Tinha um saco de músicas arrumadas na gaveta que, sempre que podia, me mostrava. Cada uma melhor que a outra.
Ainda não estavam acabadas, dizia sempre ele. Nunca as considerava
acabadas, este homem que perseguia graais que nunca ninguém soube quais
eram. Nem mesmo ele.
Fazia questão de me dizer que aquilo que me mostrava não era fado. E não era. Era muito mais.
Nunca teve um nome artístico.
Nem precisava: Pois, se era o Sousa! E não havia quem não conhecesse o Sousa.
Por vezes, para esclarecimento de ambiquidades, apodava-se como O Sousa dos Fados.
E, para alguém que passasse perto da rotunda de Viriato, soariam
claramente nesta pacatez rural as músicas urbanas das duas margens dum
rio que por aqui corre e corre e corre.
Não é o Pavia. É um outro
rio caudaloso onde se banharam muitas gentes daqui. É um rio invisível
as olhos dos descrentes. Por isso - já vou avisando - não se gastem em
buscá-lo se nele não acreditam, nesse rio frondoso.
Duma das
margens, vindo do Café Murgeira ou do Café Paris, soam os bandoneons que
bailam nas palavras dos tangos contados pelo Professor Pinto; Da outra
margem ouviam-se os gemidos da guitarra do Sousa, vindos ali dos lados
do falecido Tomix, ao lado do Senhor Paiva que alugava bicicletas por
cinco escudos à hora, isto quando ainda esfolávamos joelhos no alcatrão
muito antes do Sousa ter sido desmobilizado da tropa.
Quem com o
Sousa tocou sabe bem o quão indisciplinado ele era, uma criança grande
que vivia dos holofotes manhosos que alimentavam o glamour das casas de
fado. Qualquer espaço onde o Sousa entrasse transformava-se numa
catedral de fado em segundos.
Generoso e Camarada, Amigo do Amigo
como poucos, o Sousa distribuía alegrias pelas mesas circunvizinhas por
mais tristes que fossem as letras dos fados que acompanhava.
O
Sousa era um socorrista: Era o equivalente ao INEM de muitos fados e de
muitos fadistas. Era o Sousa quem salvava a honra de muitos conventos.
Cruzámo-nos há poucos dias num dos Bairros Altos de Viseu, a
desertificada Rua Direita.
Falámos das músicas dele e das minhas
músicas. Lembro-me que falámos do valor da Amizade.
Já depois de ter
escrito isto, editei para fazer constar que o Sousa é provavelmente o
único Músico que conheço que nunca fez juízo de valor sobre outros
colegas.
E lembro-me (como poderei esquecer?) que me disse nesse nosso
último encontro: "Estás aqui dentro, meu Irmão", batendo no peito com
aquela sua mão sapuda que sempre foi um denso mistério perceber como
semelhante manápula - de unha cuidada, é certo, mas não menos sapuda por
isso - conseguia destrezas para fazer chorar os arames da guitarra
daquela maneira só dele.
Demos um abraço fraterno quando nos
despedimos, um abraço daqueles que se dão quando não sabemos que nos
estamos a abraçar pela última vez. Duma despedida para sempre. Porque há
sempre alguém a partir, nesta vida cigana.
Não deve ter havido em
Viseu músico digno desse nome, de qualquer área estética, que não
tivesse contactado com o lado humano do Sousa. Que era, afinal, o mesmo
lado que o lado artístico. Porque o Sousa pode não ter sabido ser
"artista" mas sempre soube ser Humano. Que é, feitas as contas, a massa
com que se faz um verdadeiro Artista.
Estou triste, Sousa. Mas de
cada vez que lembro um qualquer episódio teu, associado a umas quantas
traquinices tuas, não consigo parar de sorrir, meu Irmão (como tu me
chamavas, como tu chamavas a tanta gente pois tantos Irmãos soubeste
fazer para além dos muitos que tinhas de sangue...).
Até sempre, Mestre. Devo-te muito.
Carlos Clara Gomes
Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
domingo, 25 de dezembro de 2016
domingo, 11 de dezembro de 2016
Carta ao Pai Natal
Querido Pai Natal:
Este ano gostava de ter no meu presépio um bacalhau ou um perú.
Só p'ra fazer pandam com a vaca e o burrinho, sei lá...
Se não couberes na chaminé, barrigudo como andas (a tua ausência já se verifica há vários anos, para que conste), mete as postas do bacalhau debaixo da porta ou na fenda da caixa do correio e esquece lá o penoso do glugluglu.
Carlos Clara Gomes
Parabéns Zeca
Mestre, Amigo, Companheiro e Camarada de Armas Semi-Fusas e por isso Semi-Deusas...
Hoje é a tua Festa, pá
Fico contente
Enquanto estás ausente
Guardo um Cravo para ti...
Parabéns, Zeca!
Xi Coração!
do teu Clara a partir dA nossA ACERT
(que hoje foi ao Mundo reveladA - também ela festejando um dos seus números redonditos, pela voz do nosso outro manguelas de estimação, o Zé Rui, que é mulher, essa quarentona sempre gaiteira).
Mas disso, Zeca, de elA ser gaja, já nós sabíamos há q'anos,
Já a apalpámos todinha, em toda a extensão da sua pele e carnes sensíveis...
Nós e a imensidão de seus e suas amantes, promíscua que é...
Bendita promiscuidade, querida ACERT,
Querido Zeca.
Querid@s tod@s.
Tondela e Açores ao mesmo tempo, 9 de Dezembro 2016
Carlos Clara Gomes
Xi Coração!
do teu Clara a partir dA nossA ACERT
(que hoje foi ao Mundo reveladA - também ela festejando um dos seus números redonditos, pela voz do nosso outro manguelas de estimação, o Zé Rui, que é mulher, essa quarentona sempre gaiteira).
Mas disso, Zeca, de elA ser gaja, já nós sabíamos há q'anos,
Já a apalpámos todinha, em toda a extensão da sua pele e carnes sensíveis...
Nós e a imensidão de seus e suas amantes, promíscua que é...
Bendita promiscuidade, querida ACERT,
Querido Zeca.
Querid@s tod@s.
Tondela e Açores ao mesmo tempo, 9 de Dezembro 2016
Carlos Clara Gomes
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
morte à morte!
Entre uma profunda tristeza e uma impotência enorme, entre discernir
perante a barbárie e o aproveitamento xenófobo da barbárie, entre uma
sexta-feira 13 sangrenta e outras sextas-feiras 13 igualmente sangrentas
da História, entre o incómodo de ir dormir sabendo que terei pesadelos
metendo sangue e ferros retorcidos e a revolta de saber que hoje em
muitos cantos do mundo inúmeras crianças viverão esta noite pesadelos,
acordadas entre sangue e ferros retorcidos, muitas delas perto dos
cadáveres de entes queridos...
Entre os céus e a merda há uns merdas que
arrotam hálitos de morte clamando-se guerreiros da fé que envergonham
as fés dos justos, dos pequenos, dos humildes, dos vilipendiados.
Morte à morte!!!
Carlos Clara Gomes
Viseu, 14 de Novembro de 2015
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Portugal renascido?
ver vídeo
O dia de hoje será, seguramente, lembrado na História.
Será lembrado como o dia em que a esquerda se uniu para impedir o canibalismo moral e cívico que tem vindo a fazer estrada.
Não vou exagerar dizendo que Portugal renasce hoje.
Mas é um dia em que sinto a fraternidade entre os que se preocupam com o seu semelhante ter um brilho que não tem tido até agora.
Pode ser que até seja só por hoje. Pode ser que já amanhã os serventuários da alta finança, em todas as suas matizes de subserviência, comecem a escrevinhar coisas com o cotovelo, que foi a única forma de escrever que conheceram até hoje. Coitados.
Esses gatafunhos produzidos não sobrevivem ao seu prazo de validade, perecíveis que são: a História tem um caixote do lixo onde costuma arquivar tais faits divers.
A vigilância urge. Urge a vigilância em nós. Em cada um de nós.
Urge agora que cada um de nós, aqueles que hoje rejubilámos, quanto mais não fosse em nome dos nossos queridos mortos que não lograram ver este dia acontecer, dê o exemplo de boa-vontade na reconstrução de um País devastado pelo nepotismo, pela ganância, pela usura, pela corrupção, pela má-vontade, pela mentira, pela arrogância, pela discriminação, pela censura, pela desinformação, pelo roubo, pela eutanásia forçada dos nossos velhos, pela fome dos nossos filhos.
A tarefa não será fácil. Mas contai comigo, amig@s.
Reitero que não ambiciono o poder mas também não lhe faço fretes - a nenhum dos poderes, nem mesmo ao poder da propriedade pois, de meu, só tenho os "meus": aquel@s que eu amo.
E é por el@s e por mim e por tod@s aquel@s que amo sem mesmo termos ainda travado conhecimento, que saúdo este dia.
A tod@s @s eleit@s que hoje souberam cumprir a sua cidadania:
Orgulho-me de vós! Peço-vos que tenhais a sabedoria de saber honrar este orgulho que acabais de dar a tod@s @s que vos elegeram.
E peço-vos isso em nome de los muertos de mi felicidad, parafraseando o Silvio Rodriguez, poeta atento e avisado.
Viseu, 11 de Novembro de 2015, depois de cair a II efémera edição do (des)Governo PAF
Carlos Clara Gomes
O dia de hoje será, seguramente, lembrado na História.
Será lembrado como o dia em que a esquerda se uniu para impedir o canibalismo moral e cívico que tem vindo a fazer estrada.
Não vou exagerar dizendo que Portugal renasce hoje.
Mas é um dia em que sinto a fraternidade entre os que se preocupam com o seu semelhante ter um brilho que não tem tido até agora.
Pode ser que até seja só por hoje. Pode ser que já amanhã os serventuários da alta finança, em todas as suas matizes de subserviência, comecem a escrevinhar coisas com o cotovelo, que foi a única forma de escrever que conheceram até hoje. Coitados.
Esses gatafunhos produzidos não sobrevivem ao seu prazo de validade, perecíveis que são: a História tem um caixote do lixo onde costuma arquivar tais faits divers.
A vigilância urge. Urge a vigilância em nós. Em cada um de nós.
Urge agora que cada um de nós, aqueles que hoje rejubilámos, quanto mais não fosse em nome dos nossos queridos mortos que não lograram ver este dia acontecer, dê o exemplo de boa-vontade na reconstrução de um País devastado pelo nepotismo, pela ganância, pela usura, pela corrupção, pela má-vontade, pela mentira, pela arrogância, pela discriminação, pela censura, pela desinformação, pelo roubo, pela eutanásia forçada dos nossos velhos, pela fome dos nossos filhos.
A tarefa não será fácil. Mas contai comigo, amig@s.
Reitero que não ambiciono o poder mas também não lhe faço fretes - a nenhum dos poderes, nem mesmo ao poder da propriedade pois, de meu, só tenho os "meus": aquel@s que eu amo.
E é por el@s e por mim e por tod@s aquel@s que amo sem mesmo termos ainda travado conhecimento, que saúdo este dia.
A tod@s @s eleit@s que hoje souberam cumprir a sua cidadania:
Orgulho-me de vós! Peço-vos que tenhais a sabedoria de saber honrar este orgulho que acabais de dar a tod@s @s que vos elegeram.
E peço-vos isso em nome de los muertos de mi felicidad, parafraseando o Silvio Rodriguez, poeta atento e avisado.
Viseu, 11 de Novembro de 2015, depois de cair a II efémera edição do (des)Governo PAF
Carlos Clara Gomes
terça-feira, 1 de novembro de 2016
HALLOWE'EN
Para lá de toda a dinâmica consumista que lhe está associada, o Halloween é uma celebração de Torna-viagem, com raízes profundas na tradição celta de que também somos herdeiros, tal como o Fado que, ao que se supõe, nasce no Brasil como dança de escravos (recomendo vários trabalhos do musicólogo brasileiro José Ramos Tinhorão) e tal como o Bolero, de origem magrebina e que é levado para o continente americano e, depois, encaminhado sobre outras formas para os salões de baile europeus.
O próprio Tango, nascido nas duas margens do Rio de La Plata, tem um percurso sinuoso no que respeita à "Tradição". Assim como o Fado, por muitos considerado conservador e reaccionário (é certo que, tal como o Tango, o Fado foi instrumentalizado pelas respectivas ditaduras que tutelavam estes géneros.
Mas o Fado também foi veículo de difusão das ideias republicanas nas ruas de Lisboa pelos cordelistas e "ceguinhos" mendigos - os bloggers da época).
Supõe-se que próprio nome Halloween é uma corruptela da palavra celta que está associada à intitulação do evento.
Acho uma parvoíce e um gasto de tempo e energias, esse debate Halloween versus Pão de Deus, que em nada contribui nem para a Tradição nem para a Modernidade.
Apenas serve para os guardiões do templo da tradição fazerem exercício com a mão (leia-se da maneira que preferirem...) enquanto agitam essa bandeira.
Mas a tradição não cauciona tudo.
Alguns exemplos de tradição: a escravatura, a excisão do clitoris, o apedrejamento de adúlteras, os touros de morte, o circo romano, a queima das bruxas, apenas para citar alguns.
E há, também, no mundo das Tunas e dos Ranchos folclóricos, uma espécie de bíblia não escrita que decide um conjunto de coisas nocivas à evolução formal e social pois situam-se em parâmetros temporais passadistas e circunscritos a determinadas épocas que servem de padrão de argumentação contra todos os argumentos de historiadores e antropólogos.
Não defendo que a Tradição se queime na fogueira como tradicionalmente se queimavam as bruxas.
Defendo que as bruxinhas e bruxinhos possam circular pelas casas desafiando todos os fantasmas de obesidade e isso tudo. Porque, quando tiverem essas histórias para contar aos netos deles, provavelmente esses netos não irão achar piada nenhuma à forma de desfrutar alguns momentos da vida tal como os seus avós os desfrutaram.
Só quem se achar iluminado por alguma divindade pode julgar que as crianças pretendem celebrar uma tradição, movidos por alguma cruzada do género "Olha, bora lá pedir doces que é uma cena bué da tradicional".
As crianças pretendem juntar-se e divertir-se. Antes isso que andarem na droga, que, lamentavelmente, também começa a ser tradição em alguns lugares e lares, sobretudo naqueles em que se rompeu com a parte boa da tradição: a parte em que a família serve de lugar de aconchego e farol identitário para que cada um saiba donde vem para saber em liberdade para onde quer ir, contrastando com uma instituição onde se crescia repreendido ou pela permissividade e pela ausência dos seus agentes.
Nesta altura, como em outras alturas "de Tradição" ou fora dela, os miúdos querem estar juntos e brincar juntos. Não há nada mais desengraçado do que um garoto com pose de adulto, é a negação total da irreverência, da energia criativa, do próprio futuro em crescimento, enfim.
Ou acham que no Natal os miúdos celebram o nascimento de Cristo ou de Brian, aquele que é retratado no filme dos Monty Pytons? Ou acham que um mexicano fica todo contente quando lhe morre um familiar próximo só porque assim já tem mais um motivo para celebrar a tradição da Fiesta de Los Muertos? Não!
Apesar de outras culturas pensarem diferentemente sobre a morte, como é o caso dos africanos e dos latino-americanos, esses mexicanos vão honrar os seus mortos comendo doces e petiscos nas suas campas. Mas é bem verdade que prefeririam fazer isso partilhando esses momentos com eles se eles estivessem vivos.
A Tradição nunca deve servir para justificar nada pois nunca sabemos em que tempo é que os defensores da tradição compartimentam a mesma. No mais antigo que se conhece? Pode ser, aceito... Até porque antes de ser Tradição, já havia uma tradição bem mais antiga: a Tradição de ainda não haver Tradição, naquele tempo em que existiam comunidades igualitárias.
Mas essa Tradição já não serve, pois não? Pois não: iríamos ter que aceitar que a invenção da propriedade, a subjugação da Mulher na repartição social do trabalho, primeiramente enquanto moeda de troca para selar uniões (de terrenos ou manadas...) e depois como escrava, a criação do dinheiro e a compartimentação dos povos em nações para melhor poderem guerrear entre si, adulterou tudo isto a partir do momento em que, com isso, foi inventado o Capitalismo no Crescente Fértil...
É chato, não é? É chato ter que aceitar isso, não é?...
Deixem lá, as Religiões têm os braços grandes para abraçar séculos e séculos de ignomínia.
E até nisso a tradição falha, as religiões não seguem as suas próprias "tradições", as suas géneses: As autoridades eclesiásticas católicas não se revêm nos cristãos primitivos mas sim no ouro ostentado e nas negociatas do Banco do Vaticano, isto enquanto vão sodomizando alguns seminaristas e benzendo actos assassinos contra Povos sofridos; o Islão recorre a Maomé por dá cá aquela palha mas escamoteia que o Profeta combateu a opressão do seu povo enquanto, em seu nome, se cometem atrocidades contra a vida e a dignidade; O judaísmo é aquela coisa que se sabe: tenta, nos dias de hoje, escamotear e branquear o próprio Holocausto (o silêncio é de ouro, expressão que para os sionistas tem um valor acrescentado). Isto para falar apenas destas três religiões do Mediterrâneo.
Preocupem-se em verificar a barbaridade da maior parte dos argumentos agitados que se sintetizam, mais vírgula, menos vírgula, neste: "O Halloween é uma americanice como forma de nos colonizar".
Primeira asneira: o Halloween foi daqui para lá;
Segunda asneira: Já estão a dizer implicitamente "aceitamos que nos colonizem" pelo simples facto de usarem a expressão "americanice" ou "dos americanos" para se referirem aos EUA.
O termo correcto seria "estadunidense" que não existe no léxico Português (de Portugal).
É que, ao aceitarem aquela designação estão a ofender todos os outros Povos Americanos, desde a Patagónia ao Alasca.
As palavras são símbolos sonoros daquilo que queremos dizer.
Subestimar as palavras é negar essa simbologia e retirar-lhes (a elas, as palavras), a carga que foram adquirindo ao longo do tempo, a carga que outras pessoas nelas depositaram.
Não é nenhuma pentelhice mas é o mesmo que dizerem: "Sou ateu, graças a Deus", sem perceberem a contradição que essa expressão encerra.
Deixem os putos em paz e vós, ó tradicionalistas, ide brincar para o pátio das traseiras, façam um concurso a ver quem mija mais longe ou quem tem a pila mais comprida, que também era tradição (dos gajos, pois a Tradição determina que só os machos é que definem os contornos da Tradição. Da Tradição deles e da Tradição delas).
Carlos Clara Gomes
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
bem sei
bem sei
que os dedos de alguns poetas
passam unhas
na pele das palavras por dizer
e que
pelas manhãs desguarnecidas de crueza
um dia
marcharão aves sem dono
pelas avenidas onde hoje
o frio habita dentro de almas já sem pele
haverá
eu sei
centopeias ululantes
e os já estafados unicórnios azuis
em cada escombro por explorar
e dentro de cada gruta
desabitada de luares
os povoadores farão fila
para a colonização da euforia
e para todos
chegará o pão ázimo
que devotos e profanos
em rebuliço partilharão
na sobrepele de cada sonho
e em cada parede devoluta
um grafito
- pelo menos! -
- pelo menos! -
clamará pelo teu nome
na surdina dos gritos
esperados no cantochão
que os humildes há milénios vociferam
desesperando pela febril justiça
prometida nos manuais
já poeirentos apesar
esperados no cantochão
que os humildes há milénios vociferam
desesperando pela febril justiça
prometida nos manuais
já poeirentos apesar
e contudo
na sacrossanta fé no amanhã
uma réstia de denodo
ainda canta
e procria.
SPA2016 Carlos Clara Gomes
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