andámos ao vento, à chuva,
ao capricho da maré
fustigaram nossos rostos
com aromas de café
desenterraram as lendas
que estavam adormecidas
pintaram adamastores
velas com sangue tecidas
cortaram o mundo ao meio
como se fosse uma tarte
fizeram negociatas
enganando a outra parte
prometeram liberdades
e privilégios diversos
às gentes já condenadas
por vários crimes dispersos
e nós lá fomos (mandados!)
velejando para longe
chacinando em cada porto
sendo benzidos por monges
e que glória nos coube,
a nós, ao povo embarcado?
tormentas e bojadores
e algum ouro apresado
fizeram de nós piratas
com promessas avultadas
também fomos assassinos
nesta história rasurada
o saque não nos pertence,
alguém com ele se cose
para nós ficam as negrinhas
e mulatas por osmose
então el-rei fez saber
que fomos predestinados
e, daí, nos conformámos
(não se contrariam fados!)
o sangue já vai jorrando
sobre o ferro da conquista
pois matamos toda a gente
que à nossa cruz resista
fomos nós quem pregou (fomos nós!)
cristos de cores diferentes
e na fogueira queimámos
povos de outros continentes
faz-te ao mar, perde perdão
pela falta cometida
e não adores a estátua
do mareante homicida.
(c) Carlos Clara Gomes
Só agora descobri o blog. Vou ficar atento :) Abraço!
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