domingo, 25 de dezembro de 2016

O Sousa dos Fados

Tinha um saco de músicas arrumadas na gaveta que, sempre que podia, me mostrava. Cada uma melhor que a outra.
Ainda não estavam acabadas, dizia sempre ele. Nunca as considerava acabadas, este homem que perseguia graais que nunca ninguém soube quais eram. Nem mesmo ele.
Fazia questão de me dizer que aquilo que me mostrava não era fado. E não era. Era muito mais.
Nunca teve um nome artístico.
Nem precisava: Pois, se era o Sousa! E não havia quem não conhecesse o Sousa.
Por vezes, para esclarecimento de ambiquidades, apodava-se como O Sousa dos Fados.
E, para alguém que passasse perto da rotunda de Viriato, soariam claramente nesta pacatez rural as músicas urbanas das duas margens dum rio que por aqui corre e corre e corre.
Não é o Pavia. É um outro rio caudaloso onde se banharam muitas gentes daqui. É um rio invisível as olhos dos descrentes. Por isso - já vou avisando - não se gastem em buscá-lo se nele não acreditam, nesse rio frondoso.
Duma das margens, vindo do Café Murgeira ou do Café Paris, soam os bandoneons que bailam nas palavras dos tangos contados pelo Professor Pinto; Da outra margem ouviam-se os gemidos da guitarra do Sousa, vindos ali dos lados do falecido Tomix, ao lado do Senhor Paiva que alugava bicicletas por cinco escudos à hora, isto quando ainda esfolávamos joelhos no alcatrão muito antes do Sousa ter sido desmobilizado da tropa.
Quem com o Sousa tocou sabe bem o quão indisciplinado ele era, uma criança grande que vivia dos holofotes manhosos que alimentavam o glamour das casas de fado. Qualquer espaço onde o Sousa entrasse transformava-se numa catedral de fado em segundos.
Generoso e Camarada, Amigo do Amigo como poucos, o Sousa distribuía alegrias pelas mesas circunvizinhas por mais tristes que fossem as letras dos fados que acompanhava.
O Sousa era um socorrista: Era o equivalente ao INEM de muitos fados e de muitos fadistas. Era o Sousa quem salvava a honra de muitos conventos.
Cruzámo-nos há poucos dias num dos Bairros Altos de Viseu, a desertificada Rua Direita.
Falámos das músicas dele e das minhas músicas. Lembro-me que falámos do valor da Amizade.
Já depois de ter escrito isto, editei para fazer constar que o Sousa é provavelmente o único Músico que conheço que nunca fez juízo de valor sobre outros colegas.
E lembro-me (como poderei esquecer?) que me disse nesse nosso último encontro: "Estás aqui dentro, meu Irmão", batendo no peito com aquela sua mão sapuda que sempre foi um denso mistério perceber como semelhante manápula - de unha cuidada, é certo, mas não menos sapuda por isso - conseguia destrezas para fazer chorar os arames da guitarra daquela maneira só dele.
Demos um abraço fraterno quando nos despedimos, um abraço daqueles que se dão quando não sabemos que nos estamos a abraçar pela última vez. Duma despedida para sempre. Porque há sempre alguém a partir, nesta vida cigana.
Não deve ter havido em Viseu músico digno desse nome, de qualquer área estética, que não tivesse contactado com o lado humano do Sousa. Que era, afinal, o mesmo lado que o lado artístico. Porque o Sousa pode não ter sabido ser "artista" mas sempre soube ser Humano. Que é, feitas as contas, a massa com que se faz um verdadeiro Artista.
Estou triste, Sousa. Mas de cada vez que lembro um qualquer episódio teu, associado a umas quantas traquinices tuas, não consigo parar de sorrir, meu Irmão (como tu me chamavas, como tu chamavas a tanta gente pois tantos Irmãos soubeste fazer para além dos muitos que tinhas de sangue...).
Até sempre, Mestre. Devo-te muito.

Carlos Clara Gomes

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