Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Liberdade
Seria mais uma quinta-feira cinzenta naquele meu Portugal cinzento.
E frio, também, porque o calor e o sol eram coisas que só o Algarve (o genuíno e não o Allgarve) me proporcionavam a mim, um miúdo de cidade de província com medo de Deus e da Pátria.
Lembro-me bem... ia ter Matemática...
Ia a pé para o Liceu Nacional de Viseu - hoje a Escola Secundária de Alves Martins, assim chamada para homenagear um Bispo que não tinha medo de Deus.
Subia as escadas do parque - hoje Parque Aquilino Ribeiro, esse carbonário que eu na altura conhecia pela mão adestrada do professor José Lemos, pessoa enorme apesar do seu tamanho franzino e aspecto débil mas que tinha escondida no bolso de dentro do seu fato castanho uma varinha de condão que usava de forma indelével para que nos apaixonássemos pelo nosso idioma.
E também pelos seus obreiros, aqueles que o regime permitia que lêssemos com sofreguidão como se fôssemos náufragos em busca de água potável.
Ia a pé para o Liceu para poupar cinco ou dez tostões (já nem lembro quanto custava o autocarro dos Hermínios).
Esse dinheirito que amealhava diariamente por vir e ir a pé durante a semana servir-me-ia para, aos Sábados, ira o cinema. Havia sessão dupla. E sempre poderia fintar os porteiros quanto à minha idade pois já tinha uma barba rija nos meus quinze anos.
Lembro-me bem... ia ter Matemática... Com o professor Dias, que apesar de se esforçar por me fazer compreender a grandeza da Matemática não lograva que eu amasse tal disciplina.
Eu compreendia a grandeza da Matemática e isso tudo.
Mas não a amava tal como amava Português ou História.
Anos mais tarde viria a descobrir que a Matemática me amou sempre, um amor não correspondido. Lamento imenso, querida Matemática. Mas nunca me fizeste ferver o sangue nas veias...
Pois, dizia eu que subia as escadas do Parque e o Beto Peliz, do alto da escadaria gritava, com a capa dos livros na mão, parece que o estou a ver: "Houve um golpe de Estado!"
Seguramente, ele saberia melhor do que eu o que era um golpe de estado. Isso eram coisas que se falavam no seu seio familiar, filho que era dum militante clandestino.
A primeira coisa que me ocorreu foi: "Então não devemos ter aulas!"
A esta hora já terão percebido o porquê de trazer a Matemática à colação pois foi porque foi a primeira aula que tive em Liberdade.
Com efeito, entrados para a sala de aula (que houve, afinal), essa doce palavra estava escrita a giz a todo o tamanho dos dois quadros negros: LIBERDADE.
Não foi numa aula de Português.
Nem numa aula de História.
Foi numa aula de Matemática, essa amante desamada por mim, que me foi explicado tudo sobre o Portugal.
E então percebi que era possível.
E então percebi que até esse momento eu não era livre.
Numa aula de Matemática.
No fim, fizemos uma visita de estudo.
Fomos observar os portões do 14, o Regimento de Infantaria, acompanhados pelo professor Dias.
Gostaria de ser outra vez esse miúdo de 15 anos.
Gostaria de sentir outra vez aquele átimo de Liberdade que sorvi, que respirei nessa quinta-feira cinzenta e quase chuvosa desse Abril.
Nesse momentinho pequenino em que aquela singela e única palavra escrita ali, uma palavra tão grande, afinal, que ocupava dois quadros negros escolares, foi pela primeira vez lida pelos meus olhos de garotito já com barba mas com a alma ainda imberbe.
Dou-me conta agora que foi esse o momento em que comecei a sonhar.
Sei que um dia nos veremos outra vez, querida Liberdade. Mais aquém ou mais além.
E sei que não serás a palavra oca que hoje és.
Com o passar dos anos, tornaste-te uma puta fina, querida Liberdade.
Mas crê-me, gostava mais de quando eras uma vadia sem poiso certo.
Carlos Clara Gomes
Viseu, 25 de Abril de 2015
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário