quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

a carreira dos sonhos


E pronto, cá estamos em 2016.
Mais um bissexto.
Começo hoje as comemorações dos 45 anos em que piso palcos. Estas comemorações arrastar-se-ão ao longo deste bissexto.
Mas hoje quero lembrar aqui e agradecer a todos os que comigo pisaram palcos e que comigo comeram o pó da estrada, esse pó que tantas alegrias trouxe mas que tantas dores e amarguras soube trazer também, esse desgraçado.
A esta hora não me consigo lembrar do nome de todos e nem sequer de todos os projectos e utopias em que me meti. De cabeça, diria eu. Não sei se é exacto dizer que foi de cabeça.
Mas de coração foi-o, asseguro-vos com toda a certeza. E com Amor.
Porque esse tal amor ao próximo, esse tal amor universal tem sido muitas vezes amor em tempos de cólera - para ir roubar a deliciosa intitulação ao grande Gabo -.
Pessoalmente, preferiria que fosse amor em tempos de amor.
Mas, tal como acho que não existe a Arte pela Arte, essa quimera que tem gasto páginas e saliva a literatos e teorizadores, talvez o Amor pelo Amor também não exista. Talvez seja uma outra quimera onde tantos poetas e corações apaixonados têm navegado desde sempre, desde que o tal Big Bang teve aquele orgasmo e foi parido o Universo.
Talvez exista, isso sim, o Amor pelo Mundo, aquele Amor que só se faz com a arte de quem ama e do qual eu sou ainda um obscuro suplente para estagiário de apanha-bolas.
Mas acredito que lá chegarei um dia.
E que todos lá chegaremos um dia.
Um belo dia, se querem saber, pois é naquilo em que acredito.
E que, nesse dia, todas as portas se escancarão, obscenas.
E que nesse dia muitas utopias perseguidas deixarão de o ser apenas porque se tornaram tangíveis.
E que passaremos a ter outras utopias porque o Sonho, esse cabrãozinho que nos move, vem recheado dum desejo que não se sacia jamais.
Ao longo destes anos quis fazer muitas coisas.
Algumas fi-las.
Outras, outros as farão se eu não tiver tempo para tal pois tenho andado muito ocupado entre as várias tarefas a que me dedico diariamente, entre as quais destaco: a sobrevivência, o sonhar coisas, o fazer com que essas coisas o sejam mais do que o meu sonho, o partilhar sonhos com outros.
E quero que saibam que tudo isso se resume na palavra sobreviver:
Sobreviver ao medo, ao cataclismo que nos amarfanha o pensamento e o amor, sobreviver ao autoclismo que nos manda os sonhos pela pia abaixo, sobreviver à ordem estabelecida que nos uniformiza e que nos faz acreditar que somos livres sem o sermos.
Estou feliz porque me sinto bem.
Já fiz muitas coisas. Mais do que pensaria alguma vez poder vir a fazer.
Mas, sobretudo, já fiz muitas coisas com muita gente. E porque muita gente me empurrou para as fazer.
De toda essa gente aprendi coisas. Também servi de veículo de transporte desses ensinamentos de umas gentes para outras gentes. E dessas novas gentes também aprendi coisas. Sempre. Com a avidez de quem tem sempre muita sede.
E como me é impossível - apenas porque não quero correr o risco de não falhar algum - citar todos os nomes daqueles com quem partilhei isto a que, talvez pomposamente, chamo de carreira, aqueles que se sacrificaram comigo ou por mim para que hoje eu aqui chegasse sem que tivesse desistido, condenso o meu abraço em sete lindos seres humanos sem os quais nada disto faria sentido:
Luis, Laura, Macarena, Rui, Camila, Dahiana e Lia.
Peço-vos um brinde:
À NOSSA!
À VIDA!

Foto: Ramon Freitas

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