Escritos produzidos de forma pretensiosamente poética e outros devaneios. Muitos rascunhos em viagens sempre que uma imagem me assalta. Para os meus. Durante os dias que vivo. Porque falam de Vida. Ainda que possam referir mortes aqui ou ali.
sábado, 26 de dezembro de 2015
alma líquida
não sabia...
juro que não sabia...
pouco dela imaginava que não fosse aquilo que ela escrevia na parede da sua casa que, afinal, é a rua:
e até mesmo isso já dela tanto contava, pois há nessa rua cibernética, nessa rua virtual a água de beber de quem é pessoa sedenta de escrever nas suas paredes, grafitter na virtualidade partilhada.
porque só quem ama a rua consegue amar na rua.
e há nela, que tanto ama a rua, tanta sede de amar na rua!...
e foi assim:
pouco dela era - juro - aquilo que imaginava...
talvez apenas algumas misteriosas histórias contadas pelos anéis dos seus caracóis, então tantos!...
e, mesmo essas histórias, eram epopeias guardadas naquelas lindas espirais, pequenos cofres feitos de cabelo que eram...
aliás: o tempo verbal "eram" nem é o mais correcto pois subsistem provas de que esses novelos existiram, para provar aos incréus através de inúmeras evidências fotográficas, o que faz com que persistam vivos apesar das mutilações e das suas cíclicas vontades de alisar rebeldias.
e quem os observe com rigor de detalhista, constatará que vivem mexendo-se ao ritmo do sorriso enigmático, esses caracóis que teimam em afirmar-se a despeito de tesouras e outros utensílios que visem alterar o seu formato de cachos viçosos, crianças que são no seu afã de adolescer...
e esses caracóis não eram apenas ilustrações dos seus enigmáticos sorrisos.
logo ela, a única gioconda que se move e que também está guardada num museu que só esse nome merece por enclausurar uma tal jóia tão rara.
sim, porque esse sorriso, a meio caminho entre a folia negada e a lágrima imerecida, é, na verdade, a cristalização de alegrias sonhadas e de dores gravadas na sua alma com cinzel de pedreiro que ela tenta sepultar com colher de trolha e cimento.
mas não há cimento que segure essas dores nas feridas que ela permitiu em si que lhe abrissem.
não há.
e, volta e meia, uma dessas dores sai cá para fora, sai do ataúde que ela julgava ser seguro, sai rumando a outros escaninhos, outros esconsos e devãos que ela mesma desconhece possuir, que ela mesma ignora de todo que existam dentro de si mesma...
e essa dor vem morder-lhe órgãos vitais, lancinante, excruciante, arregalando-lhe os belos olhos para o pranto que nela urge.
e é aí que os olhos, essas belas goteiras, servem de tubo-ladrão a tanta dor.
mas nunca dão vazão a tanta mágoa, a tanto amarrotar de alma.
mas, apesar de tudo, os caracóis obstinam-se em crescer na sua cabeça, uma cabeça que retém memórias de planuras e cachoeiras e passaredo colorido.
e de feras.
e de pores-de-sol que só por lá existem.
ali e em mais lado nenhum.
e só quem nasceu num local conhecido por ali ser o fim-do-mundo, onde a terra enfim se esgota de ser terra para se desterrar todinha no mar, só gente assim percebe isso...
eu não percebo, sou sincero.
mas gostaria de perceber.
gostaria de lhe aprender isso dela.
gostaria de lhe aprender isso, em vez de ficar entregue ao ofício de me fascinar pelo brilho dos seus olhos, quando os seus olhos brilham naquele brilhar em que se vê mesmo que não é um brilho de ver para fora...
pois nesses mágicos instantes sei que ela está a olhar para dentro de si mesma, a ver todas as áfricas que já existiram, a saborear todos os sabores que já lá foram cozinhados e colhidos das suas árvores, a cheirar todas as histórias que já viveu em todas as vidas que ela viveu...
e que, essas áfricas, ela faz com que aconteçam fora de áfrica.
e ela lá vive durante aqueles breves e fugazes instantes em que se desprende daqui - seja este aqui o que seja - para voar em busca de si mesma e da identidade da sua alma temperada por europas insossas e sensaborãs.
esta mulher é uma agência de viagens de si mesma.
voa e revoa em si.
e, nesses momentos, queria eu entrar por esses olhos e nadar dentro dela, dentro das paisagens e sabores e cores e aromas que lhe povoam o ser.
mas é isso mesmo que é ser-se: é não se ser outra pessoa.
eu sou eu. ela é ela.
nunca eu viajaria nos seus sentires mesmo que ela soubesse deixar-me tal fazer...
nunca conseguiria...
mas é pena...
porque um imenso mundo lhe inunda a alma de menina...
e sinto, confesso, inveja em não ser ela nesses momentos.
porque poderia desfrutar de tais viagens? não...
apenas porque poderia estar dentro dela.
ser ela durante um átimo que fosse...
sabê-la...
e, juro-vos que não sabia, mas era para mim mais do que evidente que só quem nasceu num lugar assim tem essa vertigem pelo calçado raso pois é uma forma de mais perto estar do chão-terra-mãe...
ou pelas botas, protecção contra lacraus e serpentes...
mas suspeitava, isso sim, suspeitava, que aqueles caracóis em permanente rebeldia lhe dirão isso mesmo algum dia: "olha, rapariga, olha que nada contem a vontade de rebeldia quando essa rebeldia vive da vontade de se rebelar".
Carlos Clara Gomes
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