segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

há sempre um cabrão dum censor à espreita

Parece que há quem queira que a escola continue sendo a escolinha do fascismo e que mais importa parecer que os nossos jovens são meninos e meninas de coro (sem contudo patrulhar se há algum decoro nas letras das canções dessa coisa chamada Agir que arrasta multidões de adolescentes, apenas para citar este imbecil).
Ou seja: continuamos na hipócrita pátria das aparências.
Nada de novo, até aqui, portanto...
Não precisam de responder à minha pergunta. Mas, já agora:
Estão armados e armadas em tans@s? Da idade dos "meninos" e das "meninas" do 8º ano quant@s de nós não esgalhalhávamos já uma boas pívias?
Cresçam, hipócritas!
E, já agora, criminalizem também o Gil Vicente e todas as Cantigas d'Amigo...
Em cada esquina há um Je Suis Charlie, não é?
Ora ide mas é para o caralhinho que vos foda!
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«Ver o meu romance, "o nosso reino", reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer.
"o nosso reino" é a narrativa de uma criança de oito anos, de profunda candura, que ausculta a figura de deus numa tristeza grande pelos infortúnios da vida. Entre os assuntos que magoam esta criança estão as terríveis palavras que lhe dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre um tio que chega de França. Essas duas passagens, no cômputo do livro inteiro, estão como punhais no peito puro da criança, e quem lê o livro não se choca com as palavras, choca-se com a tristeza e o desamparo de que se fala.
Nos meus livros é-me comum abordar o abandono a que somos votados. Sou, desde sempre, impressionado pela solidão e "o nosso reino" é um retrato de uma solidão espiritual a partir do vulnerável ponto de vista infantil.
Lamento que quem discuta acerca do desconforto de alguns pais, de jovens de 14 anos, com "o nosso reino", pareça ter-se esquivado a ler o livro e a perguntar se o choque provocado vem da sua efectiva leitura ou das duas frases que se autonomizaram sem contexto, parecendo sugerir que a obra é um exercício de perversão.
Não sou professor, fui aluno e tive 13 e 14 anos, como é bom de ver. Não me compete ajuizar da adequação de um livro a uma determinada idade escolar. Mas sei que o escândalo normalmente está na competência, ou falta dela, com que se abordam os assuntos. E sei que ter 13 e 14 anos não é uma deficiência, é um tempo natural de descobertas e de maravilha.
Acho muito bem que os pais que considerem os seus filhos imaturos para lerem determinadas obras os orientem noutras leituras. Como acho muito bem que os pais que reconheçam maturidade aos seus filhos os acompanhem em leituras desafiantes, no sentido de verdadeiramente esperar algo dos jovens que não seja apenas fútil e sempre adiado.
Sou a favor de não se tratar os jovens como estúpidos. Falta-lhes informação, mas a grandeza e a complexidade humanas estão plenamente contidas em alguém de 14 anos de idade. Importa saber se queremos fazer de conta que existem crianças com essa idade ou se preferimos atentar no esplendor do aparecimento de um ser mais pleno, perto de estar inteiro.
Seja como for, o que me compete dizer é que o meu livro não é um torpe discurso. É, muito ao contrário, uma exposição enorme de ternura. Para não o perceber basta não ler.»
Valter Hugo Mãe
*
«a santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. porque a vontade de me manter santo não me assistia da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar.»
in "o nosso reino"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CORTESIA PARA COM AS VISITAS

 
Quando alguém bate à porta, normalmente abro-a (a menos que suspeite que se trata do carteiro trazendo más notícias, daquelas em que é preciso a gente assinar e dar o número do BI).
Fora esses casos, normalmente escancaro a porta. Convido a pessoa a entrar.
Se a pessoa se dignar entrar faço-lhe o reparo de que não ligue pois tenho a casa muito desarrumada. A pessoa deverá corresponder com a cortesia necessária. Algumas dessas pessoas dizem que não me preocupe pois não vieram para arrumar nada. E eu acredito, embora fique algo triste por dentro porque dava mesmo jeito que me ajudassem com os móveis no feng shui e essas coisas.
Eu sorrio e agradeço essa forma gentil e algo silenciosa de me dizerem que se sentem bem da forma como as recebo. Dizem-me em silêncio: "Pois é, devias ter isto em melhor estado mas não te vou dizer isso em voz alta".
É claro que admoesto o Lucas - o cachorro que me adoptou - caso lhe apeteça ladrar às visitas.
Tenho um nu na sala onde recebo as pessoas. A sala está medianamente arrumada. Uma vez, duas Testemunhas de Jeová que me apanharam de humor prazenteiro mantiveram conversa comigo evitando gentil e urbanamente encarar a foto enquanto me tentavam convencer que não há Paz na Terra por haver incréus como eu, enquanto eu tentava demonstrar-lhes que estavam erradas pois o simples facto de estarmos ali a conversar já ilustrava grande Paz.
Reparei que faziam esforços para não fixar a atenção no quadro. Quando se foram embora selámos aquele encontro com um "passou-bem" cordial.
Se não fiz ali duas amigas, pelo menos não fiz duas inimigas. O que já considero muito bom.
Quando vou a casa de alguém procedo da mesma forma: trato de ser eu mesmo, sem opinar que a moldura da Última Ceia não fica bem em tons de dourado ou que o dálmata de loiça fica melhor no jardim a fazer pandan com os anõezinhos e os cogumelos gigantes de plástico. Mas isso sou eu. E nem mesmo eu sei se concordo comigo mesmo ou não...
Se calhar o Presidente do Irão também não se importaria de ver umas mamas ou umas pilas nas estátuas.
Assim como assim, isso não mudará a maneira de pensar de nenhum fundamentalista. Tal como as duas Testemunhas de Jeová que, acredito, saíram de minha casa convencidas que eu era uma alma perdida. E, às tantas, até têm razão... Mas, só por pirraça, não tiro o nu do sítio. Até porque a parede por detrás do quadro tem uma mancha de humidade que fica bem pior.
Uma ressalva ao meu texto: Se um amigo Islâmico ou um amigo Rabino - que os tenho -, me visitarem, terei a cortesia de não os convidar para almoçar se só tiver carne de porco na despensa.
Também não convidei as Testemunhas de Jeová para o almoço pois só tinha lá uma morcela.
E se o Sr. Ismael (o carteiro que normalmente me abastece de correspondência) vier sem as funéreas cartas que mesmo por fora eu adivinho dizerem "Aviso de Corte", recebo-o com água fresca. Oferecer-lhe-ia um copo de tinto.
Mas não bebo...


Carlos Clara Gomes
Escultura de Ricardo Flecha

domingo, 25 de dezembro de 2016

O Sousa dos Fados

Tinha um saco de músicas arrumadas na gaveta que, sempre que podia, me mostrava. Cada uma melhor que a outra.
Ainda não estavam acabadas, dizia sempre ele. Nunca as considerava acabadas, este homem que perseguia graais que nunca ninguém soube quais eram. Nem mesmo ele.
Fazia questão de me dizer que aquilo que me mostrava não era fado. E não era. Era muito mais.
Nunca teve um nome artístico.
Nem precisava: Pois, se era o Sousa! E não havia quem não conhecesse o Sousa.
Por vezes, para esclarecimento de ambiquidades, apodava-se como O Sousa dos Fados.
E, para alguém que passasse perto da rotunda de Viriato, soariam claramente nesta pacatez rural as músicas urbanas das duas margens dum rio que por aqui corre e corre e corre.
Não é o Pavia. É um outro rio caudaloso onde se banharam muitas gentes daqui. É um rio invisível as olhos dos descrentes. Por isso - já vou avisando - não se gastem em buscá-lo se nele não acreditam, nesse rio frondoso.
Duma das margens, vindo do Café Murgeira ou do Café Paris, soam os bandoneons que bailam nas palavras dos tangos contados pelo Professor Pinto; Da outra margem ouviam-se os gemidos da guitarra do Sousa, vindos ali dos lados do falecido Tomix, ao lado do Senhor Paiva que alugava bicicletas por cinco escudos à hora, isto quando ainda esfolávamos joelhos no alcatrão muito antes do Sousa ter sido desmobilizado da tropa.
Quem com o Sousa tocou sabe bem o quão indisciplinado ele era, uma criança grande que vivia dos holofotes manhosos que alimentavam o glamour das casas de fado. Qualquer espaço onde o Sousa entrasse transformava-se numa catedral de fado em segundos.
Generoso e Camarada, Amigo do Amigo como poucos, o Sousa distribuía alegrias pelas mesas circunvizinhas por mais tristes que fossem as letras dos fados que acompanhava.
O Sousa era um socorrista: Era o equivalente ao INEM de muitos fados e de muitos fadistas. Era o Sousa quem salvava a honra de muitos conventos.
Cruzámo-nos há poucos dias num dos Bairros Altos de Viseu, a desertificada Rua Direita.
Falámos das músicas dele e das minhas músicas. Lembro-me que falámos do valor da Amizade.
Já depois de ter escrito isto, editei para fazer constar que o Sousa é provavelmente o único Músico que conheço que nunca fez juízo de valor sobre outros colegas.
E lembro-me (como poderei esquecer?) que me disse nesse nosso último encontro: "Estás aqui dentro, meu Irmão", batendo no peito com aquela sua mão sapuda que sempre foi um denso mistério perceber como semelhante manápula - de unha cuidada, é certo, mas não menos sapuda por isso - conseguia destrezas para fazer chorar os arames da guitarra daquela maneira só dele.
Demos um abraço fraterno quando nos despedimos, um abraço daqueles que se dão quando não sabemos que nos estamos a abraçar pela última vez. Duma despedida para sempre. Porque há sempre alguém a partir, nesta vida cigana.
Não deve ter havido em Viseu músico digno desse nome, de qualquer área estética, que não tivesse contactado com o lado humano do Sousa. Que era, afinal, o mesmo lado que o lado artístico. Porque o Sousa pode não ter sabido ser "artista" mas sempre soube ser Humano. Que é, feitas as contas, a massa com que se faz um verdadeiro Artista.
Estou triste, Sousa. Mas de cada vez que lembro um qualquer episódio teu, associado a umas quantas traquinices tuas, não consigo parar de sorrir, meu Irmão (como tu me chamavas, como tu chamavas a tanta gente pois tantos Irmãos soubeste fazer para além dos muitos que tinhas de sangue...).
Até sempre, Mestre. Devo-te muito.

Carlos Clara Gomes

domingo, 11 de dezembro de 2016

Carta ao Pai Natal


Querido Pai Natal:
Este ano gostava de ter no meu presépio um bacalhau ou um perú.
Só p'ra fazer pandam com a vaca e o burrinho, sei lá...
Se não couberes na chaminé, barrigudo como andas (a tua ausência já se verifica há vários anos, para que conste), mete as postas do bacalhau debaixo da porta ou na fenda da caixa do correio e esquece lá o penoso do glugluglu.

Carlos Clara Gomes

Parabéns Zeca


Mestre, Amigo, Companheiro e Camarada de Armas Semi-Fusas e por isso Semi-Deusas...

Hoje é a tua Festa, pá
Fico contente
Enquanto estás ausente
Guardo um Cravo para ti...


Parabéns, Zeca!
Xi Coração!
do teu Clara a partir dA nossA ACERT
(que hoje foi ao Mundo reveladA - também ela festejando um dos seus números redonditos, pela voz do nosso outro manguelas de estimação, o Zé Rui, que é mulher, essa quarentona sempre gaiteira).
Mas disso, Zeca, de elA ser gaja, já nós sabíamos há q'anos,
Já a apalpámos todinha, em toda a extensão da sua pele e carnes sensíveis...
Nós e a imensidão de seus e suas amantes, promíscua que é...
Bendita promiscuidade, querida ACERT,
Querido Zeca.
Querid@s tod@s.

Tondela e Açores ao mesmo tempo, 9 de Dezembro 2016
Carlos Clara Gomes

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

morte à morte!


Entre uma profunda tristeza e uma impotência enorme, entre discernir perante a barbárie e o aproveitamento xenófobo da barbárie, entre uma sexta-feira 13 sangrenta e outras sextas-feiras 13 igualmente sangrentas da História, entre o incómodo de ir dormir sabendo que terei pesadelos metendo sangue e ferros retorcidos e a revolta de saber que hoje em muitos cantos do mundo inúmeras crianças viverão esta noite pesadelos, acordadas entre sangue e ferros retorcidos, muitas delas perto dos cadáveres de entes queridos... 
Entre os céus e a merda há uns merdas que arrotam hálitos de morte clamando-se guerreiros da fé que envergonham as fés dos justos, dos pequenos, dos humildes, dos vilipendiados.
Morte à morte!!!

Carlos Clara Gomes
Viseu, 14 de Novembro de 2015

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Portugal renascido?

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O dia de hoje será, seguramente, lembrado na História.
Será lembrado como o dia em que a esquerda se uniu para impedir o canibalismo moral e cívico que tem vindo a fazer estrada.
Não vou exagerar dizendo que Portugal renasce hoje.
Mas é um dia em que sinto a fraternidade entre os que se preocupam com o seu semelhante ter um brilho que não tem tido até agora.
Pode ser que até seja só por hoje. Pode ser que já amanhã os serventuários da alta finança, em todas as suas matizes de subserviência, comecem a escrevinhar coisas com o cotovelo, que foi a única forma de escrever que conheceram até hoje. Coitados.
Esses gatafunhos produzidos não sobrevivem ao seu prazo de validade, perecíveis que são: a História tem um caixote do lixo onde costuma arquivar tais faits divers.
A vigilância urge. Urge a vigilância em nós. Em cada um de nós.
Urge agora que cada um de nós, aqueles que hoje rejubilámos, quanto mais não fosse em nome dos nossos queridos mortos que não lograram ver este dia acontecer, dê o exemplo de boa-vontade na reconstrução de um País devastado pelo nepotismo, pela ganância, pela usura, pela corrupção, pela má-vontade, pela mentira, pela arrogância, pela discriminação, pela censura, pela desinformação, pelo roubo, pela eutanásia forçada dos nossos velhos, pela fome dos nossos filhos.
A tarefa não será fácil. Mas contai comigo, amig@s.
Reitero que não ambiciono o poder mas também não lhe faço fretes - a nenhum dos poderes, nem mesmo ao poder da propriedade pois, de meu, só tenho os "meus": aquel@s que eu amo.
E é por el@s e por mim e por tod@s aquel@s que amo sem mesmo termos ainda travado conhecimento, que saúdo este dia.
A tod@s @s eleit@s que hoje souberam cumprir a sua cidadania:
Orgulho-me de vós! Peço-vos que tenhais a sabedoria de saber honrar este orgulho que acabais de dar a tod@s @s que vos elegeram.
E peço-vos isso em nome de los muertos de mi felicidad, parafraseando o Silvio Rodriguez, poeta atento e avisado.






Viseu, 11 de Novembro de 2015, depois de cair a II efémera edição do (des)Governo PAF
Carlos Clara Gomes