sexta-feira, 25 de março de 2016

selva


acordo
saio da cama
visto-me para sair para o dia
que entra às fatias
pelas frestas da persiana,
furioso como um cobrador ressabiado


deixo o teu lugar, ali,
quente e doce,
na cama
onde algum dia e muitas noites
serás habitante

e saio para a rua
onde poderei ser atropelado
pela vida
ao atravessar alguma passadeira
de forma imprevidente,
distraído que sou.

SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

segunda-feira, 14 de março de 2016

Boa Viagem, Sr. Feliz


Tenho pena de não ter conhecido melhor este homem. Tenho pena de não ter tido a sabedoria de me ter divertido mais com o Nicolau. Porque, neste país de merda dividem-se as pessoas entre as que empatizam com quatro gajos que fazem humor gozando com a "ruralidade" a partir da macrocefalia duma capital infestada por quem faça broches aos vários poderes e, por outro lado, as que empatizam com quem protagoniza a boçalidade instituída num programa de "adivinha lá quanto custa isto..." E há, também, quem tenha receio de rir. Esses são os mais perigosos. Porque se recusam a ser alegres.
Boa Viagem, Sr. Feliz!

Carlos Clara Gomes

terça-feira, 8 de março de 2016

Mátria

Para todas as Mulheres que, mais do que Mulheres, sabem ser Seres Humanos e não sacrários da Maternidade. Para todos os Homens que, mais do que Homens, sabem caminhar ao lado dessas mulheres que sabem caminhar por suas pernas.
Para toda a Humanidade que, mais tarde ou mais cedo, soube que tinha sido parida por vendavais e ciclones.
Neste dia, todos os dias, ocorrem-me várias muitas mulheres, Catarina, Maria da Fonte, Joana d'Arc. E ainda as guerreiras que escreveram poemas nas nossas almas: Clarice, Sophia e tantas, tantas...
E também as minhas cinco filhas.
Para todas e cada uma dessas Mulheres e das outras não citadas e das outras anónimas, uma flor. Vermelha. Porque vermelho é o Amor, a Paixão e a Vida. E também a Revolução.
Ditosa Mátria também que me pariste e por quem me apaixonei nesse incestuoso abraço que as Mátrias sabem gerar em nós.
Às vezes és madrasta. Mas amo-te na mesma, naquela lógica irracional que faz com que os amores sejam inexplicáveis e, por isso mesmo, tão lindos...

Viseu, 8 de Março de 2016
(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

domingo, 6 de março de 2016

cais


Sinto-me cais.
Em mim atracaram já tantos amores, vestidos ou não de filhos e filhas, de companheiras, de camaradas, de amigos e amigas.
Todos, sem excepção, deixaram seus cordames amarrados em mim. E continuam a deixar.
Não me é fácil quando alguém sai de mim para se fazer à água.
Fico vazio durante uns tempos. Muito tempo, às vezes... E esse vazio não se preenche com outro barco pois há sempre o laço dos afectos, uma amarração unipessoal e interpessoal com características identitárias específicas. E cada afecto é um afecto específico, é um afecto dirigido àquela pessoa. Exclusivamente. Irrepetível.
E sou tentado, depois, a avaliar em que medida não fui suficiente cais para as embarcações que em mim atracaram e que de mim levantaram ferro.
Se calhar, não foi nada disso: se calhar as cordas com que estavam amarrados a mim encarregar-se-ão de testemunhar se fui ou não um cais eficaz, se fui ou não um amigo ou um amante ou um companheiro ou um camarada à altura dos que estiveram atracados em mim e que, entretanto, partiram.
Se calhar precisavam de mim para bolinar, para estagiar para novos ventos, como os passaritos que levantam voo depois de terem feito tirocínio no ninho.
E, quando olho para esses pedaços de cordame que ficam marcados - ficam sempre marcados - nos pinos de atracação, leio-os e sorrio.
Sorrio porque me recordo, sem nostalgia e sem saudosismo, que vivi bons momentos, que sorri bons sorrisos, que lutei boas lutas com esses barcos que entretanto de mim partiram. E lembro-me que, também, esses barcos a mim chegaram.
E, apesar de tudo, sinto-me um privilegiado. Porque todos esses amores me ensinaram a refinar o amor: o próximo. Não ao próximo porque sem esse não haveria nenhum dos outros.
O próximo, aquele a seguir a este.
Aquele pelo qual todos estamos apaixonados.
E volto serenamente ao meu ofício de ser cais.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e Os Dias"

sábado, 5 de março de 2016

já te navego


seguro nas mãos
um destino ignoto

talvez um dia
me calhe em sortes
um navio de grande porte
ou até um batel
que me leve daqui
até destinos mágicos
que não sei ainda explicar


talvez um dia,
no cais que tenho sido,
atraque e eu suba a bordo
dando largas à minha corsária vocação
de pirata e bucaneiro

preciso dessa embarcação

preciso-te,
e apesar de ainda te desconhecer
já te navego.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes

sexta-feira, 4 de março de 2016

e agora?


e agora, que faço?

um poema sofrido?
embriago-me?

ou solto na rua os mastins
que trago guardados cá dentro?


que faço, enfim?

diz-me,
diz-me o que hei-de fazer...

já sei:
vou buscar uma cadeira
e sentar-me no quintal
na espera
de algum verbo no gerúndio.

(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os ecos de Eco


Para muitos pode não ter passado dum académico de referência. O que, sendo muito, pode também ser muito pouco.
Para muitos outros pode não ter passado dum romancista, o homem por detrás de O Nome da Rosa, para muitos um CSI-Idade Média, para outros muitos (e também para muitos do grupo anterior) um marco geodésimo para reflexão sobre o geocentrismo.
Para ainda outros, Eco pode não ter passado de mais um importante farol contemporâneo do pensamento.
Filósofo e epistemólogo, Eco vai-se como vão sempre os grandes: no momento em que mais precisamos deles, até parece que fazem de propósito.
Ou, então, parece que esse gigante se imolou por o Impresidente ter agraciado um frade-censor (bem ao estilo do seu Frei Jorge de O Nome da Rosa) adepto do obscurantismo, justamente com a Ordem do Infante, um conterrâneo meu, um visionário, confesso adepto do conhecimento.
Ditosa Pátria minha amada: Vai-te mas é foder com quem arranjas para te representar, ainda que seja no estertor agonizante duma moribundicíe pestilenta e fétida!
Carlos Clara Gomes