domingo, 11 de dezembro de 2016

Parabéns Zeca


Mestre, Amigo, Companheiro e Camarada de Armas Semi-Fusas e por isso Semi-Deusas...

Hoje é a tua Festa, pá
Fico contente
Enquanto estás ausente
Guardo um Cravo para ti...


Parabéns, Zeca!
Xi Coração!
do teu Clara a partir dA nossA ACERT
(que hoje foi ao Mundo reveladA - também ela festejando um dos seus números redonditos, pela voz do nosso outro manguelas de estimação, o Zé Rui, que é mulher, essa quarentona sempre gaiteira).
Mas disso, Zeca, de elA ser gaja, já nós sabíamos há q'anos,
Já a apalpámos todinha, em toda a extensão da sua pele e carnes sensíveis...
Nós e a imensidão de seus e suas amantes, promíscua que é...
Bendita promiscuidade, querida ACERT,
Querido Zeca.
Querid@s tod@s.

Tondela e Açores ao mesmo tempo, 9 de Dezembro 2016
Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

morte à morte!


Entre uma profunda tristeza e uma impotência enorme, entre discernir perante a barbárie e o aproveitamento xenófobo da barbárie, entre uma sexta-feira 13 sangrenta e outras sextas-feiras 13 igualmente sangrentas da História, entre o incómodo de ir dormir sabendo que terei pesadelos metendo sangue e ferros retorcidos e a revolta de saber que hoje em muitos cantos do mundo inúmeras crianças viverão esta noite pesadelos, acordadas entre sangue e ferros retorcidos, muitas delas perto dos cadáveres de entes queridos... 
Entre os céus e a merda há uns merdas que arrotam hálitos de morte clamando-se guerreiros da fé que envergonham as fés dos justos, dos pequenos, dos humildes, dos vilipendiados.
Morte à morte!!!

Carlos Clara Gomes
Viseu, 14 de Novembro de 2015

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Portugal renascido?

ver vídeo

O dia de hoje será, seguramente, lembrado na História.
Será lembrado como o dia em que a esquerda se uniu para impedir o canibalismo moral e cívico que tem vindo a fazer estrada.
Não vou exagerar dizendo que Portugal renasce hoje.
Mas é um dia em que sinto a fraternidade entre os que se preocupam com o seu semelhante ter um brilho que não tem tido até agora.
Pode ser que até seja só por hoje. Pode ser que já amanhã os serventuários da alta finança, em todas as suas matizes de subserviência, comecem a escrevinhar coisas com o cotovelo, que foi a única forma de escrever que conheceram até hoje. Coitados.
Esses gatafunhos produzidos não sobrevivem ao seu prazo de validade, perecíveis que são: a História tem um caixote do lixo onde costuma arquivar tais faits divers.
A vigilância urge. Urge a vigilância em nós. Em cada um de nós.
Urge agora que cada um de nós, aqueles que hoje rejubilámos, quanto mais não fosse em nome dos nossos queridos mortos que não lograram ver este dia acontecer, dê o exemplo de boa-vontade na reconstrução de um País devastado pelo nepotismo, pela ganância, pela usura, pela corrupção, pela má-vontade, pela mentira, pela arrogância, pela discriminação, pela censura, pela desinformação, pelo roubo, pela eutanásia forçada dos nossos velhos, pela fome dos nossos filhos.
A tarefa não será fácil. Mas contai comigo, amig@s.
Reitero que não ambiciono o poder mas também não lhe faço fretes - a nenhum dos poderes, nem mesmo ao poder da propriedade pois, de meu, só tenho os "meus": aquel@s que eu amo.
E é por el@s e por mim e por tod@s aquel@s que amo sem mesmo termos ainda travado conhecimento, que saúdo este dia.
A tod@s @s eleit@s que hoje souberam cumprir a sua cidadania:
Orgulho-me de vós! Peço-vos que tenhais a sabedoria de saber honrar este orgulho que acabais de dar a tod@s @s que vos elegeram.
E peço-vos isso em nome de los muertos de mi felicidad, parafraseando o Silvio Rodriguez, poeta atento e avisado.






Viseu, 11 de Novembro de 2015, depois de cair a II efémera edição do (des)Governo PAF
Carlos Clara Gomes

terça-feira, 1 de novembro de 2016

HALLOWE'EN



Para lá de toda a dinâmica consumista que lhe está associada, o Halloween é uma celebração de Torna-viagem, com raízes profundas na tradição celta de que também somos herdeiros, tal como o Fado que, ao que se supõe, nasce no Brasil como dança de escravos (recomendo vários trabalhos do musicólogo brasileiro José Ramos Tinhorão) e tal como o Bolero, de origem magrebina e que é levado para o continente americano e, depois, encaminhado sobre outras formas para os salões de baile europeus.
O próprio Tango, nascido nas duas margens do Rio de La Plata, tem um percurso sinuoso no que respeita à "Tradição". Assim como o Fado, por muitos considerado conservador e reaccionário (é certo que, tal como o Tango, o Fado foi instrumentalizado pelas respectivas ditaduras que tutelavam estes géneros.
Mas o Fado também foi veículo de difusão das ideias republicanas nas ruas de Lisboa pelos cordelistas e "ceguinhos" mendigos - os bloggers da época).
Supõe-se que próprio nome Halloween é uma corruptela da palavra celta que está associada à intitulação do evento.
Acho uma parvoíce e um gasto de tempo e energias, esse debate Halloween versus Pão de Deus, que em nada contribui nem para a Tradição nem para a Modernidade.
Apenas serve para os guardiões do templo da tradição fazerem exercício com a mão (leia-se da maneira que preferirem...) enquanto agitam essa bandeira.
Mas a tradição não cauciona tudo.
Alguns exemplos de tradição: a escravatura, a excisão do clitoris, o apedrejamento de adúlteras, os touros de morte, o circo romano, a queima das bruxas, apenas para citar alguns.
E há, também, no mundo das Tunas e dos Ranchos folclóricos, uma espécie de bíblia não escrita que decide um conjunto de coisas nocivas à evolução formal e social pois situam-se em parâmetros temporais passadistas e circunscritos a determinadas épocas que servem de padrão de argumentação contra todos os argumentos de historiadores e antropólogos.
Não defendo que a Tradição se queime na fogueira como tradicionalmente se queimavam as bruxas.
Defendo que as bruxinhas e bruxinhos possam circular pelas casas desafiando todos os fantasmas de obesidade e isso tudo. Porque, quando tiverem essas histórias para contar aos netos deles, provavelmente esses netos não irão achar piada nenhuma à forma de desfrutar alguns momentos da vida tal como os seus avós os desfrutaram.
Só quem se achar iluminado por alguma divindade pode julgar que as crianças pretendem celebrar uma tradição, movidos por alguma cruzada do género "Olha, bora lá pedir doces que é uma cena bué da tradicional".
As crianças pretendem juntar-se e divertir-se. Antes isso que andarem na droga, que, lamentavelmente, também começa a ser tradição em alguns lugares e lares, sobretudo naqueles em que se rompeu com a parte boa da tradição: a parte em que a família serve de lugar de aconchego e farol identitário para que cada um saiba donde vem para saber em liberdade para onde quer ir, contrastando com uma instituição onde se crescia repreendido ou pela permissividade e pela ausência dos seus agentes.
Nesta altura, como em outras alturas "de Tradição" ou fora dela, os miúdos querem estar juntos e brincar juntos. Não há nada mais desengraçado do que um garoto com pose de adulto, é a negação total da irreverência, da energia criativa, do próprio futuro em crescimento, enfim.
Ou acham que no Natal os miúdos celebram o nascimento de Cristo ou de Brian, aquele que é retratado no filme dos Monty Pytons? Ou acham que um mexicano fica todo contente quando lhe morre um familiar próximo só porque assim já tem mais um motivo para celebrar a tradição da Fiesta de Los Muertos? Não!
Apesar de outras culturas pensarem diferentemente sobre a morte, como é o caso dos africanos e dos latino-americanos, esses mexicanos vão honrar os seus mortos comendo doces e petiscos nas suas campas. Mas é bem verdade que prefeririam fazer isso partilhando esses momentos com eles se eles estivessem vivos.
A Tradição nunca deve servir para justificar nada pois nunca sabemos em que tempo é que os defensores da tradição compartimentam a mesma. No mais antigo que se conhece? Pode ser, aceito... Até porque antes de ser Tradição, já havia uma tradição bem mais antiga: a Tradição de ainda não haver Tradição, naquele tempo em que existiam comunidades igualitárias.
Mas essa Tradição já não serve, pois não? Pois não: iríamos ter que aceitar que a invenção da propriedade, a subjugação da Mulher na repartição social do trabalho, primeiramente enquanto moeda de troca para selar uniões (de terrenos ou manadas...) e depois como escrava, a criação do dinheiro e a compartimentação dos povos em nações para melhor poderem guerrear entre si, adulterou tudo isto a partir do momento em que, com isso, foi inventado o Capitalismo no Crescente Fértil...
É chato, não é? É chato ter que aceitar isso, não é?...
Deixem lá, as Religiões têm os braços grandes para abraçar séculos e séculos de ignomínia.
E até nisso a tradição falha, as religiões não seguem as suas próprias "tradições", as suas géneses: As autoridades eclesiásticas católicas não se revêm nos cristãos primitivos mas sim no ouro ostentado e nas negociatas do Banco do Vaticano, isto enquanto vão sodomizando alguns seminaristas e benzendo actos assassinos contra Povos sofridos; o Islão recorre a Maomé por dá cá aquela palha mas escamoteia que o Profeta combateu a opressão do seu povo enquanto, em seu nome, se cometem atrocidades contra a vida e a dignidade; O judaísmo é aquela coisa que se sabe: tenta, nos dias de hoje, escamotear e branquear o próprio Holocausto (o silêncio é de ouro, expressão que para os sionistas tem um valor acrescentado). Isto para falar apenas destas três religiões do Mediterrâneo.
Preocupem-se em verificar a barbaridade da maior parte dos argumentos agitados que se sintetizam, mais vírgula, menos vírgula, neste: "O Halloween é uma americanice como forma de nos colonizar".
Primeira asneira: o Halloween foi daqui para lá;
Segunda asneira: Já estão a dizer implicitamente "aceitamos que nos colonizem" pelo simples facto de usarem a expressão "americanice" ou "dos americanos" para se referirem aos EUA.
O termo correcto seria "estadunidense" que não existe no léxico Português (de Portugal).
É que, ao aceitarem aquela designação estão a ofender todos os outros Povos Americanos, desde a Patagónia ao Alasca.
As palavras são símbolos sonoros daquilo que queremos dizer.
Subestimar as palavras é negar essa simbologia e retirar-lhes (a elas, as palavras), a carga que foram adquirindo ao longo do tempo, a carga que outras pessoas nelas depositaram.
Não é nenhuma pentelhice mas é o mesmo que dizerem: "Sou ateu, graças a Deus", sem perceberem a contradição que essa expressão encerra.
Deixem os putos em paz e vós, ó tradicionalistas, ide brincar para o pátio das traseiras, façam um concurso a ver quem mija mais longe ou quem tem a pila mais comprida, que também era tradição (dos gajos, pois a Tradição determina que só os machos é que definem os contornos da Tradição. Da Tradição deles e da Tradição delas).

Carlos Clara Gomes

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

bem sei

bem sei
que os dedos de alguns poetas
passam unhas
na pele das palavras por dizer

e que
pelas manhãs desguarnecidas de crueza
um dia
marcharão aves sem dono
pelas avenidas onde hoje
o frio habita dentro de almas já sem pele

haverá
eu sei
centopeias ululantes
e os já estafados unicórnios azuis
em cada escombro por explorar

e dentro de cada gruta
desabitada de luares
os povoadores farão fila
para a colonização da euforia

e para todos
chegará o pão ázimo
que devotos e profanos
em rebuliço partilharão
na sobrepele de cada sonho

e em cada parede devoluta
um grafito 
- pelo menos! -
clamará pelo teu nome
na surdina dos gritos 
esperados no cantochão 
que os humildes há milénios vociferam 
desesperando pela febril justiça 
prometida nos manuais 
já poeirentos apesar

e contudo
na sacrossanta fé no amanhã
uma réstia de denodo
ainda canta

e procria.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

os últimos dias do homem que julgava ser jaime mouraz


lembras-te quando escrevíamos nudezes e barbas de deuses nas nuvens de algodão feitas?
e quando lembrávamos tropelias, jogos e desacatos?
e palavrões aprendidos no fim da rua já finada pelas casas novas ali erguidas?

lembras-te?
 
e lembras-te quando o tempo cruel deixou de brincar connosco no rio onde os sapos coaxavam só para que nós os ouvíssemos?
e quando meninávamos nas árvores fazendo de heróis aviadores e outros artifícios que inventávamos naquelas tardes de sol frio que nos aqueciam a alma?

para onde fomos nós, cirandando mundos, doendo ossos crescendo, esticando carnes meninas?

e o zeca, e o chico, e o coiso, não me lembra agora o nome, para onde foram eles?
o zeca inventou de ser pai, já é avô, o chico de militar, fez tropa na guiné e tudo, até tem uma tatuagem num braço a dizer guiné e o ano da incorporação, dizem que agora é general na reserva embora eu não acredite pois nunca vi generais com tatuagens a dizer guiné, o coiso que não me lembra o nome acho que se faleceu de doença prolongada.

também havia o adelino, era dos lados do sátão, falava com tantos ésses que até dizíamos que era "dos sátão", havia até quem perguntasse se ele foi seminarista...

eram belas aquelas tardes em que fugíamos à escola, em que colhíamos medronhos, em que roubávamos as romãs da dona graciete, bicha má de diaba ruim que era, era casada com aquele marido dela, o maestro da banda do asilo, coitado, dizem que uma vez ela lhe furou um olho com a batuta.
eu acho que eram coisas que se diziam: parece que o homem caiu de chofre sobre um arame farpado
e vazou uma vista, a direita, logo essa, que era aquela com que olhava os segundos clarinetes.
mas poderia muito bem ter sido ela com a batuta, isso era bem possível como estarmos aqui os dois...
coitada dela, definhou-se depois que um camião das obras lhe atropelou uma perna. começou a secar, a secar, a secar e em menos de um fósforo empreendeu viagem de ida para o céu das pessoas más, dizia a leonor (aquela que andou connosco na catequese e que depois foi para freira ou que nunca se casou - uma dessas duas coisas foi. ou as duas, talvez - lembras-te?). dizia a leonor que as pessoas más também têm um céu para os maus.
lembras-te dela? levantavas-lhe a bata que trazia, eras lixado de travesso, vinha sempre para a catequese directa da aula de lavores  e não lhe dava para se mudar.

que será feito da leonor?
e do quim?
o quim! aquele que o pai foi preso pela pide quando estávamos na aula do professor garcia... lembras-te, pois!... não te lembras tu de outra pessoa: aquele a quem levaram o pai para a prisão lá de lisboa, aquele que teve que deixar a escola porque o professor garcia o gozava desde esse incidente...
ah! já te lembras? pois: o quim seguiu as pisadas do pai nisso de ser do reviralho, contou-me o graciano da casa dos enxovais quando o encontrei no velório da conceição, a irmã do antunes.

e o ernesto? e o coelho? e o jorge?
um deu em médico, como o pai, o outro em padre, como o avô...
e o outro, o jorge, foi para a alemanha e nunca mais voltou cá, parece que tem um negócio de relógios. ou um restaurante, nem sei bem...

ah, eram belas aquelas tardes em que não tínhamos que trautear nem o hino nacional, nem as serras de portugal, nem os rios, nem as vias férreas...

lembras-te?

mas sabes?
gostava de voltar lá, a esse tempo, a essas tardes, voltar a ouvir o coaxar dos sapos, a ver passar as avionetas sobre as nossas cabeças ainda com cabelo e sem cãs...
talvez um dia nos juntemos todos, nem que seja para lembrar os esquecidos...

mas acho que já não terá a mesma piada que tinha dantes...

não achas?

eh lá! não durmas agora!...
olha-me este! não me faças isso!
acudam aqui!...

(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes, in "Os Meus e os Dias"

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Rumos


o caminho desenha-se
e os pés encontram
numa fértil utopia semeadeira
trepadeiras de cores alucinantes
cuja textura não tangível
apenas se sente
quando soprada

hordas de peregrinos
extenuadas
repousam à beira da estrada
que a tradição escreveu
como sendo de todas
a melhor delas

e os pés.
famintos de caminho,
seguem seu traçado imaginário
a despeito de mapas
ou bússolas certas:
só a demência
traz a urgente tenacidade.

(c) Carlos Clara Gomes

Foto: Milene Vale