|
nasci bem no meio dum empreendimento nómada, mestiço, corsário, cigano... europeu? mediterrânico? celtibero? administrativamente chamado portugal, em devido tempo, o lote de terreno onde nasci, foi sendo plataforma de partidas de uns, chegadas de outros. também dentro deste rectângulo foram feitas avulsas travessias, de alto a baixo, no sentido da sua escassa largura e nas suas diagonais. a viagem (ou fuga) para outros longínquos esconsos ou por refúgio neste (há quem diga que) hospitaleiro devão tem sido uma constante desde que o primeiro bago da areia do tempo iniciou a sua queda nessa ampulheta que tem medido a vida das gentes desta forma quase geométrica. desde a terra barrosã às mediterrânicas águas sempre houve gentes partindo, gentes chegando, em turmas ou de per se. seja por mor de fúrias guerreiras, seja por anseios de entesouramento de digno salário, os de cá – não só os portugueses mas todos os que antes deles aqui pernoitaram – viveram na mira de insatisfeitas rotas, revoltadas agulhas das bússolas da vida. de tudo fomos: bucaneiros nos oceanos calcorreados; moços de fretes em apartado flancos; guardiões da fé onde outras fés pontificavam; pelejando pela nossa liberdade e pela de outrém; integrando - também - contingentes que usavam combater a liberdade de outros povos e por aí fora, que o rol é vasto. de tudo vestimos: arnês de cruzados, labita de peregrinos, dólman de coloniais soldados, gibão de voluntários republicanos noutras pátrias... de tudo comerciámos: ouro, prata, pimenta, seda, mulheres... importámos e exportámos – prática que mantemos ainda – escravos (numa sui generis forma de desenrasque pragmático, adaptando novas grilhetas consoante o toque do tambor das novas galés)... fomos protagonistas de mestiçagens e povoamentos: celtas, fenícios, gregos, iberos, lusitanos, cartagineses, mouros, godos, romanos, galegos, cabo-verdianos, ucranianos, moldavos, sírios, marroquinos... impusémos regras e modos de conduta... aprendemos a vestir calção de caqui em áfricas e índias... aprendemos a ser arrogantes com os que aqui chegam e nos enriquecem o ser... aprendemos a ser subservientes com os que aqui chegam e que julgamos que nos enriquecem o ter... chamámos e chamamos parasitas e putas aos que escolheram este recanto como poiso porque acreditaram que seríamos hospitaleiros e que não lhes chamaríamos nem parasitas nem putas... abanámos árvores de patacas, de marcos, de francos, de rands, de dólares... explorámos, vilipendiámos, fomos explorados e vilipendiados... usamos enaltecer os mortos que nos cantaram em vida... aliás, essa é uma nossa ínclita vocação: escrever epitáfios e ir às missas de sétimo dia dos nossos fiéis defuntos, aqueles a quem em vida viramos a cara para o lado no minimercado no dia-a-dia sôfrego e alambazado... este texto não visa homenagear os “grandes homens” que já habitam os livros de história. esses, todos os dias são manuseados por funcionários de ministérios e pela agenda de efemérides. este é um escrito em que se retratam homens e mulheres “comuns”, “banais”, que forneceram aos “grandes homens” o pretexto e a oportunidade para o serem. (c) Carlos Clara Gomes |
Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
a deriva dos continentes
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário