terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

carinho guerreiro

Não nego que, muitas vezes, o desencanto me assalta...
Há momentos em que apetece pousar a espada.
E pouso-a, às vezes...
Encosto-a à parede mais próxima. Frequentemente desembainho-a e deixo-a à porta de entrada de casa como se fosse um guarda-chuva encharcado.
Sento-me no sofá e acendo as várias máquinas de desencantar.
Vejo, pelo canto do olho, que a espada brilha para mim e que eu não brilho para ela.
Olho para a espada ali encostada e penso para mim que não tenho o direito de a abandonar porque isso seria também abandonar-me. E porque, mesmo que me apeteça abandonar-me, o brilho dela sidera-me, hipnotiza-me, atrai-me como a toada daquelas sereias dos poemas épicos.
Até porque não fui eu quem forjou essa espada: foram muitos outros homens e mulheres que ma deixaram como herança.
Abandonar a batalha seria traí-los.
Não sei o que me custa mais: ser vencido pelo cansaço de lutar ou sentir-me despovoado de toda essa gente…
Levanto-me desse torpor que tantas vezes me assola.
Sou fodido: Acabo sempre, teimosamente, por me decidir pela gente.
Desligo as máquinas de desencantar.
E pego na espada com carinho. Um carinho que está em tirocínio para um carinho guerreiro.
Amanhã sairei à rua para aniquilar umas quantas armas de depressão massiva.


Carlos Clara Gomes
in "Os Meus e os Dias"

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