Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Os ecos de Eco
Para muitos pode não ter passado dum académico de referência. O que, sendo muito, pode também ser muito pouco.
Para muitos outros pode não ter passado dum romancista, o homem por detrás de O Nome da Rosa, para muitos um CSI-Idade Média, para outros muitos (e também para muitos do grupo anterior) um marco geodésimo para reflexão sobre o geocentrismo.
Para ainda outros, Eco pode não ter passado de mais um importante farol contemporâneo do pensamento.
Filósofo e epistemólogo, Eco vai-se como vão sempre os grandes: no momento em que mais precisamos deles, até parece que fazem de propósito.
Ou, então, parece que esse gigante se imolou por o Impresidente ter agraciado um frade-censor (bem ao estilo do seu Frei Jorge de O Nome da Rosa) adepto do obscurantismo, justamente com a Ordem do Infante, um conterrâneo meu, um visionário, confesso adepto do conhecimento.
Ditosa Pátria minha amada: Vai-te mas é foder com quem arranjas para te representar, ainda que seja no estertor agonizante duma moribundicíe pestilenta e fétida!
Carlos Clara Gomes
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
carinho guerreiro
Não nego que, muitas vezes, o desencanto me assalta...
Há momentos em que apetece pousar a espada.
E pouso-a, às vezes...
Encosto-a à parede mais próxima. Frequentemente desembainho-a e deixo-a à porta de entrada de casa como se fosse um guarda-chuva encharcado.
Sento-me no sofá e acendo as várias máquinas de desencantar.
Vejo, pelo canto do olho, que a espada brilha para mim e que eu não brilho para ela.
Olho para a espada ali encostada e penso para mim que não tenho o direito de a abandonar porque isso seria também abandonar-me. E porque, mesmo que me apeteça abandonar-me, o brilho dela sidera-me, hipnotiza-me, atrai-me como a toada daquelas sereias dos poemas épicos.
Até porque não fui eu quem forjou essa espada: foram muitos outros homens e mulheres que ma deixaram como herança.
Abandonar a batalha seria traí-los.
Não sei o que me custa mais: ser vencido pelo cansaço de lutar ou sentir-me despovoado de toda essa gente…
Levanto-me desse torpor que tantas vezes me assola.
Sou fodido: Acabo sempre, teimosamente, por me decidir pela gente.
Desligo as máquinas de desencantar.
E pego na espada com carinho. Um carinho que está em tirocínio para um carinho guerreiro.
Amanhã sairei à rua para aniquilar umas quantas armas de depressão massiva.
Há momentos em que apetece pousar a espada.
E pouso-a, às vezes...
Encosto-a à parede mais próxima. Frequentemente desembainho-a e deixo-a à porta de entrada de casa como se fosse um guarda-chuva encharcado.
Sento-me no sofá e acendo as várias máquinas de desencantar.
Vejo, pelo canto do olho, que a espada brilha para mim e que eu não brilho para ela.
Olho para a espada ali encostada e penso para mim que não tenho o direito de a abandonar porque isso seria também abandonar-me. E porque, mesmo que me apeteça abandonar-me, o brilho dela sidera-me, hipnotiza-me, atrai-me como a toada daquelas sereias dos poemas épicos.
Até porque não fui eu quem forjou essa espada: foram muitos outros homens e mulheres que ma deixaram como herança.
Abandonar a batalha seria traí-los.
Não sei o que me custa mais: ser vencido pelo cansaço de lutar ou sentir-me despovoado de toda essa gente…
Levanto-me desse torpor que tantas vezes me assola.
Sou fodido: Acabo sempre, teimosamente, por me decidir pela gente.
Desligo as máquinas de desencantar.
E pego na espada com carinho. Um carinho que está em tirocínio para um carinho guerreiro.
Amanhã sairei à rua para aniquilar umas quantas armas de depressão massiva.
Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
in "Os Meus e os Dias"
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Inauguracionismo
Pois é.
O o último-ex-primeiro-ministro inaugurou hoje uma escola pública que, ao que parece, já está a funcionar há 3 anos...
talvez se tenha esquecido de a inaugurar na altura - coisa que não acredito pois, como toda a gente sabe, esta malta tem toda uma memória de elefante, a começar no Zainal Bava e a terminar no outro que "não se lembra" quem lhe fez o depósito de uns milhõezitos -.
Sugestões para algumas obras que ainda não foram inauguradas:
RUÍNAS DE CONIMBRIGA | RIO GUADIANA | CAVA DE VIRIATO | PROJECTO DE NAVEGABILIDADE DO RIO DOURO | O TOLAN | O NAUFRÁGIO DO TITANIC | A MESETA IBÉRICA
Não acrescento a esta lista as cagarras nem as vacas do Sr. Silva porque creio que ele mesmo já inaugurou as primeiras e padreou as segundas, a avaliar pelo ar de felicidade que ilustrava as suas faces quando proferiu o seu famoso discurso Urbi et Orbi "Quando as Vacas Avançavam Uma Atrás das Outras"
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
américas
foste arrumado no fundo
braço dado com a farinha
de paquetes carcomidos
à boleia clandestina
fica o orvalho pela beira
vais pra países sem chuva
mas apesar de estares vivo
fica tua esposa viúva
buscas governar fazenda
em buenos aires, no rio
levas no peito angústia
no fato o bolso vazio
desta lusa epopeia
que vives desde menino
mais não és que um enteado
de quem te pinta o destino
pela ingrata pátria mãe
terçaste armas nos quartéis
inspirado em anedotas
de padres contra infiéis
és cozido à portuguesa
és gentio, és judeu
tanto tempero levaste
"mas afinal quem sou
eu?"
e de todo esse caldo
corre por ti sangue negro
celtibero e fenício
romano, godo e grego
sonhas um dia voltar
para quem te sente a falta
e enquanto não chega a hora
vais fabricando mulatas.
(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
estrela do boieiro
nesta noite de aventura
quando o sol se fez em lua
no carro do passador
aos solavancos de medo
sonhas, pastor, com os astros
com a estrela do boieiro
(és dono do mundo inteiro?)
marujo de terra firme
peregrino de esperanças
na demanda de bonanças
ao pisar o chão de frança
não passas, pastor, de mais
um ausente dos jornais
quando tu mesmo és notícia
ai, pastor
pergunta aos outros que lá vivem, pastor
se por lá serás feliz
escravo em terra livre
construindo a cidade
àqueles que, cedo ou tarde,
sem dó te expulsarão
na berma desta aventura
cavas tua sepultura
nesta noite estrelada
saltaricando fronteiras
és contrabando, pastor
és herói, és degredado
entre a boroa e os enchidos
pastor, tu hoje é gado
(redimes algum pecado?)
pagas pena por nascer
numa terra sem viver
onde os olhos fazem sal
e as mulheres na quaresma
anseiam pelo natal
ai, pastor
pergunta lá no bidonville, pastor
se as noites que há por lá
são iguais àquelas outras
(as que tinhas no teu céu)
entre um caldo de cebola
e a tua língua-mãe.
(c) Carlos Clara Gomes
rive gauche
pela estrada acima vou sonhando
sonho lindo, clareando
novo dia, alvorada
na margem do sena eu cá estou,
entre sartre e rimbaud conjuro revoluções
cá estou eu, paris, na rive gauche
contando que não afrouxe
meu fervor de combatente
penso num país a revolver
com a fé no reviralho
(quem sabe se voltarei?)
meu amor faltas-me tanto
deram-me aqui um quebranto
nem sei se te esquecerei
pátria madrasta
és madrinha da saudade
e és vizinha do que me falta fazer
e és vizinha do que me falta fazer
vim talvez a salto, sobressalto
sem registo ou passaporte, vivo preso à utopia...
vim fugido à guerra e à bota
aterrar no torvelinho
aqui cumpro minha tropa
vivo numa terra efervescente
a semente da revolta germinando cá por dentro
sou por circunstância um exilado
trago comigo este fado de viver longe de ti
meu amor estou tão distante
da tua face brilhante
nem sei se te esquecerei
pátria ingrata tu desgraças
quem te ama e és talvez
uma irrequieta dama
quem de ti traz novidades
é arauto de verdades
que às vezes custam ouvir
terra dos meus sonhos
tão formosa és também tão enganosa
e perdes quem te adora.
(c) Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"
à deriva nos continentes
viajantes, proxenetas
embarcadiços, poetas,
ornamentos da história
em caixas de papelão,
heróis, doutores de leis
trovadores e segréis
mareantes de passagem
em rota de colisão
constam desta marinhagem
fugas em frente (viagens)
várias terras prometidas
estamos, senhores, perante
malta de faca nos dentes
à deriva nos continentes
em malaca desembarcam
e na gare de austerlitz
ou no porto de luanda
da barriga dum navio
saem pobres em caracas
no sião buscam patacas
alguns por glória de deus
a fortuna é a demanda
limpa a faca, esconde o sangue
do gume desta diáspora
desta terra prometida
que povo é este, senhores?
gente de faca nos dentes
à deriva nos continentes
há quem diga e assegure
que o fenómeno em apreço
é exclusivo das placas
que se movem no oceano
assim teriam os povos
(dos atlantes de outrora
só ficaram os açores)
ido abaixo pelo cano
outros há que, peregrinos,
fazem à história meninos
várias terras prometidas
senhores, são portugueses
povo de faca nos dentes
à deriva nos continentes
no japão compram cidades
vendem armas aos gentios
alugam a fé de cristo
trazem no peito uma cruz
em nome desse crachá
deitam fogo aos muçulmanos
e a alguns cristãos-novos
e aos judeus, por jesus
sopra o cano do fuzil
se mataste mais de mil
com ele escreves a história
mas esta pátria, caríssimos,
é, afinal, dos autores
da deriva dos continentes!
à deriva nos continentes
(c) Carlos Clara Gomes
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