terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

encobrimentos

OUVIR CANÇÃO AQUI:


andámos ao vento, à chuva, 
ao capricho da maré
fustigaram nossos rostos 
com aromas de café
desenterraram as lendas 
que estavam adormecidas
pintaram adamastores 
velas com sangue tecidas

cortaram o mundo ao meio 
como se fosse uma tarte
fizeram negociatas 
enganando a outra parte
prometeram liberdades 
e privilégios diversos
às gentes já condenadas 
por vários crimes dispersos

e nós lá fomos (mandados!)
velejando para longe
chacinando em cada porto
sendo benzidos por monges
e que glória nos coube, 
a nós, ao povo embarcado?
tormentas e bojadores 
e algum ouro apresado

fizeram de nós piratas 
com promessas avultadas
também fomos assassinos 
nesta história rasurada
o saque não nos pertence, 
alguém com ele se cose
para nós ficam as negrinhas 
e mulatas por osmose

então el-rei fez saber 
que fomos predestinados
e, daí, nos conformámos 
(não se contrariam fados!)
o sangue já vai jorrando 
sobre o ferro da conquista
pois matamos toda a gente 
que à nossa cruz resista

fomos nós quem pregou (fomos nós!)
cristos de cores diferentes
e na fogueira queimámos
povos de outros continentes
faz-te ao mar, perde perdão 
pela falta cometida
e não adores a estátua 
do mareante homicida.

(c) Carlos Clara Gomes

austral

(para o João Afonso)

bato passo direito ao piripiri
portugália ou trindade africana
assediado por miúdos com batiques
e pequenos land rovers de arame


luz e chuva revezam-se no ataque
benfazejas, a poeira movimentam
o calor é um amigo do peito
justifica manicas e marrabenta

pelos olhos vão passando capulanas
e lânguidas mulatas dentro delas
enquadradas pelas acácios de maio
por lá vermelhas quando cá são amarelas

vou ao tchova para ouvir os kinamata
(kinamatamikuluti), envolventes
também se ouvem timbila e chipendane
que europas baptizaram diferente

há no mercado toda a sorte de produtos
dédalo de lojas e tendeiros
tempos houve em que nada se vendia
chamavam-lhe, então, o mercado dos cheiros

cai a noite, já vou apanhar o chapa
muito mais tarde, no breu só escuto
o mar indico e tambores do cuíto
mas que formosa a cidade de maputo!...

(c) Carlos Clara Gomes
Foto: A. Moisés

a deriva dos continentes





nasci bem no meio dum empreendimento nómada, mestiço, corsário, cigano...
europeu? mediterrânico? celtibero?
administrativamente chamado portugal, em devido tempo, o lote de terreno onde nasci, foi sendo plataforma de partidas de uns, chegadas de outros.
também dentro deste rectângulo foram feitas avulsas travessias, de alto a baixo, no sentido da sua escassa largura e nas suas diagonais.
a viagem (ou fuga) para outros longínquos esconsos ou por refúgio neste (há quem diga que) hospitaleiro devão tem sido uma constante desde que o primeiro bago da areia do tempo iniciou a sua queda nessa ampulheta que tem medido a vida das gentes desta forma quase geométrica.
desde a terra barrosã às mediterrânicas águas sempre houve gentes partindo, gentes chegando, em turmas ou de per se.
seja por mor de fúrias guerreiras, seja por anseios de entesouramento de digno salário, os de cá – não só os portugueses mas todos os que antes deles aqui pernoitaram – viveram na mira de insatisfeitas rotas, revoltadas agulhas das bússolas da vida.
de tudo fomos: bucaneiros nos oceanos calcorreados; moços de fretes em apartado flancos; guardiões da fé onde outras fés pontificavam; pelejando pela nossa liberdade e pela de outrém; integrando - também - contingentes que usavam combater a liberdade de outros povos e por aí fora, que o rol é vasto.
de tudo vestimos: arnês de cruzados, labita de peregrinos, dólman de coloniais soldados, gibão de voluntários republicanos noutras pátrias...
de tudo comerciámos: ouro, prata, pimenta, seda, mulheres... importámos e exportámos – prática que mantemos ainda – escravos (numa sui generis forma de desenrasque pragmático, adaptando novas grilhetas consoante o toque do tambor das novas galés)...
fomos protagonistas de mestiçagens e povoamentos: celtas, fenícios, gregos, iberos, lusitanos, cartagineses, mouros, godos, romanos, galegos, cabo-verdianos, ucranianos, moldavos, sírios, marroquinos...
impusémos regras e modos de conduta...
aprendemos a vestir calção de caqui em áfricas e índias...
aprendemos a ser arrogantes com os que aqui chegam e nos enriquecem o ser...
aprendemos a ser subservientes com os que aqui chegam e que julgamos que nos enriquecem o ter...
chamámos e chamamos parasitas e putas aos que escolheram este recanto como poiso porque acreditaram que seríamos hospitaleiros e que não lhes chamaríamos nem parasitas nem putas...
abanámos árvores de patacas, de marcos, de francos, de rands, de dólares...
explorámos, vilipendiámos, fomos explorados e vilipendiados...
usamos enaltecer os mortos que nos cantaram em vida...
aliás, essa é uma nossa ínclita vocação:
escrever epitáfios e ir às missas de sétimo dia dos nossos fiéis defuntos, aqueles a quem em vida viramos a cara para o lado no minimercado no dia-a-dia sôfrego e alambazado...
este texto não visa homenagear os “grandes homens” que já habitam os livros de história.
esses, todos os dias são manuseados por funcionários de ministérios e pela agenda de efemérides.
este é um escrito em que se retratam homens e mulheres “comuns”, “banais”, que forneceram aos “grandes homens” o pretexto e a oportunidade para o serem.

  (c) Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Licantropia rápida


E a Menina andava a passear na floresta.
E, nisto, apareceu-lhe o Lobisomem.
E o Lobisomem fez assim, com os olhos muito arregalados:
"Buuuuuuu! Vou-te comeeer!...".
Ao que a Menina retorquiu, curiosa:
"Ó Lobisomem, largas pêlo?"


Carlos Clara Gomes, in "Do Maravilhoso & Outras Cenas"

estrada virgem

 
o passado fica e esboroa-se.
por outro lado,
há muita estrada virgem ainda.

Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Postal ao Zé Boavida

Camarada José Boavida:
Que o teu epitáfio seja o de quem soube partilhar alegrias e felicidades com muitos de nós.
Que se saiba que a Alegria de Viver era o teu princípio activo!
Deste-nos (deste sim!) uma Boa Vida!
Até já, companheiro!

Carlos Clara Gomes

CORTESIA PARA COM AS VISITAS

 

Feed de notícias

CORTESIA PARA COM AS VISITAS | Quando alguém bate à porta, normalmente abro-a (a menos que suspeite que se trata do carteiro trazendo más notícias, daquelas em que é preciso a gente assinar e dar o número do BI).
Fora esses casos, normalmente escancaro a porta. Convido a pessoa a entrar.
Se a pessoa se dignar entrar faço-lhe o reparo de que não ligue pois tenho a casa muito desarrumada. A pessoa deverá corresponder com a cortesia necessária. Algumas dessas pessoas dizem que não me preocupe pois não vieram para arrumar nada. E eu acredito, embora fique algo triste por dentro porque dava mesmo jeito que me ajudassem com os móveis no feng shui e essas coisas.
Eu sorrio e agradeço essa forma gentil e algo silenciosa de me dizerem que se sentem bem da forma como as recebo. Dizem-me em silêncio: "Pois é, devias ter isto em melhor estado mas não te vou dizer isso em voz alta".
É claro que admoesto o Lucas - o cachorro que me adoptou - caso lhe apeteça ladrar às visitas.
Tenho um nu na sala onde recebo as pessoas. A sala está medianamente arrumada. Uma vez, duas Testemunhas de Jeová que me apanharam de humor prazenteiro mantiveram conversa comigo evitando gentil e urbanamente encarar a foto enquanto me tentavam convencer que não há Paz na Terra por haver incréus como eu, enquanto eu tentava demonstrar-lhes que estavam erradas pois o simples facto de estarmos ali a conversar já ilustrava grande Paz.
Reparei que faziam esforços para não fixar a atenção no quadro. Quando se foram embora selámos aquele encontro com um "passou-bem" cordial.
Se não fiz ali duas amigas, pelo menos não fiz duas inimigas. O que já considero muito bom.
Quando vou a casa de alguém procedo da mesma forma: trato de ser eu mesmo, sem opinar que a moldura da Última Ceia não fica bem em tons de dourado ou que o dálmata de loiça fica melhor no jardim a fazer pandan com os anõezinhos e os cogumelos gigantes de plástico. Mas isso sou eu. E nem mesmo eu sei se concordo comigo mesmo ou não...
Se calhar o Presidente do Irão também não se importaria de ver umas mamas ou umas pilas nas estátuas.
Assim como assim, isso não mudará a maneira de pensar de nenhum fundamentalista. Tal como as duas Testemunhas de Jeová que, acredito, saíram de minha casa convencidas que eu era uma alma perdida. E, às tantas, até têm razão... Mas, só por pirraça, não tiro o nu do sítio. Até porque a parede por detrás do quadro tem uma mancha de humidade que fica bem pior.
Uma ressalva ao meu texto: Se um amigo Islâmico ou um amigo Rabino - que os tenho -, me visitarem, terei a cortesia de não os convidar para almoçar se só tiver carne de porco na despensa.
Também não convidei as Testemunhas de Jeová para o almoço pois só tinha lá uma morcela.
E se o Sr. Ismael (o carteiro que normalmente me abastece de correspondência) vier sem as funéreas cartas que mesmo por fora eu adivinho dizerem "Aviso de Corte", recebo-o com água fresca. Oferecer-lhe-ia um copo de tinto.
Mas não bebo...

Carlos Clara Gomes
Escultura de Ricardo Flecha