quinta-feira, 22 de setembro de 2016

bem sei

bem sei
que os dedos de alguns poetas
passam unhas
na pele das palavras por dizer

e que
pelas manhãs desguarnecidas de crueza
um dia
marcharão aves sem dono
pelas avenidas onde hoje
o frio habita dentro de almas já sem pele

haverá
eu sei
centopeias ululantes
e os já estafados unicórnios azuis
em cada escombro por explorar

e dentro de cada gruta
desabitada de luares
os povoadores farão fila
para a colonização da euforia

e para todos
chegará o pão ázimo
que devotos e profanos
em rebuliço partilharão
na sobrepele de cada sonho

e em cada parede devoluta
um grafito 
- pelo menos! -
clamará pelo teu nome
na surdina dos gritos 
esperados no cantochão 
que os humildes há milénios vociferam 
desesperando pela febril justiça 
prometida nos manuais 
já poeirentos apesar

e contudo
na sacrossanta fé no amanhã
uma réstia de denodo
ainda canta

e procria.

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