Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
crónicas na acert
A Companhia DeMente inaugura na ACERT mais uma digressão da CRÓNICAS DO INVERNO.
Depois de cumprido um ciclo de 11 apresentações, iniciado em Junho, é com muito gosto que iniciamos este novo ciclo no NOVO CICLO, este espaço congregador onde tantos de nós aprendemos a caminhar, tenteando equilíbrios próprios de quem descobre umas quantas coisas por descobrir.
E o lindo da coisa é que este Espaço não é só um cabimento geométrico confinado a umas paredes: Espaços e respectivas paredes há em todo o lado, apesar de ultimamente até haver mais paredes do que espaços…
Pois é: mais do que este Espaço, respira-se aqui um Tempo que não envelhece porque em devido tempo soube tomar o elixir da terna juventude: e é o Tempo que torna a espacialidade deste Espaço assim tão especial…
Mas, mais ainda do que o Tempo, há o Modo. E é esse farsolas que dá sentido ao Tempo – não um qualquer tempo, mas o “tal” Tempo – respirado por várias safras de gente que têm trazido aportes diversos, que têm marcado diferenças na diferença que é este Espaço, esta Tempo, e este Modo…
E, num Tempo em que o Modo desfere libelos acusatórios contra quem nos trouxe até à Arca Perdida da dignidade, este espectáculo serve também como homenagem a uma geração sonhadora e abnegada, prensada entre os herdeiros do Maio de 68 – na sua serôdia versão lusa que foi Abril – e um novembro sem direito a maiúscula.
“É a crise”, ouvimos dizer agora...
Agora? Sinceramente, não é de agora que ouvimos isto.
Faz lembrar a Cantiga da Velha Mãe e dos seus Dois Filhos, do Zé Mário e do Godinho... Pois, às tantas, Portugal e Crise nasceram no mesmo dia, irmãos gerados no mesmo útero:
«Ai o meu pobre filho que rico que é / Ai o meu rico filho que pobre que é / Nascidos do mesmo ventre / Um vive de joelhos para o outro passar à frente».
No entanto, nos agoras em que agora vivemos, já nos levaram o Espaço: porque sem a Liberdade (que nos vão tirando dia-a-dia) não há espaço. Nem vice-versa.
Apenas este Portugal-espaço se mantém...
O Portugal-Tempo parou, adulterado pelas horas ordinárias a que somos forçados.
E há quem almeje vindas messiânicas duma qualquer rançosa bota cardada ou duns quantos Spartacus que nos quebrem os grilhões.
Tontitos, estes últimos: Não percebem que não há quem possa libertar quem entregou as chaves ao carcereiro... Como querem ser salvos da forca se ofereceram o machado ao algoz?...
Mas ainda não nos levaram o Portugal-modo: esta estranha forma de vida deste belo povo que, no dizer dum César-Merkl da altura, «nos confins da Hispânia há um povo que não se governa nem se deixa governar».
Assim, se já nos roubaram o Espaço e o Tempo, que não nos levem também o Modo.
Porque gente sem modos não é gente (ainda que não se governe e ainda – e ainda bem! – que não se deixe governar).
Carlos Clara Gomes
Tondela, 2 de Fevereiro de 2013
Foto:
(c) José Guilherme Lorena
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