Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
os últimos dias do homem que julgava ser jaime mouraz
lembras-te quando escrevíamos nudezes e barbas de deuses nas nuvens de algodão feitas?
e quando lembrávamos tropelias, jogos e desacatos?
e palavrões aprendidos no fim da rua já finada pelas casas novas ali erguidas?
lembras-te?
e lembras-te quando o tempo cruel deixou de brincar connosco no rio onde os sapos coaxavam só para que nós os ouvíssemos?
e quando meninávamos nas árvores fazendo de heróis aviadores e outros artifícios que inventávamos naquelas tardes de sol frio que nos aqueciam a alma?
para onde fomos nós, cirandando mundos, doendo ossos crescendo, esticando carnes meninas?
e o zeca, e o chico, e o coiso, não me lembra agora o nome, para onde foram eles?
o zeca inventou de ser pai, já é avô, o chico de militar, fez tropa na guiné e tudo, até tem uma tatuagem num braço a dizer guiné e o ano da incorporação, dizem que agora é general na reserva embora eu não acredite pois nunca vi generais com tatuagens a dizer guiné, o coiso que não me lembra o nome acho que se faleceu de doença prolongada.
também havia o adelino, era dos lados do sátão, falava com tantos ésses que até dizíamos que era "dos sátão", havia até quem perguntasse se ele foi seminarista...
eram belas aquelas tardes em que fugíamos à escola, em que colhíamos medronhos, em que roubávamos as romãs da dona graciete, bicha má de diaba ruim que era, era casada com aquele marido dela, o maestro da banda do asilo, coitado, dizem que uma vez ela lhe furou um olho com a batuta.
eu acho que eram coisas que se diziam: parece que o homem caiu de chofre sobre um arame farpado
e vazou uma vista, a direita, logo essa, que era aquela com que olhava os segundos clarinetes.
mas poderia muito bem ter sido ela com a batuta, isso era bem possível como estarmos aqui os dois...
coitada dela, definhou-se depois que um camião das obras lhe atropelou uma perna. começou a secar, a secar, a secar e em menos de um fósforo empreendeu viagem de ida para o céu das pessoas más, dizia a leonor (aquela que andou connosco na catequese e que depois foi para freira ou que nunca se casou - uma dessas duas coisas foi. ou as duas, talvez - lembras-te?). dizia a leonor que as pessoas más também têm um céu para os maus.
lembras-te dela? levantavas-lhe a bata que trazia, eras lixado de travesso, vinha sempre para a catequese directa da aula de lavores e não lhe dava para se mudar.
que será feito da leonor?
e do quim?
o quim! aquele que o pai foi preso pela pide quando estávamos na aula do professor garcia... lembras-te, pois!... não te lembras tu de outra pessoa: aquele a quem levaram o pai para a prisão lá de lisboa, aquele que teve que deixar a escola porque o professor garcia o gozava desde esse incidente...
ah! já te lembras? pois: o quim seguiu as pisadas do pai nisso de ser do reviralho, contou-me o graciano da casa dos enxovais quando o encontrei no velório da conceição, a irmã do antunes.
e o ernesto? e o coelho? e o jorge?
um deu em médico, como o pai, o outro em padre, como o avô...
e o outro, o jorge, foi para a alemanha e nunca mais voltou cá, parece que tem um negócio de relógios. ou um restaurante, nem sei bem...
ah, eram belas aquelas tardes em que não tínhamos que trautear nem o hino nacional, nem as serras de portugal, nem os rios, nem as vias férreas...
lembras-te?
mas sabes?
gostava de voltar lá, a esse tempo, a essas tardes, voltar a ouvir o coaxar dos sapos, a ver passar as avionetas sobre as nossas cabeças ainda com cabelo e sem cãs...
talvez um dia nos juntemos todos, nem que seja para lembrar os esquecidos...
mas acho que já não terá a mesma piada que tinha dantes...
não achas?
eh lá! não durmas agora!...
olha-me este! não me faças isso!
acudam aqui!...
(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes, in "Os Meus e os Dias"
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Rumos
o caminho desenha-se
e os pés encontram
numa fértil utopia semeadeira
trepadeiras de cores alucinantes
cuja textura não tangível
apenas se sente
quando soprada
hordas de peregrinos
extenuadas
repousam à beira da estrada
que a tradição escreveu
como sendo de todas
a melhor delas
e os pés.
famintos de caminho,
seguem seu traçado imaginário
a despeito de mapas
ou bússolas certas:
só a demência
traz a urgente tenacidade.
(c) Carlos Clara Gomes
Foto: Milene Vale
sexta-feira, 25 de março de 2016
selva
acordo
saio da cama
visto-me para sair para o dia
que entra às fatias
pelas frestas da persiana,
furioso como um cobrador ressabiado
deixo o teu lugar, ali,
quente e doce,
na cama
onde algum dia e muitas noites
serás habitante
e saio para a rua
onde poderei ser atropelado
pela vida
ao atravessar alguma passadeira
de forma imprevidente,
distraído que sou.
SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
quente e doce,
na cama
onde algum dia e muitas noites
serás habitante
e saio para a rua
onde poderei ser atropelado
pela vida
ao atravessar alguma passadeira
de forma imprevidente,
distraído que sou.
SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
segunda-feira, 14 de março de 2016
Boa Viagem, Sr. Feliz
Tenho pena de não ter conhecido melhor este homem. Tenho pena de não ter tido a sabedoria de me ter divertido mais com o Nicolau. Porque, neste país de merda dividem-se as pessoas entre as que empatizam com quatro gajos que fazem humor gozando com a "ruralidade" a partir da macrocefalia duma capital infestada por quem faça broches aos vários poderes e, por outro lado, as que empatizam com quem protagoniza a boçalidade instituída num programa de "adivinha lá quanto custa isto..." E há, também, quem tenha receio de rir. Esses são os mais perigosos. Porque se recusam a ser alegres.
Boa Viagem, Sr. Feliz!
Carlos Clara Gomes
terça-feira, 8 de março de 2016
Mátria
Para todas as Mulheres que, mais do que Mulheres, sabem ser Seres Humanos e não sacrários da Maternidade. Para todos os Homens que, mais do que Homens, sabem caminhar ao lado dessas mulheres que sabem caminhar por suas pernas.
Para toda a Humanidade que, mais tarde ou mais cedo, soube que tinha sido parida por vendavais e ciclones.
Neste dia, todos os dias, ocorrem-me várias muitas mulheres, Catarina, Maria da Fonte, Joana d'Arc. E ainda as guerreiras que escreveram poemas nas nossas almas: Clarice, Sophia e tantas, tantas...
E também as minhas cinco filhas.
Para todas e cada uma dessas Mulheres e das outras não citadas e das outras anónimas, uma flor. Vermelha. Porque vermelho é o Amor, a Paixão e a Vida. E também a Revolução.
Ditosa Mátria também que me pariste e por quem me apaixonei nesse incestuoso abraço que as Mátrias sabem gerar em nós.
Às vezes és madrasta. Mas amo-te na mesma, naquela lógica irracional que faz com que os amores sejam inexplicáveis e, por isso mesmo, tão lindos...
Viseu, 8 de Março de 2016
(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
domingo, 6 de março de 2016
cais
Sinto-me cais.
Em mim atracaram já tantos amores, vestidos ou não de filhos e filhas, de companheiras, de camaradas, de amigos e amigas.
Todos, sem excepção, deixaram seus cordames amarrados em mim. E continuam a deixar.
Não me é fácil quando alguém sai de mim para se fazer à água.
Fico vazio durante uns tempos. Muito tempo, às vezes... E esse vazio não se preenche com outro barco pois há sempre o laço dos afectos, uma amarração unipessoal e interpessoal com características identitárias específicas. E cada afecto é um afecto específico, é um afecto dirigido àquela pessoa. Exclusivamente. Irrepetível.
E sou tentado, depois, a avaliar em que medida não fui suficiente cais para as embarcações que em mim atracaram e que de mim levantaram ferro.
Se calhar, não foi nada disso: se calhar as cordas com que estavam amarrados a mim encarregar-se-ão de testemunhar se fui ou não um cais eficaz, se fui ou não um amigo ou um amante ou um companheiro ou um camarada à altura dos que estiveram atracados em mim e que, entretanto, partiram.
Se calhar precisavam de mim para bolinar, para estagiar para novos ventos, como os passaritos que levantam voo depois de terem feito tirocínio no ninho.
E, quando olho para esses pedaços de cordame que ficam marcados - ficam sempre marcados - nos pinos de atracação, leio-os e sorrio.
Sorrio porque me recordo, sem nostalgia e sem saudosismo, que vivi bons momentos, que sorri bons sorrisos, que lutei boas lutas com esses barcos que entretanto de mim partiram. E lembro-me que, também, esses barcos a mim chegaram.
E, apesar de tudo, sinto-me um privilegiado. Porque todos esses amores me ensinaram a refinar o amor: o próximo. Não ao próximo porque sem esse não haveria nenhum dos outros.
O próximo, aquele a seguir a este.
Aquele pelo qual todos estamos apaixonados.
E volto serenamente ao meu ofício de ser cais.
(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e Os Dias"
sábado, 5 de março de 2016
já te navego
seguro nas mãos
um destino ignoto
talvez um dia
me calhe em sortes
um navio de grande porte
ou até um batel
que me leve daqui
até destinos mágicos
que não sei ainda explicar
talvez um dia,
no cais que tenho sido,
atraque e eu suba a bordo
dando largas à minha corsária vocação
de pirata e bucaneiro
preciso dessa embarcação
preciso-te,
e apesar de ainda te desconhecer
já te navego.
(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
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