Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
domingo, 26 de março de 2017
SITE ESCRITORES ONLINE
Escritores > Carlos Clara Gomes
Data Nasc: 27/10/1958 Naturalidade: Viseu
Na web: Blog Facebook
Biografia:
Carlos Clara Gomes é cantautor, compositor, poeta, romancista, dramaturgo e encenador.
É,
ainda, diretor artístico da Companhia DeMente, da Tradisom Produções
Culturais, da TUNADÃO e d’Os Filhos do Nada; Coordenador dos Projectos
Artísticos da ENLACE-Associação de Amizade Portugal-América Latina e
Maestro Titular da respetiva Orquestra.
Dá formação nas áreas de Música de Cena e Música para Cinema e Vídeo.
Tem
no seu currículo a autoria de música de cena para quase 200 espetáculos
de teatro, ópera popular, dança e vídeo, para além dos muitos
espetáculos musicais que dirigiu.
Definindo-se
esteticamente como “um camaleão” em termos estilísticos, é assíduo
frequentador de formas musicais das culturas populares do mundo,
enquanto incorpora nas suas composições contributos de outras áreas como
Jazz, ou a Música Erudita, em muitas das suas respetivas vertentes e
estilos.
Como autor, produtor ou
intérprete, conta com 48 discos no seu ativo, repartidos por
colaborações de e com Adriano Carreira de Oliveira, Sérgio Godinho, João
Afonso, Manuel Freire, Moçoilas, Janita Salomé, Maria do Céu Guerra,
Brigada Victor Jara, José Medeiros, Segue-me à Capela, Projecto Maré
Alta, Uxía (Galiza), Maio Coopé (Guiné-Bissau), Ron Whitehead (EUA),
Paulo Lepetit (Brasil), Jackeline Mercado (México), Birgitta Jodonstir
(Islândia), Andrés Stagnaro (Uruguai), Ramon Maschio (Argentina),
Cholat-el-Fen (Marrocos), Ebru Kennington (Turquia), Élmer Veckio
(México), Kinamata Mikuluti (Moçambique), Denis Eulenspiegel Salvini
(Itália), Quinteto Violado (Brasil), Daniel Schvetz (Argentina), Gonzalo
Guzmán (México), Vange Miliet (Brasil), Filipe Santo (S.Tomé e
Príncipe), Walter Hidalgo (Argentina), Giovanna Fachinelli (Uruguai),
Mário Babhran (Guiné-Bissau), Lindu Mona (Angola), Bill Dimopoulos
(Grécia), Asli Cansiz (Turquia) e Daisy Citterio (Italia).
Como
compositor para cena ou como músico de cena, colaborou com Companhias
Trigo Limpo Teatro ACERT, do qual foi diretor musical durante 16 anos,
Teatro Regional da Serra do Montemuro, Teatro A Barraca, Teatro Praga,
Os Filhos do Nada, Paramonte Picatudo, Cooperativa Cantar de Novo,
Artefacto, EloIberia, Talassos Producciones, Companhia DeMente, TGV –
Teatro Grão Vasco, Entre Tanto Teatro, Grupo Off, Cénico – Grupo de
Teatro Popular de S. Pedro do Sul, Teatro Enlace, Womb of Creation
(Islândia), The Literary Renaissance (EUA).
Neste
momento é o Coordenador de projectos Artísticos da Enlace, Associação
de Amizade Portugal-América Latina, sendo também o Maestro titular da
respectiva Orquestra.
Recebeu 4
Prémios ANIMARTE atribuídos pela Revista ANIMARTE em 1993, 1994, 1995 e
2002; Menção do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco pelo CD Ópera
do Bandoleiro (Melhor Disco de Musica Regional do Nordeste) 1994;
Menção Honrosa do Concurso de Poesia Doutor João Isabel pela Câmara
Municipal de Manteigas pelo conto Encruzilhada das Almas; Prémio pelo
Melhor Texto e Prémio pela Melhor Peça (As Minas de Vento) no Festival
de Teatro Jovem de Viseu – 2013; Prémio pela Melhor Peça (Serão as Aves
Azuis?) no Festival de Teatro Jovem de Viseu – 2014 e Prémio pela Melhor
Peça (Voz-Off) no Festival de Teatro de Viseu – 2016.
Principais Obras Publicadas
Retrato de Mulher no Cais Durante2017, Edições Esgotadas
“[…]
Avança-se então no livro como se avançaria numa viagem de destino
incerto, o horizonte escondendo tudo o que se ama, a distância engolindo
o que ainda há pouco se avistava e sempre, sempre, essa teimosia de
continuar, por já não se conceber outra atitude que não a de jurar … Ler mais
|
Crónicas de Inverno2013, Edições Esgotadas
“Situado
entre dois mundos cinzentos que estranhamente se encaixam, não fora a
logo marginada primavera de abril, o plot textual (lírico, avassalador,
pachequiano e atualíssimo) convoca uma tensão dramática entre um eu
admonitório e um tu sofredor. A breve trecho, como no drama regiano, há
um eu que é um … Ler mais
|
Montemuro2013, Edições Esgotadas
Competia
a Serafim falar, era a sua deixa. Obviamente, o cabo não pretendia
insinuar que o marceneiro se andasse a fazer ao piso à viúva, era só
epígrafe para diálogo, metia-se conversa assim naqueles idos, era sobre
Marília ou sobre o frio, em qualquer dos casos o interlocutor de plantão
… Ler mais
|
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terça-feira, 7 de março de 2017
cento e vinte e três
uma
duas
três
cento e vinte e três
cento e vinte e três mulheres
morreram naquele dia
em new york new york
morreram cento e vinte três mulheres
numa nova iorque já envelhecida
pois as cidades envelhecem
sempre que morre uma das suas mulheres
não interessa o dia
nem interessa se foi a oito
o tal oito que tem o formato
do infinito em pé
porque é disso que se trata
nessas coisas de se ser mulher:
estar em pé
e ser-se infinita
pois as cidades
não existem sem mulheres infinitas
mulheres infinitas que são
aquelas que se levantam
quando tudo se dobra
aquelas que zurzem fogo
quando tudo se protege das balas
naquele dia morreram
cento e vinte e três mulheres
em cada cidade deste mundo
naquele dia morreram
cento e vinte e três mulheres
em cada casa deste mundo
naquele dia morreram
cento e vinte e três mulheres
em cada pessoa deste mundo
naquele dia morreram
cento e vinte e três mulheres
em cada mulher deste mundo.
.
Também In Memoriam de Hipathia,
astrónoma e filósofa egípcia assassinada
em 8 de março de 415 DC
quando defendia os manuscritos
da Biblioteca de Alexandria
da fúria intolerante.
(c) SPA2017 Carlos Clara Gomes
in «Os Meus e Os Dias»
segunda-feira, 6 de março de 2017
Gerundizando
e agora
que faço?
um poema sofrido?
embriago-me?
ou solto na rua os mastins
que trago guardados cá dentro?
que faço
enfim?
diz-me
diz-me o que hei-de fazer
já sei:
vou buscar uma cadeira
e sentar-me no quintal
na espera
de algum verbo no gerúndio.
(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
quarta-feira, 1 de março de 2017
entrevista HQs com café
Entrevista
com o escritor Carlos Clara Gomes.
Em Viseu
Portugal, literatura e contestação se misturam dentro de um mesmo sentido de
divulgação a um novo humanismo, tendo as premissas de uma valorização do
sentimento verdadeiro, pela paixão do saber, de um nivelamento de entendimento
intelectual onde “todos”, possam ser ouvidos, independente de classe, credo,
etnia, posição política e religiosa, podendo lançar uma arquitetura de crítica,
como fator não de dilaceramento entre nichos de conhecimento diferentes entre
si, mas que tenham o sublime compromisso de realçar e despertar novos sonhos
entre as pessoas.
O intelectual
lusitano, escritor, compositor, diretor da Companhia de Teatro DeMente, músico,
Carlos Clara Gomes, fala acerca da importância da poesia para a formação de
novos contingentes de leitores, da relação da leitura como construção social e
moral, e da disseminação do “saber dialético”, em tempos sombrios de
intolerância e descrença do homem pelo próprio homem, assim como dá uma
pincelada em sua nova obra “Retrato de
Mulher No Cais Durante”, recheado de toques de romantismo e saudade, diante
um cenário vazio de ternura e carinho, da modernidade.
Uma bela
mistura, entre o erudito e o pop, imiscuída com odor de ceticismo, fazendo um
ácido traçado de virtudes de amor pela arte.
Confira na
entrevista abaixo, e se deliciem com a sinceridade e seriedade de nosso
“camaleão” cultural.
- Caro Carlos, a literatura atualmente passa por um “boom”, de conter em suas premissas estéticas e ideológicas, um forte “pessimismo”, perante “o futuro do homem”, e questões éticas estão na ordem do dia nos debates intelectuais. Todavia no caso específico da poesia, podemos dizer que contém seu espaço ativista ainda, perante a quantidade de livros com baixa qualidade que são lançados a cada ano nos mais diferenciados pontos do globo?
Não sei verdadeiramente se podemos considerar esse boom
pessimista uma marca identitária exclusiva dos nossos tempos. Creio que todas
as eras tiveram os seus arautos do fim dos tempos aqui ou ali…
Porém, acho que a dimensão escatológica de alguns criadores
está intrínsecamente ligada à falta de confiança no dia de amanhã. Muito
frequentemente esta postura de alguns criadores reflecte também a vox populi
que é, por essência, conservadora.
Quero com isto dizer que, como muito bem sabes, as sociedades
temem sempre a mudança, a diferença, ainda que os elementos dessas sociedades
individualmente pensem diferente.
Contudo (e não sei quem é o autor da frase) “todas as sociedades são reaccionárias” de alguma maneira. Mesmo
quando são sociedades que brotam de alguma revolução. E isto prende-se
necessariamente com a questão do Poder. Onde existe Poder é inevitável a sua
putrefacção a prazo. E, é claro, isto cria sentimentos nefastos e potenciadores
de desânimo e aniquiladores de esperanças sobretudo nas pessoas socialmente
mais humildes.
Agora viria a pergunta: “Mas
não há solução para isso?” Eu acredito que haja. Mas essa solução não pode
vir duma entidade messiânica. Não pode ser uma solução exógena. Tem que partir
de cada um de nós. E já seria muito bom que cada cidadão se consciencializasse
que tem não só o direito mas também o dever de colocar em causa algumas
inevitabilidades adquiridas.
Quanto à questão que colocas sobre a qualidade dos livros, não
gosto de me constituir juíz de nenhum criador. Repara numa coisa: Sempre houve
livros de baixa qualidade. O primeiro livro, aliás, a ser publicado em massa
por Gutenberg ainda hoje tem uma baixíssima qualidade literária, além de
plagiar dogmas e eventos de outras religiões e de estar eivado de inúmeras
crueldades, sobretudo no Antigo Testamento. E não é por isso que deixa de ser
lido.
Atrevo-me a dizer que a má qualidade (não só a literária)
não é uma questão exclusiva dos dias de hoje. Foi também uma característica das
eras que nos precederam.
Há, porém, três fenómenos. Por um lado (um desses fenómenos):
hoje somos muitas mais pessoas, o que faz com que também se produza mais má
literatura (como também se produz mais boa literatura, obviamente); por outro
lado: o fenómeno da “Sociedade Líquida” enquadrado por Zygmunt Bauman, em que
cada um de nós passou a ter um portal de acesso ao mundo e a cada um dos
habitantes do mundo… Pessoalmente, acho que essa aparente “proximidade” acaba
por afastar mais do que unir as pessoas mas ainda não passou tempo suficiente
para que eu consiga reflectir sobre isso com precisão.
Há ainda, outro fenómeno, nesse segundo lado da questão
daquilo a que chamas má qualidade literária: Muitas editoras, hoje, adoptaram a
política de o autor pagar parte ou a totalidade da edição, chegando mesmo, em
muitos casos a publicar um único exemplar se for esse o desejo e a capacidade
financeira do autor. Trata-se do “print-on-demand”. Isto acaba por transformar
as editoras em escritórios de tipografias, quando deveriam ser um filtro de
qualidade e inclusive um apoio ao autor relativamente ao melhoramento da suas
obras.
Mas eu não subscrevo necessariamente essa visão acerca da
“má qualidade”. Acho que estamos ainda muito em cima do acontecimento para nos
darmos conta do que está acontecendo verdadeiramente. Possivelmente só a
geração dos nossos filhos poderá verificar com rigor a qualidade literária dos
nossos dias. E aí estaremos no tal “futuro do homem” (que eu prefiro dizer
“futuro da humanidade” para usar uma linguagem mais inclusiva).
Ainda quanto a outro item contido na tua pergunta: as
questões éticas sempre estiveram presentes nos debates intelectuais ao longo da
História. E, talvez – não o sabemos – da Pré-História, embora me incline para
admitir que tenham estado na ordem do dia. Questões como a divisão social do
trabalho, a dominação masculina, a proibição do incesto, entre outras devem ter
sido objecto de intenso debate, não nasceram do nada, obviamente. E não me fere
usar o qualificativo “intelectual” neste caso. A questão que se coloca é: quem
participou nesse debate? E quem ficou barrado de entrar na participação nesse
debate? São questões importantes que a Filosofia, a Epistemologia, a
Arqueologia e a Antropologia (destas todas, afinal, a ciência que melhor nos
poderá falar sobre isso), deveriam estar a dar-nos essas respostas pois tudo
isto está intrinsecamente ligado ao nascimento do proto-capitalismo. Por essa
mesma razão não considero que a guerra de alguns movimentos feministas se possa
fazer isoladamente duma enorme sequência de batalhas e que se chama a derrota
do capitalismo. Porque o capitalismo não surge apenas da relação de trabalho/capital
descrita por Marx e Engels no momento da Revolução Industrial. Vem desde aquele
momento em que algumas comunidades descobriram que podiam deixar um talhão de
terreno de pousio (sem agricultar durante um ano) para acumular riqueza.
Resumindo: para não terem que se preocupar com “o futuro”. Surge aqui uma das
características do capitalismo: a ganância (curiosamente, um dos sete pecados
mortais).
Ou seja: esse foi o momento em que a humanidade parou de
sonhar, o momento fundador do capitalismo que trouxe os fenómenos que lhe são
associados: o empréstimo. Inicialmente, esses empréstimos eram de gado (em
castelhano: ganado, que também
significa ganho. Daí percebemos
rapidamente o étimo da palavra ganância
porque a Filologia também nos ajuda a perceber como é que as palavras e os
sentidos que os povos lhe deram viajaram até nós nos dias de hoje). Mas é
nesses momentos que surgem também: a subalternização da Mulher (e não apenas da
mulher mas também das crianças, dos doentes e dos idosos. Ou seja: o lúmpen do
proletariado daquela sociedade), a monoandria, o uso e comercialização da
mulher como moeda de troca nos contratos de casamento com as comunidades
vizinhas (sobretudo para selar fusões de propriedades tendo em vista futuras
heranças das partes contraentes).
Estas sociedades fundadoras do protocapitalismo acabam por
ser as relançadoras do que mais tarde vêm a ser as “ordens sociais” medievais:
O Clero (nas sociedades primitivas, os Xamanes, isentos de trabalho porque
tinham a função de comunicar com as divindades), a Nobreza (os
caçadores-recolectores, responsáveis por trazer a comida para a aldeia e por
guerrear, já que a arte da caça está indissociavelmente ligada à arte da
guerra) e o Povo (como já referi: as mulheres, as crianças, os velhos, os
doentes. Enfim: todos aqueles que não tinham condições de combater ficavam na aldeia
a trabalhar na agricultura e na pecuária ou fazendo tarefas domésticas
necessárias à comunidade ou ao clã).
Engels, no seu “A
Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” retrata bem todo
esse tecido, debruçando-se exaustivamente sobre as sociedades do Crescente
Fértil.
Mas, desculpa esta larga resposta à tua questão, é
importante terminar isto com a ideia de que não acho preocupante que haja má
qualidade literária nos dias de hoje. A História tem-se encarregado de manter
vivos Homero, Dante, Shakespeare, Camões, Gil Vicente, Padre António Vieira.
A História é o verdadeiro filtro. Já não tenho tanta certeza
que consiga manter vivos os autores da chamada auto-ajuda ou outras correntes.
Na verdade, creio que o “auto” refere-se aos próprios escritores: ajudam-se a
eles mesmos…
- A poesia, e sua genealogia moral, pode está ligada a uma carência intelectual e criativa, que estamos vivenciando?
Acho que cada poeta falará por si pois cada um saberá das
suas motivações relativamente às suas obras. Pessoalmente – e não sei bem
aquilo que sou pois tenho escrito sobretudo Teatro e Canções ao longo da minha
carreira – não acho que isso chegue para fazer de mim um Poeta. Tento viver
poeticamente, persigo o Belo apesar dos dias turvos. Mas uso também a sujidade
para combater a sujidade instalada. Considero-me também um cantautor de
denúncia já que tenho consciência que uso a canção como veículo de combate (não
necessariamente no sentido neo-realista), forjado que fui na admiração por
homens como Woodie Guthrie, José Afonso, Leo Ferré, Silvio Rodriguez, Alfredo
Zitarrosa, Chico Buarque, Vandré e tantos, tantos, tantos outros: Gonzaguinha e
Raúl Seixas, por exemplo. Mas também admiro na escrita tout-court Kerouac ou Ginsberg. Sinto aquela escrita como um
poemário, um desfile de canções. Ou também uma exposição fotográfica no sentido
de retrato sociais que partilham connosco. “O
Uivo”, de Ginsberg é, por exemplo, um verdadeiro uivo contra uma sociedade
pútrida. Sinto que a escrita on the road da
Beat Generation, trouxe um contributo
urgente e necessário a uma geração de sonhadores que um dia tiveram a veleidade
de querer mudar o mundo… Como também me influenciaram no teatro de forma crucial
autores como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Aquilino
Ribeiro. No romance, decididamente, foram Jorge Amado ou García Marquez os
responsáveis por me impulsionar na escrita. No meu romance de estreia
(Montemuro) senti-me como um discípulo de todos esses nomes que citei, desde o
Kerouac ao García Marquez. Ao escrever o Montemuro sentia-me como se estivesse
a fazer os “trabalhos de casa” que aqueles mestres me impuseram apesar das
diferenças estéticas e culturais entre eles.
Tudo isto para responder que não sei verdadeiramente aquilo
que sou: não sei se sou compositor, se sou cantautor, se sou dramaturgo pois
também escrevo e dirijo teatro, se sou romancista e poeta pois escrevo romance
e poesia. Creio que tudo isso são formatos. O campo poiético, a tal Poiesis, o horizonte criativo é
tremendamente vasto. Nem creio que haja horizontes. Talvez o correcto seja
existir um único horizonte, contrariamente ao Universo, que deveria
possivelmente chamar-se Multiversos pois tudo leva a crer que haja mais do que
um único verso. É que o horizonte
depende do momento em que tens o teu foco de atenção virado para ali, para
aquela direcção. Esse é o teu horizonte: É aquilo que vês. Viras-te para outro lado
e tens o mesmo horizonte. É certo que vês outras coisas que não vias no momento
anterior mas é isso que torna a coisa bela: cada momento, é único e irrepetível.
O horizonte está ligado ao conceito de Futuro visto a partir do Presente que,
esse sim, é efémero, não existe. O Futuro, ao contrário do que muita gente
pensa, é a coisa mais verdadeira que existe. Eu conheço o meu Futuro. Todos o
conhecemos. Sabemos que, cedo ou tarde, morreremos. Esse é o Futuro de cada um
de nós. Aliás, é a aquisição deste conceito – a consciência da Finitude da Vida
– uma das coisas que faz de nós Homo Sapiens Sapiens: O Homem que sabe que sabe. O Presente, por tão fugaz, não existe. É
a maior abstracção possível. Quando começaste a ler a palavra “quando” com que
comecei esta frase estavas no presente. Agora, neste momento, aquela palavra já
está no Passado.
Não me detenho com análises de formatos. Nem tampouco fico
escravo delas. Por exemplo: escrevi um ensaio que acabou por desaguar numa peça
de teatro, um monólogo: As Crónicas do Inverno, a narrativa da infância, da
adolescência e dos dias de hoje vistos pelos olhos da minha geração, os que
tinham 15 anos quando aconteceu em Portugal essa belíssima coisa que foi o 25
de Abril, a Revolução dos Cravos.
- A poesia tem alguma chance de renovação e reprodução, perante o crescente mercado da “cultura de massa”, que se alastra rapidamente em praticamente todos os campos da contemporaneidade?
Não sou adversário da cultura de massas. Sou adversário,
isso sim, das políticas que visam o embrutecimento das massas. Gostaria mesmo
que chegássemos a um estádio civilizacional em que os cidadãos fossem de tal
forma exigentes que rejeitassem o lixo. E, sabe-lo bem, há lixo de diversas
matizes. Não é só o lixo do pé-rapado: Há também o “lixo do Leblon” que Caetano cita na sua canção O Haiti. Frequentemente esse lixo dos
vários Leblons do mundo vêm sufocar algumas genuínas manifestações artísticas
de raiz cultural popular. O musicólogo cubano Eduardo Acosta diz, no seu livro “Música e Descolonização”, que a definição
de Música Popular (e, por extensão, qualquer manifestação artística dum povo) é
sempre uma definição unilateral pois é estabelecida e sistematizada pelo Poder
de turno. É esse poder que define o que é “seu” e o que é “popular”, muitas
vezes relegando algumas artes populares para o campo do “artesanato”, como se
tal fosse uma coisa menor.
Mas há muita fraude por parte de muitos compositores
contemporâneos, por exemplo. Como há por parte de muitos dramaturgos. Como também
por parte de muitos escritores. Só o tempo nos dará a verdadeira dimensão
daquilo que é fraudulento e daquilo que não o é. Muitos Leblons esconderão os
seus lixos debaixo do tapete como se fossem aquele parente incómodo vindo do
interior que os encontra numa vernissage. Há a moda e há a modernidade. São coisas diferentes. E, muitas vezes,
antagónicas.
Contudo, importa referir uma coisa relativamente à cultura
de massas:
Da mesma forma que não faria sentido expor a Guernica na
feira de Caruaru – apenas porque o público da feira não tem condições (na
feira) para desfrutar a dimensão da Guernica (e porque esse público merece o
desfrute cabal da Guernica e não por outra qualquer razão de ordem classista),
seria igualmente a coisa mais desengraçada do mundo ir dançar num arrasta-pé ao
som dum trio de Jazz toando Thelonius Monk ou dum quarteto de cordas tocando
Olivier Messiaen… Também temos que saber aprender como são as coisas e em que
sítio as devemos colocar.
- Em sua opinião, como está produção intelectual portuguesa? Está se reinventando? Ou está estagnada?
Mentiria se dissesse que a produção artística portuguesa vai
de vento em popa. Como também não acreditaria se me dissesses isso mesmo da
produção artística brasileira. Ou da colombiana. Ou da cabo-verdiana. Num
momento mais agudo de crise financeira quem sofre é essa mesma produção.
Nos países atingidos pela crise do chamado sub-prime e com governos menos sensíveis
à urgência da revitalização da produção artística essa situação atinge foros
dum obscenidade atroz. Estamos falando de produção artística, não estamos
falando de criação artística. As dificuldades financeiras podem impedir a
concretização dum projecto, a montagem duma peça, a realização dum concerto, a
estreia dum filme em tempo útil.
Criação é outra coisa: nunca se deixa de criar. Aqueles que
acreditam no tal Futuro – e eu acredito – não param de criar. Nem que as
criações fiquem vários anos na gaveta… Mas um dia sairão de lá para irem para a
partilha pública.
É claro que essa situação não se pode aplicar aos criadores
de arte fast-food pois aquilo que
criam está estreitado nas margens do que lhes é determinado pela estética e
pela ética reinantes.
Por isso a resposta é: Não, não está estagnada. Contudo, é
claro que um país como Portugal, sem uma verdadeira “indústria” criativa
montada (contrariamente ao Brasil), com um povo sem tradição cultural de
considerar o ingresso no teatro, a aquisição dum livro ou dum CD, como parte
integrante da sua cesta básica torna difícil a sobrevivência dos criadores.
Mas tu referes “produção intelectual”. Se pretendes com isso
referir-te à produção de pensamento, creio que existem muitos teorizadores, nas
diversas áreas do conhecimento a produzir em Portugal.
Apenas lamento – e é apenas um pequeno lamento – que muita
dessa produção esteja confinada dentro dos muros das universidades. Uma das
premissas do Processo de Bolonha era exactamente essa: o derrube das muralhas
da academia e a partilha com a população. Não digo que não se promovam
conferências e debates abertos aos público. Lamentavelmente, porém, os circuitos
de difusão e promoção dos eventos leva a que tomemos conhecimento desses mesmos
eventos depois de muitos deles já terem ocorrido.
- Estaremos vivenciando um existencialismo moral e intelectual camuflado, por autoafirmações de “eus”, doentes. de cultura hibrida e erudita em nossos dias?
Bem, quanto ao existencialismo: Se considerarmos o
pensamento de Kierkegaard em que postula que o indivíduo deve dar significado à
sua vida e buscar a felicidade e vivê-la apaixonadamente, creio que subscrevo
esse pensamento embora com algumas reservas.
Por exemplo: concordo quando acho que ninguém irá viver a
minha felicidade em meu lugar. Até porque a dimensão e o conceito de felicidade
são absolutamente pessoais e intransmissíveis e dependentes das idiossincrasias
de cada ser humano: Aquilo que para mim é Felicidade pode seguramente não o ser
para ti. Posso, se quisermos ser mais práticos, sentir-me feliz porque amo
determinada pessoa ou sentir-me feliz quando recordo alguma patifaria de algum
dos meus filhos. Essas razões não fazem de ti uma pessoa feliz pois a) não
conheces sequer a pessoa que eu amo; b) não vivenciaste o que vivenciei com os
meus filhos e c) Podes mesmo não considerar Felicidade amar alguém ou visitar
uma memória gostosa. Até aí estou de acordo com o realidade de que ninguém pode
viver a felicidade de outra pessoa, tal como o conceito de cada um procurar dar
significado à sua própria vida.
Contudo estes conceitos podem resvalar rapidamente numa
espécie de lei da selva, num salve-se quem puder em que a palavra de ordem
será: o último a sair feche a porta.
O egoísmo é o nome do circo que chegou à cidade. A delação ganhou estatuto de
virtude, a promoção do culto do indivíduo em detrimento do colectivo
transformou-se num emblema. Hoje é frequente, na apresentação de currículos
para empregos, os jovens acrescentarem uma nota: “Observações: Não fumo”. Este detalhe, aparentemente inócuo,
significa uma mensagem, um recado ao eventual empregador que se traduz assim: “Se me empregares tens mais vantagens nisso
pois não perco tempo a ir lá fora fumar um cigarro e assim podes explorar-me
melhor. Além disso, podes despedir um gajo que fume”.
- O “romantismo” ainda ocupa lugar de destaque, dentro da disseminação leitora que estamos alojados?
Creio que sim. Sinto que há uma necessidade enorme das
pessoas se sentirem amadas. Existe uma necessidade visceral de romance na sociedade contemporânea. Não
sei explicar sociologicamente esta dimensão. Constato a sua existência, apenas.
Há muitos desamores nos dias de hoje. Paixões não correspondidas, “traições”, o
desejo de aventura é imenso. A rotina é fastidiosa: Sou mal amado ou mal amada? Tenho uma boa solução: vou escrever um
poema no Facebook. Ok. Fiz bem, sinto-me melhor. Desabafei… Tive apenas 2 likes
e um foi da minha mãe que põe likes em tudo desde que lhe ofereci o PC no Natal.
Agora vou ilustrar o poema com uma imagem. Escolho algo que indicie uma pulsão
erótica. Vamos a isso. Cá está: Uma foto a preto e branco, um casal nu na areia
da praia - apenas se vê o que é
“decente” ver-se, nada de frescura ou modernices – uma rosa vermelha entre os
dois. Edito o post anterior? Não. Elimino e faço um novo post agora com a foto…
Bem bom: tive 850 likes e 135 comentários, todos eles referindo-se à foto e não
ao poema. Agora sinto-me verdadeiramente bem. Há pouco sentia-me apenas bem.
Agora o meu ego inchou.
Correndo o risco de parecer injusto, diria que esta
ferramenta das redes sociais também serve para nos dar a sensação de que
abrimos a janela e gritámos para a rua: Fora
Temer! E pronto. Está resolvido o
problema. Fiz a minha boa acção do dia.
Porém a verdade é que não fui gritar para a rua: Fora Temer!... Não, não fiz isso. E o
que até poderia ser um grito que causasse estragos na governação Temer passou a
ser uma medida assexuada de intervenção cívica.
Não significa que eu ache que tal ferramenta como o Facebook
ou outras redes não devam ser usadas para isso! Acho, isso sim, que também
deveremos canalizar a revolta para formas de combate organizado de modo a
poderem ser verdadeiramente eficazes.
E isso faria com que cada um de nós adquirisse uma
verdadeira consciência de cidadania.
- Em sua recente obra “Retrato de Mulher no cais Durante” (2017) , você trata muito arduamente da solidão, de amores distanciados pelo egoísmo, e por entraves de busca em terras longínquas de uma vida melhor, lançando uma condição do sonhar, como uma forma de suprir a dor da realidade de não está com a pessoa amada, a saudade. Pode vir a ser classificada como um personagem oculto em sua poesia?
Vou tentar organizar a resposta pois a tua pergunta tem
várias perguntas dentro dela.
Primo: Este livro fala de dois pontos de vista. O de quem
fica e o de quem parte. Tanto assim é que tem duas capas e nenhuma contracapa.
Em qualquer das abordagens de leitura, a obra termina no meio do livro. Ou
seja, como disse um dos prefaciadores, o Ricardo Fonseca Mota “é um livro para onde se pode entrar por
duas portas e donde não se sai”. Os poemas de quem fica são “simétricos”
com os poemas de quem vai. Abordam-se de pontos de vista diferentes. Em
determinado momento, a mulher (“quem fica”) começa a desacreditar do regresso
do homem (“quem vai”). Por seu lado, ele começa – ele-mesmo – a acreditar que
talvez não compense o esforço do regresso apesar de, com tenacidade, o desejar
ardentemente. O poema final é comum: Por parte dela adquire a forma duma
interrogação. Por parte dele adquire a forma duma resignação.
Este livro veste-se duma metáfora de viagem, corporizando
aqui uma daquelas chamadas “viúvas de maridos vivos” cujo esposo ou noivo
buscou vida no Brasil, na Venezuela, na Argentina, nos Estados Unidos, em
Angola, Moçambique, no Congo, na Rodésia, estas algumas das rotas de migração dos
embarcadiços. Esta é a metáfora. Mas também pode aplicar-se a separações não
devidamente esclarecidas. Por exemplo: as antigas paixões que não foram
verdadeiramente apagadas enquanto ele ou ela ou ambos andaram “viajando” por
outras vidas, outros amores.
Porém, é sempre uma homenagem a quem sofreu com esses
distanciamentos.
Secundo: Não creio – pelo menos não o senti quando escrevi o
Retrato – que se detecte ali alguma situação de amores separados pelo egoísmo.
Pode, isso sim, haver alguma situação de amores separados pelo medo, seja esse
medo aquilo que for: balançar entre o romantismo desejado interiormente e o
pragmatismo duma vida “certinha” e garantida.
Tercio: Sobre a personagem oculta. Há como que um narrador
indelével mas discreto. Por vezes fala com ela. Por vezes fala com ele. Alguns
poemas são, por vezes, como que cartas que ele escreve para ela. Outras vezes
são cartas que ela escreve para ele. O último poema é decisivamente escrito por
cada um deles, como aquelas cartas que se escrevem para alguém mas que nunca se
enviam.
Ambos sabem – na verdade – que qualquer um deles ficará
vinculado àquilo que escreverem. Por isso fica no ar a dúvida se foram ou não
recebidas aquelas cartas, apesar duma ser pergunta e outra ser resignação. Mas
pode apenas ter-se tratado de actos que resultaram de estados de espírito
momentâneos e fugazes. Ou talvez não. Cabe a quem lê decidir isso. A mim
compete escrever o livro, a quem o lê compete a interpretação.
- “Cantamos saudades, e esquecemos de viver o amor”, uma provocação relacionado as memórias de sua obra, estamos vivendo somente por viver, sem perspectiva de utopias? Qual sua opinião da afetividade como cunho intelectual e filosófico, dentro de nosso atual momento histórico?
Acho que ainda há muita gente vivendo utopias. É certo que,
nos últimos anos, a Dona Morte levou muitos utópicos na garupa do seu cavalo
entre os quais o Eduardo Galeano ou o Umberto Eco. Contudo ainda ficaram muitos
para semente. E depois desses partirem ainda ficarão muitos!
Mas a minha saudade não se reflecte no passado. Isso seria
nostalgia, aquilo a que os gregos chamavam a
dor do regresso a casa. A minha saudade espelha-se no Futuro, no tal
horizonte que referi noutra resposta. Sei perfeitamente a diferença entre
nostalgia – que a sinto também e que gosto de a saborear pois vou lá buscar
algumas das minhas marcas identitárias geracionais – e saudade, que é esse
sentimento lindo que nos faz voar para a tal ilha encantada e a sociedade
perfeita que nunca chegaremos a alcançar na nossa vida mas que cada vez mais
ficaremos perto dela.
E acredito piamente que a Humanidade um dia conseguirá esse
desígnio.
- A saudade pode ainda, dentro de uma literatura poética, vir a construir um caminho de apreciação da leitura para os jovens?
Essa pergunta levanta várias questões mas destaco apenas uma
delas como matriz: hoje constatamos que as novas gerações “não gostam de ler” atendendo a inúmeras solicitações que brotam de
devices electrónicas tais como
smartphones, tablets, etc…
Não tenho claro que não gostem de ler. Creio que lêem e até
lêem muito. Nessas mesmas devices.
Aqui a questão não deve ser o suporte: a História desde que
se chama História já se escreveu em abundantes suportes: tábuas de cera,
papiro, papel, etc.. A questão é que neste momento existe um novo ambiente – a
internet - que remete para novos sub-formatos que não precisam do tal “suporte”
(os e-books, os blogues, etc., etc.).
Se calhar há a necessidade de começar a fornecer conteúdos
de qualidade a estas gerações.
Quanto à saudade como tema de apreciação de leitura para os
jovens, convenhamos que a sua característica de serem jovens ainda não
exponencia verdadeiramente a saudade (entendida lato senso e não apenas no sentido em que eu a entendo para mim).
Trabalho muito com elencos jovens pois a minha Companhia de
Teatro tem muitos acordos com Escolas, sobretudo a níveis pré-universitários.
Costumo criar o texto colectivamente, em regime de brainstorming, potenciando que cada
elemento dos elencos performativo ou técnico possa contribuir com algo de seu
para a criação do espectáculo a construir. Este processo faz sempre com que
cada um dos integrantes entenda o espectáculo como um objecto seu.
Há alguns anos, quando andava por aí aquela moda televisiva
dos vampiros, do Twilight, e dos zombies, lancei a pergunta para um dos
elencos, numa reunião de texto: “O que é
que fascina tanto a vossa geração com esta história dos lobisomens, dos
vampiros e dos mortos-vivos?”
A resposta surgiu rápida: “É aquela coisa da imortalidade”
Fiquei atónito. Acho que, por vezes, importa percebermos as
motivações dos jovens.
Quanto a usar a saudade ou outro qualquer elemento, acho
isso irrelevante, acho, isso sim, importante que se escreva para estas
gerações. Ou, melhor; que se ponha esta geração a escrever para ela mesma.
Talvez todos ganhemos com isso.
- Em sua opinião qual é a real função da poesia em nossa atualidade?
Não sei, na verdade. Nem me preocupa sabê-lo. Deixo isso
para aqueles académicos que gastam o seu tempo a definir coisas sobre o acto
criativo sem criarem nada que não seja a especulação sobre esse mesmo acto
criativo.
Não sei que função tem a minha poesia. Mas sei a função que
eu quero que tenha no momento em que a escrevo: quero que sirva como um meio de
comunicação entre o meu pensamento e os meus concidadãos.
Penso neles quando escrevo. Frequentemente sinto-me um deles
a “ler-me”. Porque, antes de ser
escritor sou um leitor.
Isto não significa que escreva em função do gosto
predominante. Não! Pode até coincidir mas essa não é a minha preocupação. Mas
escrevo com o objectivo de ser lido por essa gente, a começar pelo meu
microcosmos que é o meu bairro, pela senhora que me serve todos os dias um café
expresso pela manhã e onde gasto (ou onde invisto) os meus 15 a 20 minutos
diários de cheap talk enquanto espero
o autocarro, até ao Martim, professor de liceu, literato, boémio e amigo do
peito, penso nos meus filhos, penso na mulher que amo. Penso em toda essa gente
e em muita mais que nem imagino algum dia vir a conhecer. Penso nessa gente e
imagino-os a lerem-me a deliciarem-se ou a fazerem cara feia…
- “Carlos Clara Gomes”? Poderia conter a classificação de um intelectual hibrido? Ou dialético, por divagar por antagônicos campos do saber?
Gosto do “híbrido”.
Não gosto de me auto-classificar. Isso é-me muito redutor. Compartimenta-me e
constrange-me. Sufoca-me.
Aceito o “híbrido”
porque ao híbrido está associada a palavra mestiçagem que me é imensamente querida.
A outra designação – dialética - não é de desprezar pois
tive (quase contraditoriamente) uma adolescência simultaneamente missionária
(católica) e de inspiração marxista (no mesmo seminário dos missionários com
quem convivi diariamente durante quase três anos apesar de só o ter frequentado
durante quinze dias). Nota que a minha adolescência foi maioritariamente vivida
durante o fascismo português em que a Igreja Católica fazia uma castração
intelectual enorme. Para mim, aquela gente – os Missionários Combonianos – quer
pela atitude social quer pelo facto de me darem secretamente a ler obras
proibidas em Portugal de que destaco O Cavaleiro da Esperança ou os
Subterrâneos da Liberdade, do Jorge Amado, aquela gente – dizia eu – fazia uma
enorme diferença não só em relação à Igreja mas em relação a todas as
instituições existentes nessa época.
Mas não acho que haja campos antagónicos no Saber. Acho que
todos se encaixam e que não existem fronteiras entre eles. Aliás: acho que sou
um polímata pois já fiz inúmeras coisas diferentes mas não antagónicas, que a
minha formação marxista – mais tarde reforçada pelo meu recrutamento para a
Juventude Comunista (se calhar motivado pelo Jorge Amado e a sua literatura
subversiva…) – me ensinou a fazer: Ser útil ao meu semelhante. Algo como Lucien
Goldmann refere no seu ensaio “Le Dieu
Caché”: Uma espécie de Cristianismo sem Cristo.
Fiz teatro, fiz música, fundei uma rádio, fundei um centro
de arqueologia, viajei nos camiões do Movimento das Forças Armadas depois da
Revolução para ensinar velhos a ler nas aldeias mais remotas de Portugal, fiz
recolhas de gravações de repentistas e violeiros no Nordeste do Brasil, gravei
poetas analfabetos em Moçambique, pratiquei esgrima e rugby, até fiz
aeromodelismo… E tudo isso foi feito com espírito de missão, em nome dum mundo
melhor, do tal Homem Novo. Que algum dia nascerá, estou certo.
- Você é um sonhador? Podemos ainda pensar em algum romantismo, contendo uma significação de um “amor”, que contenha um sentimento verdadeiro, ao invés de ficarmos sonhando com um retorno por parte da pessoa amada ao qual só existe em nossas mentes, sem assim cair no nefasto caminho do “ficar’, só por “ficar”, contendo assim uma ultra valorização do sexo sem limites?
Sim sou um sonhador. Apesar de vivermos sob a égide do
pragmatismo, têm sido os sonhadores que fizeram a diferença sempre. E os
preguiçosos, que tiveram o trabalho de inventar coisas para poderem preguiçar
mais à vontade.
Como disse na minha resposta anterior, a minha formação
católica marcou-me bastante. Já fui crente, depois fui ateu, hoje considero-me
agnóstico. Mas há alicerces do meu pensamento que ficaram em mim e me
acompanharam sempre desde o contágio com os Combonianos. E com os velhos presos
políticos libertados com a Revolução, meus camaradas do PC. Havia um entre
eles, ferroviário aposentado (alguns dos jovens mais malandrotes, nos quais eu
me incluía, referíamo-nos secreta e carinhosamente a ele como o Estaline dos Comboios) que me contava
histórias da clandestinidade enquanto me ensinava a jogar xadrez. Durante
muitas dessas partidas de xadrez também falávamos da Batalha de Guararapes, de
António Conselheiro, de Lampião combatendo a coluna Prestes, de Olga Benário
sendo entregue por Getúlio Vargas a Hitler. Ou falávamos da canção política.
Confessou-me que a poesia de Paul Simon era muito mais bela e interventiva que
a de Bob Dylan, Dylan esse que o Estaline
dos Comboios considerava “um
franco-atirador dando uma de liberal”.
Um dia, o camarada Estaline
dos Comboios não apareceu. Tinha tido um acidente vascular cerebral a
caminho do Centro de Trabalho do PCP e morreu de imediato. A ambulância veio e
levou-o para o Hospital, já sem vida.
Coube-me a cruel tarefa de levar a triste notícia à viúva.
Pois, estas duas fortes matrizes, a cristã e a marxista,
fizeram os traços formativos do meu edifício de pensamento. Um desses traços
formativos é o amor ao próximo. Não concebo uma qualquer comunidade em que tal
não possa existir.
Tenho e tive os meus amores privados, alguns correspondidos
em igual grau, outros nem tanto. Em todos eles fui muito feliz. Porque amei sem
esperar o retorno.
- Nessa passagem: “aqui construímos nosso mundo, mas lá fora inventamos ser pássaros” (página 51), ainda podemos contar com sonhos de uma ética de respeito pelos sentimentos verdadeiros, ou podemos decretar um existencialismo nefasto de afetividade pelo próximo, seriamos pássaros presos nas gaiolas do egoísmo da modernidade?
Quanto a isso do sexo sem limites que perguntavas na questão
anterior a esta, aproveito para te responder nesta: há sobrevalorização, sim.
Há mesmo a banalização através da cultura televisiva que promove esse tipo de
baixeza ética, perigosamente fomentando a promiscuidade – e não tenho nenhuma
reserva mental do ponto de vista moralista para dizer isto – mas sobretudo
fazendo crer que “esse” é o caminho certo: a banalização como o fim em si
mesmo. Há claros objectivos de formatação social e política na promoção de
programas televisivos como esses. Hoje é frequente um adolescente ser vítima de
bulling na escola apenas porque gosta
de ler. Ou porque toca violino. Ou porque ainda é virgem apenas porque quer
deixar de o ser com quem ele ou ela consideram ser “a tal pessoa”.
É certo que a liberdade sexual pela qual se pugnou no Maio
de 68 só está a chegar agora, meio século depois.
Por um lado, ainda bem que os jovens de hoje têm uma outra
postura relativamente ao sexo. Lembro-me que ninguém nos ensinava nada quando
éramos jovens e que qualquer conversa sobre isso era um tema tabu. Por outro
lado, lamento que a sua sobrevalorização favoreça a cegueira relativamente a
outras formas de ligação afectiva que não comportem necessariamente a questão
sexual.
Mas creio que o ponto de equilíbrio será encontrado. Sem
castrações nem impedimentos.
Mas também não creio que seja a poesia que vai resolver
isso.
- Diante da crise de valores que estamos vivenciando, com a chegada por exemplo de Donald Trump ao poder, ou as medidas conservadoras tomadas por Michel Temer no Brasil, Guerra Civil na Síria, o terror do Terrorismo do Estado Islâmico, o endurecimento do governo Putin, qual seria o papel do escritor hoje perante o turbilhão de intolerâncias que estamos testemunhando?
Acho que as esquerdas têm que repensar as suas estratégias
de passar as mensagens. Sendo que esse “passar mensagem” não passa por
operações de imagem – mera cosmética – que muita gente de direita (ou hoje
posicionada à direita) defendia.
Acho que as esquerdas têm – em nome dos povos que defendem –
que criar plataformas que permitam que seja travado o sofrimento desses mesmos
povos.
Em Portugal estamos vivendo neste momento, há já um ano, uma
experiência de governação sustentada por 5 partidos de esquerda – sem partilha
de poder, note-se – mas que tem feito algumas melhorias na situação social do
país. É evidente que depois de termos tido quer o governo Passos Coelho, quer o
presidente Cavaco Silva, qualquer governo ou presidente se arriscam a ser bons
pois pior do que aquilo não podia haver. Tínhamos batido mesmo no fundo.
No entanto, as esquerdas portuguesas tiveram a maturidade
de, não cedendo os seus princípios, negociar situações parlamentares em nome da
defesa do próprio regime democrático e em nome do fim ao estrangulamento do
povo português.
Quanto ao apogeu das situações que referes, fixo-me em Trump
e em Temer.
Trump sobe ao poder porque Hillary sobrestimou os mass
media. Correu-lhe mal. Hillary foi responsável pelo assassinato de muita gente
durante os mandatos de Obama.
A boa notícia nas eleições dos EUA é que Hillary perdeu. A
má notícia é que Trump ganhou.
Por outro lado, os votantes dos EUA, pelos vistos preferiram
um troglodita a representá-los. Mas a esse propósito, lembro-me dum slogan de
campanha de Malouf que vi em S. Paulo: “Eu
roubo mas faço!” Que mais palavras queres para explicar o fenómeno Trump?
Quanto a Temer, resumo isto em breves palavras: Toda a
História do Brasil tem sido construída por golpes sobre golpes. Com efeito,
Pedro solta o grito do Ipiranga num gesto de golpe contra a Coroa Portuguesa.
Bendito golpe, digo eu!
Tens depois inúmeros golpes: A própria Lei Áurea que liberta
os escravos é assinada pela princesa Isabel aproveitando a ausência do seu pai
na viagem ao Extremo Oriente. Bendito golpe, esse, digo eu mais uma vez! E
fico-me por aqui quanto à aprovação dos golpes.
Quando, finalmente, o Brasil consegue ter situações em que
não há golpe – as eleições de Lula e de Dilma – é fomentado mais um outro golpe
(com o alto patrocínio da Imperatriz do Brasil: Sua Majestade a Tv Globo. Observo
que, por exemplo, Collor foi eleito porque a Globo assim o quis. Collor foi
deposto porque a Globo assim o quis).
Qual é o papel do escritor nestes momentos? É o papel que
qualquer cidadão deve ter: Denunciar, combater, lutar, lutar sempre. Na sua
escrita ou fora dela. Na sua escrita e fora dela.
Uma das coisas que sinceramente lamento na obra de Fernando
Pessoa é não ter escrito uma linha denunciando o fascismo. Lamento, apenas. Mas
admiro-o imenso, obviamente.
Felizmente sempre tem havido escritores que têm sabido
exercer a cidadania. E infelizmente sempre tem havido escritores apaniguados
esperando esmolinhas que caiam da mesa farta do poder.
- A saudade e as distâncias podem ser consideradas armas, para o “indivíduo” conhecer a si próprio, e o mundo que o cerca?
Não direi “armas” mas talvez “ferramentas”. Tudo pode servir para nos conhecermos a nós mesmos. Tudo,
sem excepção. Obviamente, conhecermos o mundo que nos cerca leva-nos também a
conhecermo-nos a nós mesmos pois nós fazemos parte daquele mundo que nos
rodeia.
- Para encerrar, qual parte do seu mais recente livro, toca mais o coração do “homem” Carlos Clara Gomes?
Creio que me toca muito, não posso negá-lo, o livro como um
todo, como uma unidade, uma história, um sentimento. Toca-me ver os poemas
interpretados por outrem, serem lidos por outrem, com outra cor diferente da
cor que eu lhe daria. Ver isso, assistir a isso é o equivalente a estar a
percepcionar uma obra que já não é minha, que andou vivendo de determinada
forma na minha cabeça e que, subitamente, a cada respiração, a cada esgar, a
cada sorriso, a cada inflexão de voz, se tornou numa obra de outra qualquer
entidade, algo sincrético. Esse parto, quando o livro deixa de ser meu, é como
quando me despeço dum filho para ele ou ela irem fazer vida em outra cidade.
Nesse momento sei que não voltará mais para mim. Mas continua sendo meu de
alguma maneira.
ler entrevista
ler entrevista
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
há sempre um cabrão dum censor à espreita
Parece que há quem queira que a escola continue sendo a escolinha do
fascismo e que mais importa parecer que os nossos jovens são meninos e
meninas de coro (sem contudo patrulhar se há algum decoro nas letras das
canções dessa coisa chamada Agir que arrasta multidões de adolescentes,
apenas para citar este imbecil).
Ou seja: continuamos na hipócrita pátria das aparências.
Nada de novo, até aqui, portanto...
Não precisam de responder à minha pergunta. Mas, já agora:
Estão armados e armadas em tans@s? Da idade dos "meninos" e das "meninas" do 8º ano quant@s de nós não esgalhalhávamos já uma boas pívias?
Cresçam, hipócritas!
E, já agora, criminalizem também o Gil Vicente e todas as Cantigas d'Amigo...
Em cada esquina há um Je Suis Charlie, não é?
Ora ide mas é para o caralhinho que vos foda!
---------------------------
«Ver o meu romance, "o nosso reino", reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer.
"o nosso reino" é a narrativa de uma criança de oito anos, de profunda candura, que ausculta a figura de deus numa tristeza grande pelos infortúnios da vida. Entre os assuntos que magoam esta criança estão as terríveis palavras que lhe dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre um tio que chega de França. Essas duas passagens, no cômputo do livro inteiro, estão como punhais no peito puro da criança, e quem lê o livro não se choca com as palavras, choca-se com a tristeza e o desamparo de que se fala.
Nos meus livros é-me comum abordar o abandono a que somos votados. Sou, desde sempre, impressionado pela solidão e "o nosso reino" é um retrato de uma solidão espiritual a partir do vulnerável ponto de vista infantil.
Lamento que quem discuta acerca do desconforto de alguns pais, de jovens de 14 anos, com "o nosso reino", pareça ter-se esquivado a ler o livro e a perguntar se o choque provocado vem da sua efectiva leitura ou das duas frases que se autonomizaram sem contexto, parecendo sugerir que a obra é um exercício de perversão.
Não sou professor, fui aluno e tive 13 e 14 anos, como é bom de ver. Não me compete ajuizar da adequação de um livro a uma determinada idade escolar. Mas sei que o escândalo normalmente está na competência, ou falta dela, com que se abordam os assuntos. E sei que ter 13 e 14 anos não é uma deficiência, é um tempo natural de descobertas e de maravilha.
Acho muito bem que os pais que considerem os seus filhos imaturos para lerem determinadas obras os orientem noutras leituras. Como acho muito bem que os pais que reconheçam maturidade aos seus filhos os acompanhem em leituras desafiantes, no sentido de verdadeiramente esperar algo dos jovens que não seja apenas fútil e sempre adiado.
Sou a favor de não se tratar os jovens como estúpidos. Falta-lhes informação, mas a grandeza e a complexidade humanas estão plenamente contidas em alguém de 14 anos de idade. Importa saber se queremos fazer de conta que existem crianças com essa idade ou se preferimos atentar no esplendor do aparecimento de um ser mais pleno, perto de estar inteiro.
Seja como for, o que me compete dizer é que o meu livro não é um torpe discurso. É, muito ao contrário, uma exposição enorme de ternura. Para não o perceber basta não ler.»
Valter Hugo Mãe
*
«a santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. porque a vontade de me manter santo não me assistia da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar.»
in "o nosso reino"
Ou seja: continuamos na hipócrita pátria das aparências.
Nada de novo, até aqui, portanto...
Não precisam de responder à minha pergunta. Mas, já agora:
Estão armados e armadas em tans@s? Da idade dos "meninos" e das "meninas" do 8º ano quant@s de nós não esgalhalhávamos já uma boas pívias?
Cresçam, hipócritas!
E, já agora, criminalizem também o Gil Vicente e todas as Cantigas d'Amigo...
Em cada esquina há um Je Suis Charlie, não é?
Ora ide mas é para o caralhinho que vos foda!
---------------------------
«Ver o meu romance, "o nosso reino", reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer.
"o nosso reino" é a narrativa de uma criança de oito anos, de profunda candura, que ausculta a figura de deus numa tristeza grande pelos infortúnios da vida. Entre os assuntos que magoam esta criança estão as terríveis palavras que lhe dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre um tio que chega de França. Essas duas passagens, no cômputo do livro inteiro, estão como punhais no peito puro da criança, e quem lê o livro não se choca com as palavras, choca-se com a tristeza e o desamparo de que se fala.
Nos meus livros é-me comum abordar o abandono a que somos votados. Sou, desde sempre, impressionado pela solidão e "o nosso reino" é um retrato de uma solidão espiritual a partir do vulnerável ponto de vista infantil.
Lamento que quem discuta acerca do desconforto de alguns pais, de jovens de 14 anos, com "o nosso reino", pareça ter-se esquivado a ler o livro e a perguntar se o choque provocado vem da sua efectiva leitura ou das duas frases que se autonomizaram sem contexto, parecendo sugerir que a obra é um exercício de perversão.
Não sou professor, fui aluno e tive 13 e 14 anos, como é bom de ver. Não me compete ajuizar da adequação de um livro a uma determinada idade escolar. Mas sei que o escândalo normalmente está na competência, ou falta dela, com que se abordam os assuntos. E sei que ter 13 e 14 anos não é uma deficiência, é um tempo natural de descobertas e de maravilha.
Acho muito bem que os pais que considerem os seus filhos imaturos para lerem determinadas obras os orientem noutras leituras. Como acho muito bem que os pais que reconheçam maturidade aos seus filhos os acompanhem em leituras desafiantes, no sentido de verdadeiramente esperar algo dos jovens que não seja apenas fútil e sempre adiado.
Sou a favor de não se tratar os jovens como estúpidos. Falta-lhes informação, mas a grandeza e a complexidade humanas estão plenamente contidas em alguém de 14 anos de idade. Importa saber se queremos fazer de conta que existem crianças com essa idade ou se preferimos atentar no esplendor do aparecimento de um ser mais pleno, perto de estar inteiro.
Seja como for, o que me compete dizer é que o meu livro não é um torpe discurso. É, muito ao contrário, uma exposição enorme de ternura. Para não o perceber basta não ler.»
Valter Hugo Mãe
*
«a santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. porque a vontade de me manter santo não me assistia da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar.»
in "o nosso reino"
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
CORTESIA PARA COM AS VISITAS
Quando alguém bate à porta, normalmente abro-a (a
menos que suspeite que se trata do carteiro trazendo más notícias,
daquelas em que é preciso a gente assinar e dar o número do BI).
Fora esses casos, normalmente escancaro a porta. Convido a pessoa a entrar.
Se a pessoa se dignar entrar faço-lhe o reparo de que não ligue pois tenho a casa muito desarrumada. A pessoa deverá corresponder com a cortesia necessária. Algumas dessas pessoas dizem que não me preocupe pois não vieram para arrumar nada. E eu acredito, embora fique algo triste por dentro porque dava mesmo jeito que me ajudassem com os móveis no feng shui e essas coisas.
Eu sorrio e agradeço essa forma gentil e algo silenciosa de me dizerem que se sentem bem da forma como as recebo. Dizem-me em silêncio: "Pois é, devias ter isto em melhor estado mas não te vou dizer isso em voz alta".
É claro que admoesto o Lucas - o cachorro que me adoptou - caso lhe apeteça ladrar às visitas.
Tenho um nu na sala onde recebo as pessoas. A sala está medianamente arrumada. Uma vez, duas Testemunhas de Jeová que me apanharam de humor prazenteiro mantiveram conversa comigo evitando gentil e urbanamente encarar a foto enquanto me tentavam convencer que não há Paz na Terra por haver incréus como eu, enquanto eu tentava demonstrar-lhes que estavam erradas pois o simples facto de estarmos ali a conversar já ilustrava grande Paz.
Reparei que faziam esforços para não fixar a atenção no quadro. Quando se foram embora selámos aquele encontro com um "passou-bem" cordial.
Se não fiz ali duas amigas, pelo menos não fiz duas inimigas. O que já considero muito bom.
Quando vou a casa de alguém procedo da mesma forma: trato de ser eu mesmo, sem opinar que a moldura da Última Ceia não fica bem em tons de dourado ou que o dálmata de loiça fica melhor no jardim a fazer pandan com os anõezinhos e os cogumelos gigantes de plástico. Mas isso sou eu. E nem mesmo eu sei se concordo comigo mesmo ou não...
Se calhar o Presidente do Irão também não se importaria de ver umas mamas ou umas pilas nas estátuas.
Assim como assim, isso não mudará a maneira de pensar de nenhum fundamentalista. Tal como as duas Testemunhas de Jeová que, acredito, saíram de minha casa convencidas que eu era uma alma perdida. E, às tantas, até têm razão... Mas, só por pirraça, não tiro o nu do sítio. Até porque a parede por detrás do quadro tem uma mancha de humidade que fica bem pior.
Uma ressalva ao meu texto: Se um amigo Islâmico ou um amigo Rabino - que os tenho -, me visitarem, terei a cortesia de não os convidar para almoçar se só tiver carne de porco na despensa.
Também não convidei as Testemunhas de Jeová para o almoço pois só tinha lá uma morcela.
E se o Sr. Ismael (o carteiro que normalmente me abastece de correspondência) vier sem as funéreas cartas que mesmo por fora eu adivinho dizerem "Aviso de Corte", recebo-o com água fresca. Oferecer-lhe-ia um copo de tinto.
Mas não bebo...
Carlos Clara Gomes
Escultura de Ricardo Flecha
Fora esses casos, normalmente escancaro a porta. Convido a pessoa a entrar.
Se a pessoa se dignar entrar faço-lhe o reparo de que não ligue pois tenho a casa muito desarrumada. A pessoa deverá corresponder com a cortesia necessária. Algumas dessas pessoas dizem que não me preocupe pois não vieram para arrumar nada. E eu acredito, embora fique algo triste por dentro porque dava mesmo jeito que me ajudassem com os móveis no feng shui e essas coisas.
Eu sorrio e agradeço essa forma gentil e algo silenciosa de me dizerem que se sentem bem da forma como as recebo. Dizem-me em silêncio: "Pois é, devias ter isto em melhor estado mas não te vou dizer isso em voz alta".
É claro que admoesto o Lucas - o cachorro que me adoptou - caso lhe apeteça ladrar às visitas.
Tenho um nu na sala onde recebo as pessoas. A sala está medianamente arrumada. Uma vez, duas Testemunhas de Jeová que me apanharam de humor prazenteiro mantiveram conversa comigo evitando gentil e urbanamente encarar a foto enquanto me tentavam convencer que não há Paz na Terra por haver incréus como eu, enquanto eu tentava demonstrar-lhes que estavam erradas pois o simples facto de estarmos ali a conversar já ilustrava grande Paz.
Reparei que faziam esforços para não fixar a atenção no quadro. Quando se foram embora selámos aquele encontro com um "passou-bem" cordial.
Se não fiz ali duas amigas, pelo menos não fiz duas inimigas. O que já considero muito bom.
Quando vou a casa de alguém procedo da mesma forma: trato de ser eu mesmo, sem opinar que a moldura da Última Ceia não fica bem em tons de dourado ou que o dálmata de loiça fica melhor no jardim a fazer pandan com os anõezinhos e os cogumelos gigantes de plástico. Mas isso sou eu. E nem mesmo eu sei se concordo comigo mesmo ou não...
Se calhar o Presidente do Irão também não se importaria de ver umas mamas ou umas pilas nas estátuas.
Assim como assim, isso não mudará a maneira de pensar de nenhum fundamentalista. Tal como as duas Testemunhas de Jeová que, acredito, saíram de minha casa convencidas que eu era uma alma perdida. E, às tantas, até têm razão... Mas, só por pirraça, não tiro o nu do sítio. Até porque a parede por detrás do quadro tem uma mancha de humidade que fica bem pior.
Uma ressalva ao meu texto: Se um amigo Islâmico ou um amigo Rabino - que os tenho -, me visitarem, terei a cortesia de não os convidar para almoçar se só tiver carne de porco na despensa.
Também não convidei as Testemunhas de Jeová para o almoço pois só tinha lá uma morcela.
E se o Sr. Ismael (o carteiro que normalmente me abastece de correspondência) vier sem as funéreas cartas que mesmo por fora eu adivinho dizerem "Aviso de Corte", recebo-o com água fresca. Oferecer-lhe-ia um copo de tinto.
Mas não bebo...
Carlos Clara Gomes
Escultura de Ricardo Flecha
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