quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

rive gauche




pela estrada acima vou sonhando
sonho lindo,  clareando
novo dia, alvorada
na margem do sena eu cá estou,
entre sartre e rimbaud conjuro revoluções

cá estou eu, paris, na rive gauche
contando que não afrouxe
meu fervor de combatente
penso num país a revolver
com a fé no reviralho
(quem sabe se voltarei?)

meu amor faltas-me tanto
deram-me aqui um quebranto
nem sei se te esquecerei
pátria madrasta
és madrinha da saudade
e és vizinha do que me falta fazer

vim talvez a salto, sobressalto
sem registo ou passaporte, vivo preso à utopia...
vim fugido à guerra e à bota
aterrar no torvelinho
aqui cumpro minha tropa

vivo numa terra efervescente
a semente da revolta germinando cá por dentro
sou por circunstância um exilado
trago comigo este fado de viver longe de ti

meu amor estou tão distante
da tua face brilhante
nem sei se te esquecerei
pátria ingrata tu desgraças
quem te ama e és talvez
uma irrequieta dama

quem de ti traz novidades
é arauto de verdades
que às vezes custam ouvir
terra dos meus sonhos
tão formosa és também tão enganosa
e perdes quem te adora.

(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

à deriva nos continentes




viajantes, proxenetas
embarcadiços, poetas,
ornamentos da história
em caixas de papelão,
heróis, doutores de leis
trovadores e segréis
mareantes de passagem
em rota de colisão

constam desta marinhagem
fugas em frente (viagens)
várias terras prometidas
estamos, senhores, perante
malta de faca nos dentes
à deriva nos continentes

em malaca desembarcam
e na gare de austerlitz
ou no porto de luanda
da barriga dum navio
saem pobres em caracas
no sião buscam patacas
alguns por glória de deus
a fortuna é a demanda

limpa a faca, esconde o sangue
do gume desta diáspora
desta terra prometida
que povo é este, senhores?
gente de faca nos dentes
à deriva nos continentes


há quem diga e assegure
que o fenómeno em apreço
é exclusivo das placas
que se movem no oceano
assim teriam os povos
(dos atlantes de outrora
só ficaram os açores)
ido abaixo pelo cano

outros há que, peregrinos,
fazem à história meninos
várias terras prometidas
senhores, são portugueses
povo de faca nos dentes
à deriva nos continentes

no japão compram cidades
vendem armas aos gentios
alugam a fé de cristo
trazem no peito uma cruz
em nome desse crachá
deitam fogo aos muçulmanos
e a alguns cristãos-novos
e aos judeus, por jesus

sopra o cano do fuzil
se mataste mais de mil
com ele escreves a história
mas esta pátria, caríssimos,
é, afinal, dos autores
da deriva dos continentes!
à deriva nos continentes

(c) Carlos Clara Gomes

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

galiza en alfama



viñeches dos mares de vigo 
montar unha tasca en lisboa 
es señor dunha quimera 
es un galego no mundo 
tal vez soñes con sereas 
ás portas da capital 
conquistador de amenas 
es capitán xeneral 

das ondas do mar de vigo 
un barco traes miudiño 
cantas esperanzas ficaran 
daquela ás portas de porriño 
hai por aquí máis galegos 
coma ti van galegando 
nesta terra prometida 
ao soño se aconchegando 

vas ser o rei das tapas 
traes alma de poeta 
paxariños na gaiola 
xa trazaches túa meta 
de pandeiradas e xotas 
lonxe fica a moraría 
na maleta as lembranzas 
de gaivotas da galiza 

andas nas mareas do mundo 
es mariñeiro descalzo 
es prisioneiro dos soños 
neste barco apresado 
traes contigo a pregunta 
(coma ela es carne e uña) 
por que será que a lisboa 
non te chega a coruña?

(c) Carlos Clara Gomes
tradução para Galego: Carlos Santiago

encobrimentos

OUVIR CANÇÃO AQUI:


andámos ao vento, à chuva, 
ao capricho da maré
fustigaram nossos rostos 
com aromas de café
desenterraram as lendas 
que estavam adormecidas
pintaram adamastores 
velas com sangue tecidas

cortaram o mundo ao meio 
como se fosse uma tarte
fizeram negociatas 
enganando a outra parte
prometeram liberdades 
e privilégios diversos
às gentes já condenadas 
por vários crimes dispersos

e nós lá fomos (mandados!)
velejando para longe
chacinando em cada porto
sendo benzidos por monges
e que glória nos coube, 
a nós, ao povo embarcado?
tormentas e bojadores 
e algum ouro apresado

fizeram de nós piratas 
com promessas avultadas
também fomos assassinos 
nesta história rasurada
o saque não nos pertence, 
alguém com ele se cose
para nós ficam as negrinhas 
e mulatas por osmose

então el-rei fez saber 
que fomos predestinados
e, daí, nos conformámos 
(não se contrariam fados!)
o sangue já vai jorrando 
sobre o ferro da conquista
pois matamos toda a gente 
que à nossa cruz resista

fomos nós quem pregou (fomos nós!)
cristos de cores diferentes
e na fogueira queimámos
povos de outros continentes
faz-te ao mar, perde perdão 
pela falta cometida
e não adores a estátua 
do mareante homicida.

(c) Carlos Clara Gomes

austral

(para o João Afonso)

bato passo direito ao piripiri
portugália ou trindade africana
assediado por miúdos com batiques
e pequenos land rovers de arame


luz e chuva revezam-se no ataque
benfazejas, a poeira movimentam
o calor é um amigo do peito
justifica manicas e marrabenta

pelos olhos vão passando capulanas
e lânguidas mulatas dentro delas
enquadradas pelas acácios de maio
por lá vermelhas quando cá são amarelas

vou ao tchova para ouvir os kinamata
(kinamatamikuluti), envolventes
também se ouvem timbila e chipendane
que europas baptizaram diferente

há no mercado toda a sorte de produtos
dédalo de lojas e tendeiros
tempos houve em que nada se vendia
chamavam-lhe, então, o mercado dos cheiros

cai a noite, já vou apanhar o chapa
muito mais tarde, no breu só escuto
o mar indico e tambores do cuíto
mas que formosa a cidade de maputo!...

(c) Carlos Clara Gomes
Foto: A. Moisés

a deriva dos continentes





nasci bem no meio dum empreendimento nómada, mestiço, corsário, cigano...
europeu? mediterrânico? celtibero?
administrativamente chamado portugal, em devido tempo, o lote de terreno onde nasci, foi sendo plataforma de partidas de uns, chegadas de outros.
também dentro deste rectângulo foram feitas avulsas travessias, de alto a baixo, no sentido da sua escassa largura e nas suas diagonais.
a viagem (ou fuga) para outros longínquos esconsos ou por refúgio neste (há quem diga que) hospitaleiro devão tem sido uma constante desde que o primeiro bago da areia do tempo iniciou a sua queda nessa ampulheta que tem medido a vida das gentes desta forma quase geométrica.
desde a terra barrosã às mediterrânicas águas sempre houve gentes partindo, gentes chegando, em turmas ou de per se.
seja por mor de fúrias guerreiras, seja por anseios de entesouramento de digno salário, os de cá – não só os portugueses mas todos os que antes deles aqui pernoitaram – viveram na mira de insatisfeitas rotas, revoltadas agulhas das bússolas da vida.
de tudo fomos: bucaneiros nos oceanos calcorreados; moços de fretes em apartado flancos; guardiões da fé onde outras fés pontificavam; pelejando pela nossa liberdade e pela de outrém; integrando - também - contingentes que usavam combater a liberdade de outros povos e por aí fora, que o rol é vasto.
de tudo vestimos: arnês de cruzados, labita de peregrinos, dólman de coloniais soldados, gibão de voluntários republicanos noutras pátrias...
de tudo comerciámos: ouro, prata, pimenta, seda, mulheres... importámos e exportámos – prática que mantemos ainda – escravos (numa sui generis forma de desenrasque pragmático, adaptando novas grilhetas consoante o toque do tambor das novas galés)...
fomos protagonistas de mestiçagens e povoamentos: celtas, fenícios, gregos, iberos, lusitanos, cartagineses, mouros, godos, romanos, galegos, cabo-verdianos, ucranianos, moldavos, sírios, marroquinos...
impusémos regras e modos de conduta...
aprendemos a vestir calção de caqui em áfricas e índias...
aprendemos a ser arrogantes com os que aqui chegam e nos enriquecem o ser...
aprendemos a ser subservientes com os que aqui chegam e que julgamos que nos enriquecem o ter...
chamámos e chamamos parasitas e putas aos que escolheram este recanto como poiso porque acreditaram que seríamos hospitaleiros e que não lhes chamaríamos nem parasitas nem putas...
abanámos árvores de patacas, de marcos, de francos, de rands, de dólares...
explorámos, vilipendiámos, fomos explorados e vilipendiados...
usamos enaltecer os mortos que nos cantaram em vida...
aliás, essa é uma nossa ínclita vocação:
escrever epitáfios e ir às missas de sétimo dia dos nossos fiéis defuntos, aqueles a quem em vida viramos a cara para o lado no minimercado no dia-a-dia sôfrego e alambazado...
este texto não visa homenagear os “grandes homens” que já habitam os livros de história.
esses, todos os dias são manuseados por funcionários de ministérios e pela agenda de efemérides.
este é um escrito em que se retratam homens e mulheres “comuns”, “banais”, que forneceram aos “grandes homens” o pretexto e a oportunidade para o serem.

  (c) Carlos Clara Gomes