quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

estrela do boieiro



nesta noite de aventura
quando o sol se fez em lua
no carro do passador
aos solavancos de medo
sonhas, pastor, com os astros
com a estrela do boieiro
(és dono do mundo inteiro?)

marujo de terra firme
peregrino de esperanças
na demanda de bonanças
ao pisar o chão de frança
não passas, pastor, de mais
um ausente dos jornais
quando tu mesmo és notícia

ai, pastor
pergunta aos outros que lá vivem, pastor
se por lá serás feliz
escravo em terra livre
construindo a cidade
àqueles que, cedo ou tarde,
sem dó te expulsarão


na berma desta aventura
cavas tua sepultura
nesta noite estrelada
saltaricando fronteiras
és contrabando, pastor
és herói, és degredado
entre a boroa e os enchidos 

pastor, tu hoje é gado
(redimes algum pecado?)
pagas pena por nascer
numa terra sem viver
onde os olhos fazem sal
e as mulheres na quaresma
anseiam pelo natal

ai, pastor
pergunta lá no bidonville, pastor
se as noites que há por lá
são iguais àquelas outras
(as que tinhas no teu céu)
entre um caldo de cebola
e a tua língua-mãe. 

(c) Carlos Clara Gomes

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