Com este Homem aprendi muito.
Pela mão dele comecei a minha aventura no Teatro.
Primeiro fazendo música e sonoplastia para Arraia Miúda e, mais tarde,
submetendo à sua apreciação severa e cruel mas simultaneamente humana e
terna, os textos que eu ia escrevendo, as canções que eu ia compondo.
Tivemos mil projectos para fazer juntos. Umas vezes calhou, outras não.
Percorremos quilómetros e quilómetros de estrada para levar a palavra a locais onde imperava e ainda impera o medo.
Assisti a autênticos comícios feitos por ele em aldeias ignotas e
ostracizadas para públicos que a paixão do Jaime transformava em grandes
arenas e coliseus.
Comemos pó que nos fartámos.
Bebemos água à beira da estrada.
Ensinou-me a cavar trincheiras usando as canções.
Ensinou-me a remar na Barca de Mestre Gil e em outras Barcas.
Ria-se do inferno.
Ria-se da indigência moral.
Ria-se sinceramente.
Ria-se.
"Sou apenas um cómico amador" dizia amiúde.
Escutava com sábios silêncios os meus devaneios de jovem apaixonado pela vida e sedento de uma Revolução.
Ensinou-me que a Revolução é a nossa casa porque ela está dentro de nós, assim o queiramos.
Ensinou-me.
Aprendi-lhe.
Grande parte do que sou devo-o a ele.
Resistiu.
Fez a guerra.
Fez as pazes.
E fez a guerra outra vez.
E fez as pazes outra vez.
Embarcou numa Barca sem barqueiro, que ele não era homem para ser conduzido.
Foi para um plano que é habitado pelos Gigantes, pelos Enormes.
Neste momento está já a converter Gil Vicente para uma Revolução urgente e imperiosa.
Senhoras e Senhores, chama-se Jaime Gralheiro, "apenas um cómico amador", pastor de causas malditas, soldado dos pobres, amante da Vida.
Até Sempre, Camarada!
Do teu amigo, que deixas cheio de saudade,
Carlos Clara Gomes.
Viseu, 21 de Junho de 2014

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