terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

encobrimentos

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andámos ao vento, à chuva, 
ao capricho da maré
fustigaram nossos rostos 
com aromas de café
desenterraram as lendas 
que estavam adormecidas
pintaram adamastores 
velas com sangue tecidas

cortaram o mundo ao meio 
como se fosse uma tarte
fizeram negociatas 
enganando a outra parte
prometeram liberdades 
e privilégios diversos
às gentes já condenadas 
por vários crimes dispersos

e nós lá fomos (mandados!)
velejando para longe
chacinando em cada porto
sendo benzidos por monges
e que glória nos coube, 
a nós, ao povo embarcado?
tormentas e bojadores 
e algum ouro apresado

fizeram de nós piratas 
com promessas avultadas
também fomos assassinos 
nesta história rasurada
o saque não nos pertence, 
alguém com ele se cose
para nós ficam as negrinhas 
e mulatas por osmose

então el-rei fez saber 
que fomos predestinados
e, daí, nos conformámos 
(não se contrariam fados!)
o sangue já vai jorrando 
sobre o ferro da conquista
pois matamos toda a gente 
que à nossa cruz resista

fomos nós quem pregou (fomos nós!)
cristos de cores diferentes
e na fogueira queimámos
povos de outros continentes
faz-te ao mar, perde perdão 
pela falta cometida
e não adores a estátua 
do mareante homicida.

(c) Carlos Clara Gomes

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