terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Carta ao Eduardo


Eduardo, foste embora no dia do beijo.
Tu, que nos beijavas com as tuas palavras óbvias, aquelas que "qualquer um de nós" diria mas que nunca nos ocorreu escrevê-las.
Foste e és a palavra viva e acesa da tua/nossa Pátria Grande, a mesma pátria de Martí, a mesma pátria de Bolívar, a mesma pátria de Garibaldi, a mesma pátria de Zapata e Villa, a mesma pátria de Artigas. E a pátria do Che, ele, como tu, também um homem do Plata, um Plata que transbordou Américas e Mundos.
E, afinal, a mesma pátria também de Torga: "O universal é o local sem as paredes".
E foste embora justamente quando mais precisávamos de ti, meu grande ingrato!
Tu, que nunca te cansaste de denunciar a opressão, a cobiça, a negligência social.
Tu que, acutilante, nos apontavas o dedo acusador mas fraterno naquelas vezes em que, lendo os teus escritos, julgamos que estás a falar das pessoas que nos rodeiam. Mas que, afinal, também nos apontas o dedo, a todos e a cada um de nós, escarafunchando as nossas almas, trazendo os nossos defeitos à tona de nós mesmos...
Tu, que sempre soubeste denunciar os bois, chamando-os pelos nomes pois sempre conheceste bem os bois com que aras...
Vai, agora, andorinha louca e sã!...
Voa para o céu dos carecas que fizeram da vida um local soalheiro apesar das chuvas e dos granizos que ocasionalmente caíram, aquele céu onde te sentarás sorvendo o teu mate.
"La mujer y el hombre soñaban que Diós los estaba soñando" dizes tu, abrindo a tua magistral trilogia La Memória del Fuego.
Nunca ninguém soube como tu escrever o inescrevível. Pois as emoções não se conseguem escrever. Mas tu conseguiste.
Vai.
Beijo-te essa careca reluzente no dia do beijo,
Beija a minha alma sequiosa de ti.
Ainda te preciso muito.
Ainda te precisamos muito
Um dia lograrei encontrar-te nesse céu dos carecas, se eu conseguir passar nos pré-requisitos de entrada.
E tomaremos um mate amargo.
Hasta Siempre, pelao!...

Carlos Clara Gomes

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