo depois de terem feito tirocínio no ninho.
E, quando olho para esses pedaços de cordame que ficam marcados - ficam sempre marcados - nos pinos de atracação, leio-os e sorrio.
Sorrio porque me recordo, sem nostalgia e sem saudosismo, que vivi bons momentos, que sorri bons sorrisos, que lutei boas lutas com esses barcos que entretanto de mim partiram. E lembro-me que, também, esses barcos a mim chegaram.
E, apesar de tudo, sinto-me um privilegiado. Porque todos esses amores me ensinaram a refinar o amor: o próximo. Não ao próximo porque sem esse não haveria nenhum dos outros.
O próximo, aquele a seguir a este.
Aquele pelo qual todos estamos apaixonados.
E volto serenamente ao meu ofício de ser cais.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e Os Dias"

sábado, 5 de março de 2016

já te navego


seguro nas mãos
um destino ignoto

talvez um dia
me calhe em sortes
um navio de grande porte
ou até um batel
que me leve daqui
até destinos mágicos
que não sei ainda explicar


talvez um dia,
no cais que tenho sido,
atraque e eu suba a bordo
dando largas à minha corsária vocação
de pirata e bucaneiro

preciso dessa embarcação

preciso-te,
e apesar de ainda te desconhecer
já te navego.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes

sexta-feira, 4 de março de 2016

e agora?


e agora, que faço?

um poema sofrido?
embriago-me?

ou solto na rua os mastins
que trago guardados cá dentro?


que faço, enfim?

diz-me,
diz-me o que hei-de fazer...

já sei:
vou buscar uma cadeira
e sentar-me no quintal
na espera
de algum verbo no gerúndio.

(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os ecos de Eco


Para muitos pode não ter passado dum académico de referência. O que, sendo muito, pode também ser muito pouco.
Para muitos outros pode não ter passado dum romancista, o homem por detrás de O Nome da Rosa, para muitos um CSI-Idade Média, para outros muitos (e também para muitos do grupo anterior) um marco geodésimo para reflexão sobre o geocentrismo.
Para ainda outros, Eco pode não ter passado de mais um importante farol contemporâneo do pensamento.
Filósofo e epistemólogo, Eco vai-se como vão sempre os grandes: no momento em que mais precisamos deles, até parece que fazem de propósito.
Ou, então, parece que esse gigante se imolou por o Impresidente ter agraciado um frade-censor (bem ao estilo do seu Frei Jorge de O Nome da Rosa) adepto do obscurantismo, justamente com a Ordem do Infante, um conterrâneo meu, um visionário, confesso adepto do conhecimento.
Ditosa Pátria minha amada: Vai-te mas é foder com quem arranjas para te representar, ainda que seja no estertor agonizante duma moribundicíe pestilenta e fétida!
Carlos Clara Gomes

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

carinho guerreiro

Não nego que, muitas vezes, o desencanto me assalta...
Há momentos em que apetece pousar a espada.
E pouso-a, às vezes...
Encosto-a à parede mais próxima. Frequentemente desembainho-a e deixo-a à porta de entrada de casa como se fosse um guarda-chuva encharcado.
Sento-me no sofá e acendo as várias máquinas de desencantar.
Vejo, pelo canto do olho, que a espada brilha para mim e que eu não brilho para ela.
Olho para a espada ali encostada e penso para mim que não tenho o direito de a abandonar porque isso seria também abandonar-me. E porque, mesmo que me apeteça abandonar-me, o brilho dela sidera-me, hipnotiza-me, atrai-me como a toada daquelas sereias dos poemas épicos.
Até porque não fui eu quem forjou essa espada: foram muitos outros homens e mulheres que ma deixaram como herança.
Abandonar a batalha seria traí-los.
Não sei o que me custa mais: ser vencido pelo cansaço de lutar ou sentir-me despovoado de toda essa gente…
Levanto-me desse torpor que tantas vezes me assola.
Sou fodido: Acabo sempre, teimosamente, por me decidir pela gente.
Desligo as máquinas de desencantar.
E pego na espada com carinho. Um carinho que está em tirocínio para um carinho guerreiro.
Amanhã sairei à rua para aniquilar umas quantas armas de depressão massiva.


Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Inauguracionismo


Pois é.
O o último-ex-primeiro-ministro inaugurou hoje uma escola pública que, ao que parece, já está a funcionar há 3 anos...
talvez se tenha esquecido de a inaugurar na altura - coisa que não acredito pois, como toda a gente sabe, esta malta tem toda uma memória de elefante, a começar no Zainal Bava e a terminar no outro que "não se lembra" quem lhe fez o depósito de uns milhõezitos -.
Sugestões para algumas obras que ainda não foram inauguradas:
RUÍNAS DE CONIMBRIGA | RIO GUADIANA | CAVA DE VIRIATO | PROJECTO DE NAVEGABILIDADE DO RIO DOURO | O TOLAN | O NAUFRÁGIO DO TITANIC | A MESETA IBÉRICA
Não acrescento a esta lista as cagarras nem as vacas do Sr. Silva porque creio que ele mesmo já inaugurou as primeiras e padreou as segundas, a avaliar pelo ar de felicidade que ilustrava as suas faces quando proferiu o seu famoso discurso Urbi et Orbi "Quando as Vacas Avançavam Uma Atrás das Outras"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

américas



foste arrumado no fundo
braço dado com a farinha
de paquetes carcomidos
à boleia clandestina
fica o orvalho pela beira
vais pra países sem chuva
mas apesar de estares vivo
fica tua esposa viúva

buscas governar fazenda
em buenos aires, no rio
levas no peito angústia
no fato o bolso vazio
desta lusa epopeia
que vives desde menino
mais não és que um enteado
de quem te pinta o destino


pela ingrata pátria mãe
terçaste armas nos quartéis
inspirado em anedotas
de padres contra infiéis
és cozido à portuguesa
és gentio, és judeu
tanto tempero levaste
"mas afinal quem sou eu?"

e de todo esse caldo
corre por ti sangue negro
celtibero e fenício
romano, godo e grego
sonhas um dia voltar
para quem te sente a falta
e enquanto não chega a hora
vais fabricando mulatas.

(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"



estrela do boieiro



nesta noite de aventura
quando o sol se fez em lua
no carro do passador
aos solavancos de medo
sonhas, pastor, com os astros
com a estrela do boieiro
(és dono do mundo inteiro?)

marujo de terra firme
peregrino de esperanças
na demanda de bonanças
ao pisar o chão de frança
não passas, pastor, de mais
um ausente dos jornais
quando tu mesmo és notícia

ai, pastor
pergunta aos outros que lá vivem, pastor
se por lá serás feliz
escravo em terra livre
construindo a cidade
àqueles que, cedo ou tarde,
sem dó te expulsarão


na berma desta aventura
cavas tua sepultura
nesta noite estrelada
saltaricando fronteiras
és contrabando, pastor
és herói, és degredado
entre a boroa e os enchidos 

pastor, tu hoje é gado
(redimes algum pecado?)
pagas pena por nascer
numa terra sem viver
onde os olhos fazem sal
e as mulheres na quaresma
anseiam pelo natal

ai, pastor
pergunta lá no bidonville, pastor
se as noites que há por lá
são iguais àquelas outras
(as que tinhas no teu céu)
entre um caldo de cebola
e a tua língua-mãe. 

(c) Carlos Clara Gomes