viajantes, proxenetas
embarcadiços, poetas,
ornamentos da história
em caixas de papelão,
heróis, doutores de leis
trovadores e segréis
mareantes de passagem
em rota de colisão
constam desta marinhagem
fugas em frente (viagens)
várias terras prometidas
estamos, senhores, perante
malta de faca nos dentes
à deriva nos continentes
em malaca desembarcam
e na gare de austerlitz
ou no porto de luanda
da barriga dum navio
saem pobres em caracas
no sião buscam patacas
alguns por glória de deus
a fortuna é a demanda
limpa a faca, esconde o sangue
do gume desta diáspora
desta terra prometida
que povo é este, senhores?
gente de faca nos dentes
à deriva nos continentes
há quem diga e assegure
que o fenómeno em apreço
é exclusivo das placas
que se movem no oceano
assim teriam os povos
(dos atlantes de outrora
só ficaram os açores)
ido abaixo pelo cano
outros há que, peregrinos,
fazem à história meninos
várias terras prometidas
senhores, são portugueses
povo de faca nos dentes
à deriva nos continentes
no japão compram cidades
vendem armas aos gentios
alugam a fé de cristo
trazem no peito uma cruz
em nome desse crachá
deitam fogo aos muçulmanos
e a alguns cristãos-novos
e aos judeus, por jesus
sopra o cano do fuzil
se mataste mais de mil
com ele escreves a história
mas esta pátria, caríssimos,
é, afinal, dos autores
da deriva dos continentes!
à deriva nos continentes
(c) Carlos Clara Gomes

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