Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
carta ao Rui
O Rui Louro foi-se.
Conheci-o nos tempos de Liceu de Viseu.
Ele já era muito mais espigadote. Talvez uns dois ou três anos mais do que eu.
E este detalhe fazia, então. toda a diferença naquele 1974.
A fornada donde saiu o Rui adquiriu consciência política por ter lido O Capital do Marx e as Obras Escolhidas do Lenine. A minha apenas tinha adquirido alguma consciência por ter lido Os Subterrâneos da Liberdade e O Cavaleiro da Esperança, do Jorge Amado.
Mais tarde percebi que não foi bem assim: Quase ninguém tinha lido O Capital e as Obras Escolhidas do Lenine seriam as Obras Escondidas porque literatura dessa não chegava cá antes de Abril.
E depois de Abril havia tanta coisa para fazer num país em escombros que a grande maioria que os leu, leu-os de viés, começando a meio do segundo parágrafo da página par e indo directamente para o meio do último parágrafo da página ímpar.
Mas o Rui não era desses leitores enviesados: O Rui leu muita coisa e aprendeu vida com aquilo que leu. Mas, mais importante do que os clássicos da moda terem levado o Rui à Vida, a Vida também tinha levado o Rui a lê-los. E foi por haver durante todas as modas pessoas como o Rui que os clássicos não se confinaram ao estatuto de efémeros.
O Rui foi um dos primeiros comunistas que eu conheci. E, simultaneamente, um perigoso revisionista, no dizer da então minha agremiação, o MRPP.
Contudo, a despeito dessas coisas que nos clivavam então, havia o cultivo também da amizade, esse sereno mas intenso laço que une as pessoas na idade do deslumbramento e que nenhum senão logra desatar: sempre tive uma admiração e um respeito pelo Rui, como tinha pelos comunistas do PCP, meus inimigos ideológicos nesses entãos. O Rui morava por cima do Monte Branco, o café dos queques, e baixava a Avenida 25 de Abril rumo ao Centro de Trabalho do PCP na 21 de Agosto. Um dia, já depois do Novembro ter fechado as portas que o Abril do Ary dos Santos abriu, segui, resoluto, o Rui. Meti conversa, nunca me esquece, a propósito do álbum Quadrophenia, dos The Who. Subi com ele a escadaria do Centro de Trabalho do PCP, ambos fazendo ouvidos moucos aos apartes reaccionários produzidos pelo sapateiro que ocupava o vão de escada. O Rui defendia a tese de que a Ópera-Rock Tommy ultrapassava em larga escala o Quadrophenia. Por pouco não houve crispação: Na altura eu levantava fervura em pouca água. Até mesmo sem água. Continuámos o debate e metemos à conversa o psicadelismo dos Pink Floyd. Já na altura - ainda não tinha acontecido a primeira Festa do "Avante!" - e já corria a lenda de que "para o ano que vem, os Floyd são capazes de lá ir".
O Rui agarrou-se a um copiador de stencil e começou a passar a tinta no rolo e a fazer a sua tarefa militante. Era um compromisso. Aprendi nessa tarde a importância da palavra compromisso. É uma coisa que se faz porque outros contam connosco e não porque temos tempo livre para a fazer. Também aprendi nessa tarde que os soldados da Liberdade vivem o paradoxo de não terem tempos livres. Tudo isto entre conversas sobre música (o Rui era baterista e tocou até ao momento em que nos fez a desfeita de nos pregar esta partida), literatura, futebol, política, histórias da clandestinidade e tantas outras coisas. Naqueles tempos as tardes davam para falar disso tudo e ainda sobrava tempo para ficarmos em silêncio a ouvir os nossos próprios pensamentos.
Na tarde do dia seguinte voltei.
Não voltei para ir falar com o Rui. Voltei por mim. Porque tinha decidido na véspera mudar a agulha do comboio onde eu viajava. Senti que deveria mudar de comboio pois sentia que aquele comboio é que me levaria à estação que eu queria.
Não pretendia ser um herói, nunca quis. Nem quero! Mas queria, isso sim, construir-me através do convívio com heróis. E, para mim, aqueles que ali entravam e tinham resistido ao assalto às sedes dos partidos de esquerda, eram heróis: as pedras arremessadas pelos arruaceiros furiosos testemunhavam isso na varanda. E ainda lá ficaram muitos anos depois no ofício de testemunhar para quem não soubesse.
Ou seja: no dia seguinte entrei para a União dos Estudantes Comunistas, a UEC.
Essa tarde com o Rui foi importante para mim. Devo-lhe isso.
O Rui foi também, mais tarde, o primeiro dissidente do PCP que eu tinha conhecido. E isso deixou-me uma imensa tristeza.
Porém, até na sua saída, soube mostrar-me um exemplo de dignidade pois nas inúmeras conversas que tivemos posteriormente nunca tocámos nesse assunto.
Para quê?
Sabia que o Rui queria a mesma estação que eu queria.
Estas coisas são assim: há quem, para ir para o mesmo lugar, prefira as auto-estradas e há quem prefira as nacionais. Amigo não empata amigo pois sempre soubemos para onde queríamos ir. Essa estação chama-se Homem Novo.
E o Rui, nesta hora, deve já ter percebido melhor do que nós, aqueles que o choramos agora, como é e quem é esse tal Homem Novo.
Até um destes dias, Rui.
Vai montando a bateria e preparando a sala de ensaios para fazermos uma Jam.
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