bem sei
que os dedos de alguns poetas
passam unhas
na pele das palavras por dizer
e que
pelas manhãs desguarnecidas de crueza
um dia
marcharão aves sem dono
pelas avenidas onde hoje
o frio habita dentro de almas já sem pele
haverá
eu sei
centopeias ululantes
e os já estafados unicórnios azuis
em cada escombro por explorar
e dentro de cada gruta
desabitada de luares
os povoadores farão fila
para a colonização da euforia
e para todos
chegará o pão ázimo
que devotos e profanos
em rebuliço partilharão
na sobrepele de cada sonho
e em cada parede devoluta
um grafito
- pelo menos! -
- pelo menos! -
clamará pelo teu nome
na surdina dos gritos
esperados no cantochão
que os humildes há milénios vociferam
desesperando pela febril justiça
prometida nos manuais
já poeirentos apesar
esperados no cantochão
que os humildes há milénios vociferam
desesperando pela febril justiça
prometida nos manuais
já poeirentos apesar
e contudo
na sacrossanta fé no amanhã
uma réstia de denodo
ainda canta
e procria.
SPA2016 Carlos Clara Gomes
