quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

américas



foste arrumado no fundo
braço dado com a farinha
de paquetes carcomidos
à boleia clandestina
fica o orvalho pela beira
vais pra países sem chuva
mas apesar de estares vivo
fica tua esposa viúva

buscas governar fazenda
em buenos aires, no rio
levas no peito angústia
no fato o bolso vazio
desta lusa epopeia
que vives desde menino
mais não és que um enteado
de quem te pinta o destino


pela ingrata pátria mãe
terçaste armas nos quartéis
inspirado em anedotas
de padres contra infiéis
és cozido à portuguesa
és gentio, és judeu
tanto tempero levaste
"mas afinal quem sou eu?"

e de todo esse caldo
corre por ti sangue negro
celtibero e fenício
romano, godo e grego
sonhas um dia voltar
para quem te sente a falta
e enquanto não chega a hora
vais fabricando mulatas.

(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"



estrela do boieiro



nesta noite de aventura
quando o sol se fez em lua
no carro do passador
aos solavancos de medo
sonhas, pastor, com os astros
com a estrela do boieiro
(és dono do mundo inteiro?)

marujo de terra firme
peregrino de esperanças
na demanda de bonanças
ao pisar o chão de frança
não passas, pastor, de mais
um ausente dos jornais
quando tu mesmo és notícia

ai, pastor
pergunta aos outros que lá vivem, pastor
se por lá serás feliz
escravo em terra livre
construindo a cidade
àqueles que, cedo ou tarde,
sem dó te expulsarão


na berma desta aventura
cavas tua sepultura
nesta noite estrelada
saltaricando fronteiras
és contrabando, pastor
és herói, és degredado
entre a boroa e os enchidos 

pastor, tu hoje é gado
(redimes algum pecado?)
pagas pena por nascer
numa terra sem viver
onde os olhos fazem sal
e as mulheres na quaresma
anseiam pelo natal

ai, pastor
pergunta lá no bidonville, pastor
se as noites que há por lá
são iguais àquelas outras
(as que tinhas no teu céu)
entre um caldo de cebola
e a tua língua-mãe. 

(c) Carlos Clara Gomes

rive gauche




pela estrada acima vou sonhando
sonho lindo,  clareando
novo dia, alvorada
na margem do sena eu cá estou,
entre sartre e rimbaud conjuro revoluções

cá estou eu, paris, na rive gauche
contando que não afrouxe
meu fervor de combatente
penso num país a revolver
com a fé no reviralho
(quem sabe se voltarei?)

meu amor faltas-me tanto
deram-me aqui um quebranto
nem sei se te esquecerei
pátria madrasta
és madrinha da saudade
e és vizinha do que me falta fazer

vim talvez a salto, sobressalto
sem registo ou passaporte, vivo preso à utopia...
vim fugido à guerra e à bota
aterrar no torvelinho
aqui cumpro minha tropa

vivo numa terra efervescente
a semente da revolta germinando cá por dentro
sou por circunstância um exilado
trago comigo este fado de viver longe de ti

meu amor estou tão distante
da tua face brilhante
nem sei se te esquecerei
pátria ingrata tu desgraças
quem te ama e és talvez
uma irrequieta dama

quem de ti traz novidades
é arauto de verdades
que às vezes custam ouvir
terra dos meus sonhos
tão formosa és também tão enganosa
e perdes quem te adora.

(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

à deriva nos continentes




viajantes, proxenetas
embarcadiços, poetas,
ornamentos da história
em caixas de papelão,
heróis, doutores de leis
trovadores e segréis
mareantes de passagem
em rota de colisão

constam desta marinhagem
fugas em frente (viagens)
várias terras prometidas
estamos, senhores, perante
malta de faca nos dentes
à deriva nos continentes

em malaca desembarcam
e na gare de austerlitz
ou no porto de luanda
da barriga dum navio
saem pobres em caracas
no sião buscam patacas
alguns por glória de deus
a fortuna é a demanda

limpa a faca, esconde o sangue
do gume desta diáspora
desta terra prometida
que povo é este, senhores?
gente de faca nos dentes
à deriva nos continentes


há quem diga e assegure
que o fenómeno em apreço
é exclusivo das placas
que se movem no oceano
assim teriam os povos
(dos atlantes de outrora
só ficaram os açores)
ido abaixo pelo cano

outros há que, peregrinos,
fazem à história meninos
várias terras prometidas
senhores, são portugueses
povo de faca nos dentes
à deriva nos continentes

no japão compram cidades
vendem armas aos gentios
alugam a fé de cristo
trazem no peito uma cruz
em nome desse crachá
deitam fogo aos muçulmanos
e a alguns cristãos-novos
e aos judeus, por jesus

sopra o cano do fuzil
se mataste mais de mil
com ele escreves a história
mas esta pátria, caríssimos,
é, afinal, dos autores
da deriva dos continentes!
à deriva nos continentes

(c) Carlos Clara Gomes

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

galiza en alfama



viñeches dos mares de vigo 
montar unha tasca en lisboa 
es señor dunha quimera 
es un galego no mundo 
tal vez soñes con sereas 
ás portas da capital 
conquistador de amenas 
es capitán xeneral 

das ondas do mar de vigo 
un barco traes miudiño 
cantas esperanzas ficaran 
daquela ás portas de porriño 
hai por aquí máis galegos 
coma ti van galegando 
nesta terra prometida 
ao soño se aconchegando 

vas ser o rei das tapas 
traes alma de poeta 
paxariños na gaiola 
xa trazaches túa meta 
de pandeiradas e xotas 
lonxe fica a moraría 
na maleta as lembranzas 
de gaivotas da galiza 

andas nas mareas do mundo 
es mariñeiro descalzo 
es prisioneiro dos soños 
neste barco apresado 
traes contigo a pregunta 
(coma ela es carne e uña) 
por que será que a lisboa 
non te chega a coruña?

(c) Carlos Clara Gomes
tradução para Galego: Carlos Santiago