terça-feira, 22 de dezembro de 2015

carta ao João


Caro Amigo João
Haveria ainda tanta, tanta coisa para escavar, tantas agradáveis e sábias conversas a plantar em mim e nos que o soubessem escutar para lá do arqueólogo, para lá do académico, para lá do político...
(E não era preciso escavar muito para chegar ao Homem)
Haveria, certamente. Havia sempre.
Está ainda a custar-me encontrar o tempo verbal adequado quando me refiro a si depois de ter tido conhecimento do que ocorreu.
Sei que um dia nos iremos encontrar. Sei bem disso.
E sei que celebraremos o S. João com alguma folia. Também, disso, estou perfeitamente ciente.
Até esse momento espero-o, disfarçado de vento ou de chuva ou de poeira ou dum raio de luz matinal.
Ou de um passarito invisível, daqueles que nos poisam no ombro quando escrevemos algo que mais tarde não acreditamos termos sido capazes de escrever.
Apetece-me cantar estes versos do Silvio Rodriguez:
"[...] Soy feliz, soy un hombre feliz
Y quiero que me perdonen
Por este día
Los muertos de mi felicidad [...]

Voa, passarito!

Carlos Clara Gomes

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